Crítica | Hellraiser – Renascido do Inferno

estrelas 3

Baseado no livro The Hellbound Heart, traduzido com o título do filme no Brasil, Hellraiser – Renascido do Inferno, desde seu lançamento, tornou-se um dos mais conhecidos filmes de terror, principalmente em razão dos icônicos cenobitas, mais especificamente o Pinhead, certamente parte do hall da fama dos monstros do cinema e literatura. Tendo gerado inúmeras sequências, a obra diferencia-se de outros longas do gênero em razão de seu visual inspirado em objetos e vestimentas utilizados por sadomasoquistas, característica, que, claro, dialoga diretamente com a temática do filme. Repleto de gore e com uma opressora atmosfera, a obra perfeitamente se encaixa em nossa coluna, o Sábado de Sangue.

Como incontáveis filmes de terror por aí, a trama tem início com uma família se mudando para uma nova casa. O casal formado por Larry (Andrew Robinson) e Julia (Clare Higgins) decide morar na antiga propriedade da mãe de Larry, que estava abandonada após a sua morte. Pouco esperavam, contudo, que lá o irmão do marido, Frank, realizava estranhos rituais e, durante um deles, acabou sendo consumido por forças misteriosas. Após um acidente na mudança, o qual fez Larry sangrar no chão do sótão, Frank acaba renascendo e pede ajuda à esposa de seu irmão  para regenerar completamente, antes que as forças demoníacas o capturem novamente. No meio disso tudo, a jovem Kirsty (Ashley Laurence), filha de Larry, acaba se envolvendo com as tramas malignas do renascido do inferno.

Embora seja um filme cultuado, Hellraiser definitivamente não é uma obra perfeita. O que ela esbanja em visual, carece em qualidade de roteiro, que conta com inúmeros furos que prejudicam o caminhar da narrativa. Barker, na época iniciante na indústria cinematográfica, brinca com a não-linearidade, mas acaba tropeçando inúmeras vezes, criando rupturas na trama que diretamente impactam a sua fluidez. Além disso, o diretor/roteirista introduz personagens e subtramas que jamais são levados adiante, dilatando a narrativa desnecessariamente, enquanto poderia focar na construção desse seu universo gótico.

A montagem certamente não ajuda quando se trata de ações paralelas, visto que vemos primeiro um foco na íntegra para, em seguida, pularmos para o próximo, sendo necessário que nós mesmos imaginemos o encadeamento das ações. Chega ao ponto de personagens se manterem fazendo a mesma ação por minutos, enquanto acompanhamos outro realizando outra coisa, o que, definitivamente, causa estranhamento no espectador, quebrando nossa imersão por completo.

Outro aspecto que não ajuda o aproveitamento do longa-metragem são as atuações pouco inspiradas de todo o elenco, sem levar em conta os cenobitas, mas, nesse caso, a caracterização fala mais alto. Claro que o texto não ajuda em termos de motivação para os personagens centrais, mas sentimos claramente como se eles fossem guiados pela força maior do roteiro do que por suas próprias convicções. Um bom exemplo disso é Julia, que muda da água para o vinho após um flashback, assumindo o papel de antagonista sem qualquer motivação clara. É exigido de nós que simplesmente aceitemos isso sem mais, nem menos.

Eis que testemunhamos o poder da atmosfera criada por Barker, fruto, claro, do visual dessa representação do inferno (ou realidade paralela, chame do que quiser). Todos os pontos negativos levantados acima são esquecidos no momento que os cenobitas dão as caras. O autor/diretor/roteirista cria uma visão verdadeiramente assustadora desse tenebroso além, evocando a depravação, o sadomasoquismo, como se todo o inferno girasse em torno da luxúria, ou, ao menos, essa parte dele. Barker, sabiamente, não oferece muitas informações acerca desses seres, permitindo que nossa imaginação vagueie, possibilitando que o desconforto se instaure plenamente.

De fato, desconforto é o que melhor define a atmosfera do filme, o que apenas aumenta com o gore e outras nojeiras explícitas. É criada a plena sensação de decadência e podridão, que fazem dessa obra não algo para se ter medo, mas para se sentir incomodado. As correntes, ganchos, roupas pretas, pregos, curiosamente dialogam com uma sádica sexualidade implícita, transformando esse inferno em uma fonte de prazer e dor. Nesse meio, é interessante constatar que a menina, inocente, não chega a ser poupada dos horrores, tecendo um paralelo, mesmo que mais distante, com o velho ditado: “de boas intenções, o Inferno está cheio”.

É essa construção atmosférica que nos faz relevar os tão evidentes defeitos de Hellraiser – Renascido do Inferno, que, apesar de falho, mantém-se como um icônico filme de terror. Gerando um profundo desconforto em nós, espectadores, a obra permanece impactante em razão de seu visual, que, mesmo com alguns efeitos bastante datados, não perde a  força. Cliver Barker, em sua estreia nos cinemas, criou um dos mais icônicos monstros do terror, com Pinhead e os outros cenobitas representando muito bem os desejos mais obscuros do homem.

Hellraiser – Renascido do Inferno (Hellraiser) — Reino Unido, 1987
Direção:
 Clive Barker
Roteiro: Clive Barker
Elenco: Andrew Robinson, Clare Higgins, Ashley Laurence, Sean Chapman, Oliver Smith, Robert Hines, Anthony Allen, Leon Davis
Duração: 94 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.