Crítica | Henrique V (1944)

estrelas 4

Henrique V foi o primeiro filme dirigido por Laurence Olivier. Lançado em 1944, quando ele já era um ator bastante conhecido e estava em uma fase áurea de reconhecimento de seu trabalho — já tinha duas indicações ao Oscar de Melhor Ator, uma por O Morro dos Ventos Uivantes, 1939; e outra por Rebecca, A Mulher Inesquecível, 1940 –, Henrique V de Laurence Olivier marca um momento muito importante na carreira do ator e agora diretor. Além de ser um dos artistas mais elogiados da sua geração, Olivier passou a ter sucesso na direção de filmes, estabelecendo uma curta carreira nesse posto, mas sólida o bastante para influenciar as grandes adaptações feitas de Shakespeare para o cinema que viriam nas décadas posteriores, como a fase shakespeariana de Kenneth Branagh, por exemplo, que inclusive iria fazer a sua própria versão de Henrique V, em 1989.

O Henrique V de Olivier marca uma tradição de Dramas Históricos shakespearianos no cinema que jamais foi superada, no sentido de atentar ao máximo para o rei-(anti)-herói e o julgo de ser rei, levando em consideração os jogos políticos e as vontades pessoais do monarca retratado. Perceba que estamos falando de um filme de 1944 e, embora já àquela época tivéssemos muitas adaptações cinematográficas para as obras do bardo, raras tratavam de seus Dramas Históricos. Até então, Henrique V só tinha sido tido uma versão de 1915, chamada England’s Warrior King.

É nesse contexto que Olivier planta sua semente dramática e traz para as telas a interessantíssima, heroica e transformadora jornada de Henrique V, a peça final da Henriad Tetralogy. Quem conhece a história, sabe que na primeira parte de Henrique IV, Shakespeare trata o Príncipe de Gales ou Hal (futuro Henrique V) como um boêmio incorrigível, motivo de vergonha e preocupação do pai. Historicamente falando é importante lembrar que este era um período importantíssimo para a Inglaterra (início do século XV), ainda às voltas com a formulação exata de um Reino Unido e em conflito com a França, na longa Guerra dos Cem Anos. Henrique V foi coroado aos 27 anos de idade e, tanto na história quanto na obra obra de Shakespeare, assumiu o louvável posto de rei-soldado e estabeleceu um reinado curto (apenas 9 anos) mas grandioso, interrompido com sua morte, em 1422.

O que Olivier faz em seu Henrique V é dar atenção para a crônica história relacionada à Batalha de Azincourt, a clássica e quase lendária batalha decisiva para o lado dos ingleses, que, em número muitíssimo menor que o dos franceses, lograram uma retumbante vitória e ainda conseguiram arranjar o casamento de Henrique V com Catarina de Valois, princesa da França. Ao fazer o recorte temático especialmente para esse evento, Olivier tem o seu primeiro grande acerto. Ele não suprime em demasia o texto original, dando início à peça no Globe Theatre literalmente como um teatro filmado e, em seguida, partindo para os campos franceses, onde a campanha de guerra e a batalha se desenrola.

Podemos ver em Henrique V a semente da explosão de cores e a ânsia de grandiosidade que o diretor iria explorar em Ricardo III, alguns anos depois. O orçamento módico e menor acesso a técnicas de efeitos especiais não fizeram com que Olivier desistisse de linkar dois espaços cênicos e geográficos distintos, realizando, com isso, uma ponte entre o teatro e o cinema, feito simplesmente incrível, tanto na concepção quanto na execução levada a cabo.

Com Henrique V, Olivier aposta na reflexão do rei-soldado em sua atuação, trazendo um pouco da culpa e do pensamento filosófico-moral ligado à justiça da guerra que o bardo escreveu. Suas melhores cenas estão no final do filme; a primeira, mais delicada e sensível, no campo de batalha, à noite. A sequência é longa e começa de maneira bastante despreocupada, mas ganha força quando o rei, disfarçado, encontra alguns soldados esperando o dia amanhecer, em volta de uma fogueira. Já a segunda sequência, mais ousada em termos de enredo e concepção textual, mostra o cortejo que Henrique faz a Catarina, após vencida a Batalha de Azincourt. É uma sequência de delicadeza própria, mas com uma agressividade própria do flerte masculino em tempos pré-modernos.

Para um diretor de primeira viagem, Laurence Olivier faz um trabalho inacreditável em Henrique V. Ele consegue um bom diálogo entre teatro em cinema e traz uma série de novidades na abordagem dramática e história para a obra de Shakespeare, tanto em termos estéticos quanto conceituais. O seu erro está na execução de parte do segmento no palco, especialmente a transição de imagem do Globe para os campos franceses e de lá para o Globe, na cena final do filme. A isso soma-se um leve tropeço na contextualização para os dois momentos, nada tão grave que impeça Henrique V de ser um grande filme, mas ainda assim, algo a ser observado.

Henrique V iniciava uma trilha muito especial de adaptações de dramas históricos shakespearianos para o cinema que só viriam a melhorar ao longo dos anos, nas mãos de bons realizadores, principalmente quando ganhou espaço nas tragédias, primeiro, com o Hamlet do próprio Olivier e depois, sendo remodulada e reescrita nas mãos de diretores como Orson Welles em Othello e Macbeth, adicionando a este capítulo da história do cinema mais um espaço notável de ligação entra as várias artes, a História, a tragédia humana e os percalços do poder, fossem eles fictícios ou não.

Henrique V (Henry V — The Chronicle History of King Henry the Fift with His Battell Fought at Agincourt in France) – Reino Unido, 1944
Direção: Laurence Olivier
Roteiro: William Shakespeare
Elenco: Leslie Banks, Felix Aylmer, Robert Helpmann, Vernon Greeves, Gerald Case, Griffith Jones, Morland Graham, Nicholas Hannen, Michael Warre, Laurence Olivier, Ralph Truman
Duração: 137 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.