Crítica | Henrique VI – Parte 1 (1983)

estrelas 3A trilogia de Henrique VI foi a primeira experiência de Shakespeare como dramaturgo, tendo sua escrita iniciada em 1590, a partir do que ficou conhecida como Henrique VI – 2ª Parte. Imediatamente veio a escrita da 3ª parte (1591), e o início da saga foi completada no ano seguinte, com o lançamento da 1ª parte, a que mais discussões entre os críticos levantou.

A contenda deve-se ao fato de alguns estudiosos contestarem Shakespeare como autor de certos versos desse início de trilogia, os quais possivelmente seriam de dramaturgos contemporâneos do famoso bardo, como Christopher Marlowe, Robert Greene, George Peele, Thomas Lodge, e o mais frequentemente apontado, Thomas Nashe. Essa corrente, no entanto, perdeu espaço para as novas explicações que reconhecem em Shakespeare a autoria integral das 3 peças, cujas diferenças estilísticas são atribuídas à sua falta de experiência como dramaturgo.

A base teórico-histórica do poeta para essa 1ª Parte veio principalmente das Crônicas da Inglaterra, Escócia e Irlanda, de Raphael Holinshed, fonte que ele usou muitas vezes em seus dramas históricos. Também atribui-se como pesquisa a obra The Union of the Two Noble and Illustre Families of Lancaster and York (1548), de Edward Hall.

Henrique VI – Parte 1, começa com o funeral de Henrique V, onde já temos demarcadas as conflituosas relações entre os parentes do falecido e um pouco das brigas que marcarão os atos posteriores do drama. A peça aborda principalmente o desenlace da Guerra dos 100 anos, com a presença de Joana D’Arc e o seu papel na coroação do Delfim Carlos (futuro Carlos VII de França), após vencer os ingleses em Orléans; e as raízes para a Guerra das Duas Rosas, no seio da nobreza britânica. Ao cabo, temos o acordo para o casamento de Henrique VI com Margarida de Anjou e o início da ascensão de Suffolk, demarcando um novo momento na história do país.

O filme de Jane Howell, dirigido para o projeto “The Complete Dramatic Works of William Shakespeare”, da BBC, traz alguns problemas narrativos, especialmente na mudança dos cenários, uma consequência de estar preso a uma estética e ambientação teatral típicas desse projeto. Todavia, não chega a ser uma obra ruim.

Um ponto a se lamentar é que só temos acesso à “segunda parte” do filme, ou seja, a partir do momento em que Joana D’Arc se disfarça de camponesa e, com os soldados franceses, invade a cidade de Rouen (na peça, esta é a segunda cena do 3º Ato). Procurei bastante para saber qual foi o destino da primeira parte do filme mas não encontrei. Entretanto, a perda foi grande: na versão original, a fita tinha 188 minutos, e a versão a que hoje temos acesso, apenas 97.

Por conta dessa perda de material filmado, não é aconselhável que quem não tenha lido a peça veja este filme de 1983, pois vai perder um grande número de detalhes, especialmente as definições psicológicas e motivações políticas de cada uma das personagens.

É evidente que a maior parte das características das personagens históricas se revelam nas peças seguintes, o que faz dessa Parte I um exercício menor de Shakespeare ao dar início à saga de Henrique VI. Algumas cenas, porém, são de sublime qualidade e dinamismo cênicos, e foram gloriosamente aproveitados por Jane Howell em sua adaptação: a conversa de Lord Talbot e seu filho John; a confissão final e maldições de Joana D’Arc e a caracterização patética e quase cômica de Henrique VI.

Infelizmente a captura de Joana e a visão particularmente desprezadora que Shakespeare lhe dá são contornadas pela direção, que se vale da excelente interpretação de Brenda Blethyn para manter a heroína altiva e astuta até em seus últimos momentos. Até a posição de Joana como bruxa, vinda do original, recebeu uma outra visão no filme – e não digo que isso é ruim, embora eu esperasse ver uma leitura mais fiel à obra nesse sentido, uma escolha que perpassa quase a totalidade das peças do projeto.

Jane Howell ainda peca por levar muito a sério a proposta de aparência teatral do projeto, fechando o máximo possível a modificação de cenários, o que por um lado exigiu inteligentes formas de utilizá-lo na troca de cenas/sequências (tentativa que resultou em um mediano resultado), mas por outro, minimizou o potencial da peça, cuja dinâmica espacial entre França e Inglaterra dão uma outra cara à obra.

Mas ao colocar na balança o peso das atuações – é incrível como esses atores britânicos trabalham bem, mesmo os mais jovens! – e a qualidade das melhores cenas já destacadas acima, temos um resultado mediano, quase bom. A avaliação tem um quê de injusta, porque traz à tona apenas uma parte do produto todo (apenas 97 dos 188 minutos, tendo o restante desaparecido), mas isso não é culpa do crítico e sim da BBC, que deve ter perdido o material da primeira parte do filme e liberado, mesmo assim, apenas a segunda parte. Como já disse, quem leu a peça não terá problema nenhum em ver o filme a partir desse ponto, mas, se pararmos para pensar bem, a ausência da primeira parte é de considerável peso para todos, conhecedores ou não da peça.

Henrique VI – Parte I (The First Part of Henry the Sixth) – UK, EUA, 1983
Direção: Jane Howell
Roteiro: William Shakespeare
Elenco: Peter Aldwyn, John Alford, Sean Bartley, John Benfield, Brenda Blethyn, Anthony Brown, David Burke, Michael Byrne, Paul Chapman
Duração: 188 min. (versão original) e 97 min. (versão existente)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.