Crítica | Hemlock Grove – 1ª Temporada

estrelas 1,5

Quatro palavras definem bem a primeira temporada de Hemlock Grove: “que p#$$@ é essa?”

Desculpem-me, mas tive que começar assim. Sabe quando você junta um monte de crianças em um restaurante e elas começam a fazer “experiências” misturando todo tipo de refrigerante e suco com todo tipo de molho e tempero que passa pela frente delas em um recipiente para cada um provar depois e bater no peito mostrando coragem? Pois é. Isso é Hemlock Grove. E eu me senti não como as crianças fazendo a experiência, mas sim como um dos pais que é “forçado” a provar a gororoba.

E eu provei. E bebi até o fim. E sinto-me na obrigação de dizer a todos os meus leitores: fiquem longe de Hemlock Grove. É uma gigantesca bola fora do Netflix, nada que, claro, macule seus outros acertos, como House of Cards, Lilyhammer e Orange is the New Black, mas, mesmo assim, um tirambaço n’água, daqueles de dar vergonha alheia. E juro que não sei como convenceram Famke Janssen e Dougray Scott a participarem dessa mixórdia.

Bem, mas vamos lá. A história se passa na cidade fictícia na Pensilvânia que dá nome à série. O local é literalmente comandado pela família Godfrey, dona de um laboratório high tech no prédio mais alto da região. Olivia (Janssen) é a matriarca, mãe de Roman (Bill Skarsgård) e de Shelley (Nicole Boivin). Há, ainda, o Dr. Norman Godfrey (Scott), irmão do finado marido de Olivia e amante dela, além de pai de Letha (Penelope Mitchell) com Marie (Laurie Fortier), sua esposa. Fora do seio familiar, há Peter Rumanceck (Landon Liboiron) e sua mãe Lynda (Lili Taylor), dois ciganos que acabaram de se mudar para a cidadezinha e vivem em um trailer. 

O ponto de convergência entre os dois polos acima, que ainda contam, claro, com um vasto número de personagens coadjuvantes, incluindo o xerife Tom Sworn (Aaron Douglas), pai de gêmeas, o misterioso cientista Dr. Johann Pryce (Joel de la Fuente), que trabalha na torre dos Godfrey e a veterinária/caçadora Dra. Clementine Chasseur (Kandyse McClure), é uma série de brutais assassinatos ocorridos em sucessão com vítimas jovens dilaceradas por algum tipo de animal (ou não…). Nessa investigação envolvem-se todos os personagens e Roman e Peter se conhecem e passam a formar um estranho e hesitante laço de amizade, uma espécie de bromance de terror.

Até aí, ok, maravilha. Seria uma história bastante comum e nada especial. O problema é que quando Eli Roth, um dos produtores executivos e o criador do livro que deu base à série, Brian McGreevy, começam a emprestar características “incomuns” à narrativa, eles colocam os pés pelas mãos, com exageros risíveis. Descontando por um momento a quantidade enorme de sangue, partes de corpos e tripas que vemos ao longo dos 13 episódios da temporada, o grande problema é que todo mundo – sem exceção – tem algum tipo de mistério. Um dos personagens é um lobisomem, outro é um vampiro (ou um “upir” só para não usar o nome mais comum), outro é literalmente um monstro com pele brilhante e por aí vai. E isso sem contar com a Dra. Chasseur (não é lindo quando os roteiristas tentam dar uma de esperto e coloca um sobrenome que significa o que o personagem faz?) que tem laços com alguma divisão da Igreja Católica que caça demônios (ela é o Van Helsing da história) e o Dr. Pryce, que, aparentemente, tem superpoderes… E mesmo os personagens “normais” têm anomalias, como a servidão doentia que o Dr. Norman sente por Olivia e a gravidez “por obra e graça do Espírito Santo” de sua filha Letha, que é tratada com uma naturalidade absolutamente patética.

É como a brincadeira de criança que descrevi no começo da crítica: pegaram tudo que existe de clichê de filmes e séries de terror e misturaram em uma série só que acaba ficando com um gosto muito ruim. É tudo imprestável? Certamente que não. Vê-se claramente o cuidado com os efeitos especiais (as poucas transformações de homem em lobo e vice-versa) são muito bem feitas, pegando emprestado do clássico Grito de Horror (The Howling), de Joe Dante. Além disso, a fotografia passa a temática geral de solidão e preconceito que perpassa toda a temporada, com cores frias e movimentos de câmera nervosos quando a ação exige.

No entanto, o peso de um roteiro que não sabe para onde vai se faz sentir por todos os episódios, tornando difícil simpatizar com qualquer personagem. Além do mais, talvez com exceção de Dougray Scott, que tem uma performance digna, todos os demais atores deixam muito a desejar, provavelmente em razão da ausência de foco da narrativa.

Hemlock Grove não funciona nem como experiência televisiva. É um show que é bem menos do que a soma de sua partes e que se beneficiaria de menos monstros, menos mistérios, menos plot twists e um pouquinho mais de coesão. Do jeito que é, trata-se de uma gororoba cor de burro quando foge que deixa gosto ruim na boca.

Hemlock Grove (Idem, EUA – 2013)
Criador: Brian McGreevy (baseado em seu romance)
Showrunners: Brian McGreevy, Lee Shipman
Direção: Eli Roth, Deran Sarafian, David Semel, David Straiton, TJ Scott
Roteiro: Brian McGreevy, Lee Shipman, Sheila Callaghan, Mark Verheiden, Daniel Paige 
Elenco: Famke Janssen, Bill Skarsgård, Landon, Liboiron, Penelope Mitchell, Freya Tingley, Dougray Scott, Lili Taylor, Kandyse McClure, Joel de la Fuente, Laurie Fortier, Aaron Douglas, Nicole Boivin
Duração: 45 a 58 minutos (por episódio)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.