Crítica | Hellraiser II – Renascido das Trevas

estrelas 2

Tendo faturado, nas bilheterias, catorze vezes o seu orçamento, Hellraiser – Renascido do Infernonaturalmente acabou sendo classificado como um grande sucesso, apesar das muitas críticas negativas que a obra recebera na época. Dito isso, pouco mais de um ano depois sua sequência, Hellraiser II – Renascido das Trevas, chegou aos cinemas, continuando a história de Kirsty (Ashley Laurence) e seu envolvimento acidental com os cenobites.

A trama se passa pouco tempo após os eventos do primeiro filme, de tal forma que o longa já é aberto com uma sequência que resume os eventos da obra anterior. Em seguida vemos o surgimento do icônico Pinhead (Doug Bradley), que, para nossa surpresa, era  uma pessoa comum, que desvendara o segredo de um dos cubos. O foco, então, alterna para Kirsty, agora internada em um hospital psiquiátrico, visto que, como em todo bom filme de terror, ninguém acredita em sua história – algo que, nesse caso, temos de aceitar, afinal, quem acreditaria em alguém dizendo que tivera sua família morta por sado-masoquistas do Inferno, invocados por um cubo mágico? O que Kirsty não esperava é que sua história com os cenobites ainda não acabou.

Hellraiser nunca chegou a ser um ótimo filme, na verdade, ele, por pouco, pode ser classificado como “bom”, já que seus muitos problemas são dificilmente ignorados. Ainda assim, trata-se de uma obra sustentada quase que exclusivamente pelo seu visual, esse sim digno de entrar para a história do cinema como uma das representações mais assustadoras do submundo. Esse é o fator que torna o primeiro filme algo emblemático e muito disso se deve às poucas informações fornecidas pelo roteiro de Clive Barker. Em essência, tudo o que sabemos é que o misterioso cubo invoca essas criaturas demoníacas e nada mais. Tal questão, claro, possibilita que a atmosfera de terror seja instaurada de maneira envolvente, deixando muito à cargo da imaginação do espectador.

Hellraiser II, por sua vez, muitas vezes ignora esse aspecto de seu antecessor, nos trazendo detalhes que prejudicam a mitologia criada por Barker – detalhes esses que jamais pedimos para ver. Ao mostrar como o emblemático Pinhead surgiu, além de revelar que todos os outros cenobites, também, já foram humanos, sua figura misteriosa perde grande parte de seu brilho, já que agora, de alguma forma, é possibilitada a relação do espectador com o vilão. Em determinados pontos o enxergamos como vítima, da mesma forma que Kirsty o é – sua curiosidade fora sua ruína e o nosso conhecimento acerca disso força limites à nossa imaginação.

Esse grande deslize, porém, não chega a fazer dessa continuação algo totalmente execrável, ainda que seja inferior ao original, mesmo que muitos dos problemas da obra anterior foram corrigidos. Tony Randel, tendo esse como seu primeiro longa-metragem, demonstra ser um diretor muito superior a Barker, utilizando sua decupagem para brincar com a percepção do espectador, tirando nossa noção de espaço nas muitas sequências passadas no mundo dos cenobites. É criada a sensação de claustrofobia, conforme nos vemos tão perdidos naquele local quanto a própria protagonista. Além disso, é preciso notar como o filme não peca em suas mudanças de foco da mesma maneira que o anterior, sabendo trabalhar com tempos paralelos mais organicamente.

O roteiro de Peter Atkins, contudo, apresenta nítidas falhas, como toda a construção e uso da personagem Tiffany (Imogen Boorman), que é apresentada logo no início do filme, esquecida por um bom tempo e, em seguida, resgatada pelo texto, oferecendo péssimas justificativas para seu envolvimento na trama geral, nenhuma delas verdadeiramente nos convencendo. O fato de Kirsty não ter ficado nem um pouco traumatizada por tudo o que vira anteriormente, também, é algo difícil de se acreditar, questão que apenas piora com a pouca relutância da protagonista em retornar para aquela dimensão distorcida.

Ao menos, tudo isso consegue ser contrabalanceado pelo excelente design de produção, que mais uma vez acerta em cheio em seu retrato do Inferno. Elogios esses, porém, que não se aplicam ao principal antagonista da obra, caracterizado de forma extremamente exagerada (até para os padrões desse universo), sendo capaz de provocar risadas, por exigir demais de nossa suspensão do senso de ridículo. Tal criatura carece da simplicidade sádica dos outros cenobites e chega a nos proporcionar uma execrável sequência de combate entre esses seres, algo que preferimos esquecer de tão artificial.

Hellraiser II – Renascido das Trevas, portanto, é uma daquelas sequências que parcialmente destroem a mitologia do original, fornecendo informações desnecessárias, ao invés de simplesmente mostrar aspectos diferentes desse conceito de Inferno. Salvo o principal antagonista, o visual, felizmente, permanece um espetáculo sombrio à parte, com composições de cenário verdadeiramente assustadoras. Uma pena que todo o filme não reflita essa qualidade.

Hellraiser II – Renascido das Trevas (Hellbound: Hellraiser II) — Reino Unido/ EUA, 1988
Direção: 
Tony Randel
Roteiro: Peter Atkins (baseado em história de Clive Barker)
Elenco: Doug Bradley, Ashley Laurence, Clare Higgins, Kenneth Cranham, Imogen Boorman, Sean Chapman, William Hope, Barbie Wilde, Simon Bamford, Nicholas Vince, Oliver Smith
Duração: 97 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.