Crítica | Hellboy

Há uma grande questão de risco nas adaptações de quadrinhos e grapic novels, e que nem sempre precisam envolver super-heróis (Marcas da Violência é adaptação de uma HQ, para quem não sabe), que se referem a qual maior parte do público irá satisfeito com o resultado final: se os fãs, ávidos por uma nova leitura que faça jus ao material que idolatram, ou os que não costumam construir qualquer contato com suas raízes, e apenas esperam poder assistir a um bom filme, se isentando de comparações.

Hellboy chegou aos cinemas na década passada em um ambiente favorável, quando os filmes de super-heróis começavam a pipocar nas telas (em menor proporção do que temos hoje, claro) e o personagem vermelho, antes desconhecido, poderiam finalmente ser tomado pelo conhecimento popular. E entre sucessos (os dois Homem-Aranha de Sam Raimi) e fracassos (o renegado Hulk de Ang Lee) deste meio, a criatura vermelha idealizada por Mike Mignola (que participou como ilustrador do Drácula de Bram Stoker de Francis Coppola e consultor visual de Blade II, que será mencionado logo mais) tentava ganhar seu lugar ao sol em meio aos milhões da indústria, o que felizmente lhe obrigou a ser mais que um filme para fãs, no objetivo de conquistar o maior público possível.

E por mais que analisemos Hellboy friamente, há muito a ser admirado em seu primeiro esforço para ganhar as telas, que caiu nas graças de ninguém menos que Guillermo Del Toro, que acabava de vir da coleção de elogios que abocanhou com Blade II, e se refletirmos bem, há muito no filme do vampiro de Wesley Snipes que encontra ecos no que Del Toro reproduz em Hellboy, e que viriam receber sua confirmação em projetos posteriores como O Labirinto do Fauno, destacando aqui a humanização de personagens fora do ambiente humano e normalizado. Encontrado durante a Segunda Guerra Mundial pelo professor Trevor Bruttenholm (o finado John Hurt) como um pequeno demônio evocado durante a abertura de um portal para outra dimensão, Hellboy (o gigante Ron Perlman) cresce como uma espécie de justiceiro às avessas, sempre sarcástico, arrogante e cínico, mas dono de um bom coração e amante de gatos. Não demora para que o chefe nazista responsável por abrir o portal que o trouxe à terra ressurja com mais uma ameaça, enquanto Hellboy tenta equilibrar seu romance com a poderosa, mas instável Liz (Selma Blair).

A concepção do universo de Hellboy é de uma riqueza ímpar e isto não há como negar, e não somente pelas heranças que a adaptação obviamente traz dos quadrinhos de Mignola, mas pela própria maneira quase reverencial com que Del Toro se posiciona para a estruturação daquele universo. Amante de toda beleza que pode ser extraída do que pareça inicialmente bizarro, o diretor e sua câmera valorizam cada ponto da estética futurista naquela ambientação, seja pelos cenários que se formam num conjunto de arquitetura, elementos cênicos e iluminação definitivamente harmoniosos (ressaltados pela fotografia competente de Guillermo Navarro), ou no trabalho de maquiagem absurdamente equilibrada de Rick Baker, veterano e dono de um longo currículo que traz consigo filmes como O Grinch, MIB – Homens de Preto II e King Kong (2005). Dosando com perfeição os quilos de maquiagem no rosto dos atores para que a expressão e o trabalho corporal dos atores não saia prejudicado, é impressionante como o elenco consegue trazer vida própria debaixo de caracterizações tão inusitadas, seja pela pele vermelha de Hellboy ou a fluidez do anfíbio Abe Sapien, talvez o resultado mais satisfatório de toda a equipe técnica.

E tão inusitado quanto tudo isto é a personalidade palpável que Ron Perlman, um ator sem qualquer outro ponto curioso em sua filmografia, confere ao inconsequente Hellboy. De aparência nada amigável, posicionamentos indóceis e muita tiração de sarro, Perlman é muito eficaz na humanização do personagem por detrás de sua aparência, em especial quando precisa lidar com sua aproximação com Liz e a chegada de John Myers (Rupert Evans), que parece estar interessado em sua amada. Perlman consegue transformar os sentimentos e ações do vermelhão em momentos verdadeiramente humanos, no que se torna quase impossível não simpatizar com o carisma e vulnerabilidade do grandalhão.

Mas se a paixão entre Hellboy e Liz recebe esse cuidado especial do roteiro escrito pelo próprio Del Toro, o mesmo não pode ser dito da relação entre o protagonista e o professor Bruttenholm, que para uma presença de importância vital na formação de Hellboy, possui um tempo de cena injusto e poucas oportunidades para que um ator do porte de John Hurt possa trazer mais camadas ao mentor do herói. Se sabemos que a relação muito próxima como a de um pai com um filho existe entre os dois, é apenas porque o roteiro nos diz em poucas linhas que ela existe, oferecendo raros momentos onde possamos nos convencer disto. Da mesma forma, há uma preocupação tão extrema com a figura de Hellboy que grande parte dos coadjuvantes se relega a participações que estão ali apenas para servir ao grandalhão, assumindo-se como meros fantoches do roteiro. E nisso, Liz e seus poderes promissores são mal explorados para além do romance com Hellboy, Myers está ali unicamente para que o vermelho tenha sua crise de ciúmes, e nada justifica o sumiço de Abe Sapien (um Doug Jones fascinante) em determinado ponto da projeção.

Da mesma forma, Del Toro parece (ainda) não saber como lidar com todos os elementos fantasiosos daquele universo para além do visual, e fica a sensação de que muito do potencial imaginativo da ambientação não é extraído, o que condena as duas horas de projeção a se tornarem repetitivas em certo momento. Mas o maior pecado é o vilão nada ameaçador e absolutamente genérico de Karel Roden, que novamente cai no esquema hollywoodiano do antagonista russo que quer dominar/destruir o mundo ou algo que o valha. E por falar em esquemas hollywoodianos, as cenas de ação também pouco saem do lugar comum, apesar das coreografias de luta vibrantes com o enigmático Karl Ruprecht Kroenen.

Considerado um pequeno fracasso tendo em vista sua resposta com o público nos cinemas (99 milhões de faturamento para 66 milhões de orçamento), ao menos o filme angariou sua lista de admiradores quando se saiu melhor no mercado de home vídeo, o que para nossa felicidade, permitiu que Del Toro investisse numa sequência que se revelaria muito superior. E Hellboy nos traz sim, muitos elementos bem-vindos para as adaptações geralmente assépticas dos super heróis, em especial na falta de personalidade que estas produções geralmente possuem, mas se esta primeira tentativa é feliz no que concerne a estabelecer seu universo, lhe faltou alguém com maior preparo ou vontade para, de fato, explorar aquele mundo.

Hellboy – EUA, 2004
Direção: Guillermo Del Toro
Roteiro: Guillermo Del Toro, à partir de história de Peter Briggs, baseado em quadrinhos de Mike Mignola
Elenco: Ron Perlman, Selma Blair, John Hurt, Rupert Evans, Doug Jones, Karel Roden, Brian Steele
Duração: 122 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.