Crítica | Hellboy II – O Exército Dourado

Independente do fracasso comercial que tenha sido o primeiro Hellboy ou do quão problemático aquela primeira investida do vermelhão nos cinemas tenha sido (culpa de um roteiro cambaleante), seria injusto que Guillermo Del Toro não pudesse abusar de mais uma chance de explorar aquele vasto universo elaborado nos quadrinhos de Mike Mignola, e cujos traços de inventividade deram as caras em momentos pontuais no filme original. E depois que a Sony desistiu da ideia de bancar a continuação para Del Toro, pareceu bastante conveniente que os direitos do demônio sarcástico fossem entregues para a Universal, cujos sucessos do passado e do presente envolviam o nome de grandes e lendárias criaturas do cinema como Drácula, Frankenstein e O Homem Invisível.

E a decisão foi acertada. Se Hellboy era um filme de potencial imaginativo pouco explorado, O Exército Dourado dá asas à imaginação para tudo que é possível na mente de Del Toro dentro naquele universo, e aqui finalmente damos de cara com aquele autor que, amante das criaturas bizarras em dentro de suas realidades fabulescas, os usa como ponte para falar de humanidade, sentimentos e vulnerabilidade, e mesmo com um veículo de ação explosiva como O Exército Dourado, o cineasta sabe como compreender seus personagens e enxertar estes temas com uma sensibilidade inovadora para os padrões hollywoodianos sem deixar o fator diversão de lado.

E o primeiro acerto? Ter chutado o dispensável agente Myers (Rupert Evans) de forma conveniente para a Antártica, permitindo que o foco do roteiro de Del Toro seja, em primeira mão, na conturbada convivência a dois de Hellboy (Ron Perlman) e Liz (Selma Blair), para partir daí e se dividir em plots que acompanham um ao outro de maneira muito orgânica, como o surgimento do novo vilão, o Príncipe Nuada (Luke Goss), que deseja retomar o controle do lendário Exército Dourado (que nos é mencionado pela primeira vez numa abertura que já nos dá sinais do nível de imaginação desta vez) para preservar a sobrevivência de sua linhagem, e sua irmã, a Princesa Nuala (Anna Walton), que é contrária às atitudes do irmão e o abandona com seu plano, o que em dado momento lhe fará ir de encontro ao anfíbio Abe (Doug Jones), com quem desenvolverá sentimentos inusitados.

Não apenas enxergando seu filme como uma adaptação, Del Toro é competente ao unificar seu estilo próprio de autor com a explanação do universo apresentado, o que permite que o visionário cineasta fantástico viaje como poucos pelas ideias e possibilidades concebidas, algo equiparável apenas ao que Peter Jackson conseguiu com a trilogia Senhor dos Anéis. E se O Exército Dourado ainda não é tão ambicioso quanto as viagens pela Terra-média (imagine se ele, de fato, tivesse comandado a trilogia O Hobbit), o que não lhe falta são respiros constantes de um humor criativo, timing narrativo, personagens mais entrosados e uma nova variedade de design de cenários e criaturas que, a cada novo olhar, surpreendem pelo grande número de detalhes e uma riqueza própria em suas concepções. Todo o ato no mercado troll é um show à parte para os olhos, e denota o quanto Del Toro e sua equipe deram tudo de si na elaboração destas criaturas, das mais importantes até as passageiras. E com isto, tanto a direção de arte de Judit Varga quanto o design de produção de Stephen Scott são felizes ao conferir esta identidade própria ao mundo de Hellboy, evitando que os atores sumam debaixo dos quilos de maquiagem e possam conferir sua própria personalidade aos personagens, algo que atestamos principalmente no impressionante e fluído trabalho de corpo de Doug Jones com Abe Sapien, de longe o ponto alto da equipe técnica

Del Toro igualmente demonstra esse cuidado no desenvolvimento cada vez mais humano de seus personagens, que beneficiados pela apresentação no longa anterior, finalmente são trabalhos dentro de uma interação mais justa no que concerne  a sua diversidade de personalidades e conflitos. Liz, em especial, enfim sai da posição de interesse romântico do protagonista para ser humanizada nos mesmos passos do vermelhão, com quem divide atos de companheirismo e brigas que transformam o romance entre os dois num envolvimento palpável e pelo qual podemos torcer. Igualmente, a aproximação entre Abe e a Princesa Nuala confere maior vulnerabilidade ao anfíbio que, ao lado do grandalhão, protagoniza o momento mais engraçado e comovente da fita. Aliás, vale ressaltar não apenas o trabalho corpóreo tão expressivo de Jones como Abe, mas também em sua ponta como o Anjo da Morte, repleto de trejeitos femininos assustadores e que confirmam o talento deste mímico ao nível de Andy Serkis, por exemplo.

Ron Perlman, é claro, parece ter encontrado o papel de sua vida com Hellboy. Tão sarcástico e irônico quanto no anterior, apesar de menos anti-social, é tão divertido quanto envolvente acompanhar o demônio de bom coração tentando se adequar à vida conjunta com Liz enquanto tenta identificar onde estão seus erros para tantos desentendimentos com a mulher que ama (“Eu daria a vida por ela, mas ela ainda quer que eu lave os pratos!”). E Selma Blair encara bem os novos desafios de sua personagem, que se vê diante de novas questões cujas decisões afetam não apenas a ela, mas sua relação com Hellboy. E se o original nos trazia um antagonista de pouca presença e nenhum senso de ameaça, aqui o efeito se inverte quando o Príncipe Nuada se apresenta como um vilão de objetivos bem delineados e que ultrapassam o mero desejo de dominar o mundo.

E Del Toro, aqui mais desenvolto na manipulação das cenas de ação, encontra enfim o senso de espetáculo visual que marcou o cultuado O Labirinto do Fauno, dividindo-se aqui o uso constante de seres animatrônicos (o divertido Johan Krauss, dublado por Seth McFarlane, é um achado neste sentido) e efeitos digitais que se fazem presentes somente quando necessário, como na sequência de ação nas ruas da cidade ou no iminente confronto com o exército dourado. De quebra, o cineasta encontra brechas para enxertar uma certa poesia trágica mesmo nas cenas mais movimentadas, dialogando com a rejeição da humanidade diante do que não lhes parece normal ou aceitável aos olhos.

Comprovando ser um exímio narrador de histórias fantásticas, não seria exagero nenhum apontar O Exército Dourado como uma das melhores fábulas cinematográficas da década passada, seja ao lado do próprio O Labirinto do Fauno ou do incompreendido A Dama na Água. Para além da identidade do gênero com o qual trabalha, Del Toro se revela um cineasta de visão sensível e imaginação vasta, algo reconfortante para o que há de mais popular em Hollywood.

Hellboy II – O Exército Dourado (Hellboy II: The Golden Army) – Alemanha/EUA, 2008
Direção: Guillermo Del Toro
Roteiro: Guillermo Del Toro, baseado em quadrinhos de Mike Mignola
Elenco: Ron Perlman, Doug Jones, Selma Blair, John Hurt, Seth McFarlane, Luke Goss, Jeffrey Tambor, Anna Walton
Duração: 120 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.