Crítica | Henrique VI – Parte 2 (1983)

estrelas 3,5

Embora esta seja a segunda parte da trilogia sobre a vida de Henrique VI, ela foi, cronologicamente, a primeira peça escrita por Shakespeare, e já demonstra a genialidade do autor em criar uma trama bastante atraente, cheia de diálogos poderosos e versos difíceis de serem esquecidos.

O enredo da peça é centrado nas homéricas brigas entre os súditos e aspirantes à coroa de Henrique VI da Inglaterra, além de ser uma história extremamente violenta, com um grande número de mortes e demonstrações furiosas de ira, maldições e manifestações sociais caóticas e de ideologia dúbia, tudo isso muito bem colocado pelo poeta em uma série de eventos que superam, e muito, o seu trabalho na Primeira Parte da trilogia.

Aqui, o texto explora a incapacidade do Rei Henrique para governar a Inglaterra, e, compassadamente, nos mostra como duques, parentes e outros membros da Corte fizeram de seu reinado um verdadeiro inferno. Dividido entre o amor e apego que tinha à família e à religião, Henrique foi obrigado a lidar com movimentações políticas que acabariam por lhe tomar a coroa, como já havia sido prenunciado na abertura da trilogia, trazendo à tona um dos ditados antigos do reino, ainda na época de Henrique V.

Nos bastidores do Reino, as casas de York e Lancaster procuram um lugar ao sol; a Rainha Margarida se une ao Duque de Suffolk para tentar se livrar de seus inimigos ou de pessoas que ela simplesmente não gosta, como acontece com Leonor, a esposa do Duque de Gloucester. Como peças de xadrez, Shakespeare arquiteta queda atrás de queda, num excelente jogo narrativo onde vinganças, sorte, azar e bem pensadas estratégias políticas disputam espaço e acabam por mudar os rumos da história.

Dirigido por Jane Howell, em 1983, The Second Part of Henry the Sixth apresenta as mesmas falhas de ambientação que a diretora mostrou na Primeira Parte, mas por ser uma peça maior e por exigir uma gama de demonstrações emotivas e leituras de violência e guerra, o filme consegue um posto acima de seu antecessor. A característica visual não muda: muito raramente temos a aparição de um cenário rebuscado, e na maior parte da tempo, há uma grande armação de madeira ao fundo, o que intensifica a aparência teatral da obra, coisa que poderia ser sutilizada com um melhor dinamismo visual.

Mas a despeito dos problemas com o espaço cênico, essa segunda parte de Henrique VI tem, na direção, um caminho dramático irretocável. Jane Howell adapta perfeitamente as indicações violentas de Shakespeare, bem como orienta os atores para um crescente sentimento de ódio, culpa e desfaçatez, uma tríade de sentimentos que vemos na maior parte das peças históricas e tragédias do bardo. O que mais se destaca aqui é a crueldade das mortes, que a diretora, acertadamente, opta por mostrar na tela. Esses momentos são importantes para intensificar o contraste entre as posturas dos nobres, trazendo não apenas o lado cavalheiro, mas também o soldado, uma dualidade bastante explorada por Shakespeare nas peças.

As duas vezes em que vemos uma grande mudança cênica, percebemos o quando o filme ganharia se todos os cenários recebessem semelhante trabalho particular. A primeira delas é quando o Duque de Suffolk se vê em um navio e acaba recebendo sua pena capital; a outra é quando Cade se encontra no jardim de Iden. E vejam que nem se trata de uma mudança tão grande de cenário e a diferença já é enorme!

Das interpretações, vale destacar o papel de Julia Foster, como a rainha Margarida, que sofre por uma tremenda mudança psicológica após a morte de Suffolk. É como se ela tivesse enviuvado, e o modo cada vez mais colérico que trata a todos depois de sua aparição, já na reta final da obra, é simplesmente incrível, e lança luzes sobre o “General” que ela seria no desfecho da trilogia.

Apesar dos problemas no desenho de produção, Henrique VI – Parte 2 é uma boa adaptação para a peça de Shakespeare, um telefilme representado por um excelente grupo de atores e, especificamente no quesito dramático, dirigido com primazia.

Henrique VI – Parte II (The Second Part of Henry the Sixth) – UK, EUA, 1983
Direção: Jane Howell
Roteiro: William Shakespeare
Elenco: Peter Aldwyn, John Alford, Sean Bartley, John Benfield, Brenda Blethyn, Anthony Brown, David Burke, Michael Byrne, Paul Chapman, Julia Foster
Duração: 203 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.