Crítica | Henrique VI – Parte 3 (1983)

estrelas 4

Com o término da trilogia sobre a vida de Henrique VI, Jane Howell conseguiu um resultado fílmico bastante satisfatório, especialmente se considerarmos suas três adaptações shakespearianas como um corpo dramaticamente conectado, de modo que os erros apontados nas primeiras partes se transformam em virtudes, na última. As escolhas da diretora na questão espacial e estética fazem sentido no terceiro filme, embora eu ainda sustente que tal opção não tenha sido o melhor caminho para uma obra desse porte.

Henrique VI – 3ª Parte nos traz a continuação da violenta guerra civil entre as casas de York e Lancaster, que nesse momento da História ameaça o trono do rei, posto almejado pelo duque de York, que busca em gerações passadas o seu “direito legítimo” à coroa. A rainha Margarida se torna ainda mais colérica do que na obra anterior, assumindo aqui a personagem de uma Generala, ao passo que o rei Henrique se aproxima cada vez mais da religião e praticamente se entrega ao seu destino, definitivamente mostrando-se fraco para a política. O rei é na verdade um homem simples, apegado a Deus, aos livros, à família e à vida simples, e que se contentaria em ser um simples pastor, algo que ele mesmo ressalta em um dos monólogos mais tocantes e interessantes do drama.

Na versão de Howell, os eventos dessa parte da peça são um longo preparativo para a ascensão de Ricardo ao trono, o que fica bastante claro no final do filme, quando seu irmão Eduardo é coroado e festeja com os súditos mais próximos a vitória sobre Henrique VI. Nesse momento, vemos o maléfico corcunda se afastar com violência da sala do trono, isolando-se dentro do palácio.

Essa constante mudança de poder recebe um olhar bastante fiel ao clima que Shakespeare imprimiu à peça, sendo que em cada uma das partes, um pouco dessas mudanças foram exploradas. O bom é que o ciclo se completa a contento. A primeira parte se passa na França e na Inglaterra, assim como a terceira parte. As famílias de York e Lancaster recebem um crescendo de atenção bélica, assim como a disputa pelo trono. Por outro lado, não temos nessa parte final a presença da igreja ou de fortes intrigas palacianas, como a declarada relação de ódio entre os duques vista nas obras anteriores.

O espaço cênico que eu disse fazer sentido, tem mais a ver com a impressão dramática pretendida pela diretora do que qualquer outra coisa. No primeiro filme, por exemplo, contávamos com uma fotografia bastante clara, com paredes pintadas de amarelo, figurinos de cores mais vivas e um clima externo aos bastidores do reino aparentemente pacífico. Todas essas coisas se alteram compassadamente no decorrer do tempo. As cores escurecem, os figurinos se tornam mais simples e sombrios, até serem trocados por armaduras. As cores das paredes desaparecem e dão lugar ao desbotado, ao azul e ao marrom. O “palco” é escurecido, ao ponto de nesta terceira parte termos a impressão de que tudo se passa durante a noite.

O que é interessante observar nessa questão é a diferença estética da cena na França para as cenas na Inglaterra. O mesmo podemos falar dos figurinos e até a planificação das cenas, que na Bretanha são em grande parte feitas de planos médios e primeiros planos, trazendo uma grande carga dramática para o espectador e um ar cada vez mais particular para os acontecimentos, assim como se tornam as intenções políticas em jogo. É evidente que esse recurso fotográfico teve um motivo prático para ocorrer, principalmente nas cenas das batalhas; mas seu significado para a obra é tal que não o faz ser classificado apenas como um recurso para adequação de orçamento.

Tal como nos filmes anteriores, o elenco apresenta uma impecável caracterização das personagens, com destaque até mesmo para os pequenos papéis. Todavia, os roubadores de cena são Julia Foster, como rainha Margarida, e Ron Cook como Ricardo, o duque de Gloster. No primeiro exemplo, observamos a progressiva e agressiva transformação realizada pela atriz, dando força e contornos fortíssimos à sua personagem, numa leitura lancinante da mulher e mãe ambiciosa que tem e perde tudo. No segundo exemplo temos a persona de um York feio, violento, ambicioso e dissimulado, que não tem escrúpulo algum em usar dos meios mais desumanos para conseguir o que quer: a coroa.

A história de Henrique VI é uma jornada épica maravilhosa. Em relação às peças, as melhores são mesmo a segunda e a terceira partes; já em relação à trilogia dirigida por Jane Howell, o maior destaque vai para esse terceiro filme, que dá sentido ao estilo adotado anteriormente e fecha muito bem essa sangrenta fase da História britânica, bem como a primeira grande realização de Shakespeare, um início de carreira que já mostrava belos e orgulhosos frutos.

Henrique VI – Parte III (The Third Part of Henry the Sixth) – UK, EUA, 1983
Direção: Jane Howell
Roteiro: William Shakespeare
Elenco: Peter Aldwyn, John Benfield, Peter Benson, Paul Benzing, Brian Binns, Gerald Blackmore, Gerald Broadley, Antony Brown, Michael Byrne, Paul Chapman, Ron Cook, Rowena Cooper
Duração: 211 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.