Crítica | Herança de Sangue

estrelas 4

Herança de Sangue é o típico filme de méritos. Não que todo bom filme não tenha méritos, é claro, mas alguns aspectos se destacam no longa em relação a outros de qualidade equivalente.

Talvez  aquele que melhor englobe todos os outros seja o de a produção conseguir, nos menos de 90 minutos que possui, construir tão bem sua dupla de personagens centrais, criando entre os mesmos uma relação tão intensa – embora, ironicamente, os dois mal se conheçam e também passem um período modesto juntos após o reencontro – e ainda tirar um tempinho para apresentar sequências de ação pontuais, mas, em geral, eficientes e até sanguinárias – apesar da recomendação indicativa ter estacionado nos 14 anos de idade.

Tal mérito, porém, como dito, é o resultado de tantos outros. O primeiro que se destaca é, com certeza, a retratação de um amor não apenas provocante, que quebra estereótipos para sua expressividade, mas baseado muito mais em atitudes, trejeitos e ações do que em palavras. Manifestação de amor ímpar que se inicia, em tela, quando Link (Mel Gibson), já na faixa dos 60 anos, tem sua vida solitária em um trailer interrompida pelo repentino contato, por telefone, de sua jovem filha, Lydia (Erin Moriarty), até então desaparecida, pedindo ajuda. Dono de um passado no crime, nas drogas e na prisão, o pai vê os tempos de outrora repetindo-se na filha ao descobrir que ela assassinou um gangster e ex-namorado e que agora a cabeça da moça está a prêmio.

A premissa, como vê-se, é simples e poderia pertencer a só mais um filme raso de tiroteio e perseguição entre gangsters, como tantos no mercado, mas o roteiro, como dito, aliado à presença fundamental de Gibson, elevam a produção a um drama genuinamente marcante. Desde o começo, quando o pai traz a filha para seu trailer e tenta buscar um meio de conectar-se a ela, chama a atenção como o homem aborda questões como drogas e crime não como um pai falando com sua filha – segundo a convenção, comumente vista no cinema, de como tal diálogo deveria ser -, mas como alguém falando com um conhecido ou com um amigo. Sim, talvez com o melhor amigo, ou, pelo menos, como o tipo de amigo que Link gostaria de que sua filha visse nele. Trata-se de um texto, portanto, que sabe trabalhar com palavras implícitas ao sentimento, permitindo que a atuação de Gibson apresente a intenção por trás de cada uma delas. Já Moriarty cumpre satisfatoriamente o seu papel de uma moça que, mesmo expressiva na retratação da resposta emocional da personagem à complicada situação na qual se encontra, é a vítima da situação e representa o desafio ao ideal de redenção do pai.

Além disso, o texto trata de evocar um mosaico complexo de sentimentos à visão de Link sobre o próprio passado, como se constata, por exemplo, durante a incrível conversa do pai com a filha sobre o suicídio. De fato, o drama assume o protagonismo sobre a ação e chega a ter seu ritmo impedido de atingir pleno potencial por uma ou outra perseguição que, tal como conduzida – sem a emoção predominante no longa -, poderia ser um tantinho mais curta. O roteiro, todavia, é inteligente ao explorar ameaças múltiplas, consequências naturais do caminho percorrido por pai e filha em busca de uma saída para os problemas da segunda – assim conferindo maior flexibilidade à trama -, e o equilíbrio atingido em termos de ação e contemplação – embora, como dito, a primeira prevaleça sobre a segunda – é satisfatório, com eventuais tiroteios e facadas, além de atraírem um público específico, nunca impedindo que a história retome as suas características de maior destaque.

Mais do que isso, pelo menos em seu último ato, o filme apresenta plenamente tal equilíbrio, com Gibson atingindo a plenitude de sua atuação e comprovando, sem qualquer dúvida, que o texto de Herança de Sangue só é para um ator tão bom quanto ele. A trilha sonora, por sua vez, é competente, não oferecendo grande destaque, mas impondo-se em momentos bem pontuais, alternando entre a orquestra e uma batida pop para as sequências de ação. Certa marcação temática da orquestra apresenta particular destaque, em momentos de confronto entre Lydia e o ex-namorado, ainda que a pouca expressividade do antagonista não faça jus à composição.

Herança de Sangue, portanto, é um belíssimo filme sobre a relação entre um pai e sua filha, que vivem, em seu breve reencontro, momentos de uma intensidade que famílias passam uma vida inteira sem experimentar. O longa também representa outra faceta do roteirista Peter Craig, que, com base no livro Blood Father, de sua própria autoria, conta uma história liberta da ação como destaque, ao contrário do seu consagrado universo em Máquina Mortífera, franquia também estrelada pelo próprio Gibson.

Não parece à toa, pois, que a mensagem deixada pelo roteiro de Craig, astutamente, de uma geração para a outra, estenda-se até a verdade implícita na longevidade artística do ator com o qual trabalha. A vida, seja como for, é para ser vivida, e bem vivida.

Herança de Sangue (Blood Father), EUA – 2016
Direção: Jean-François Richet
Roteiro: Peter Craig, Andrea Berloff (baseado em obra de Peter Craig)
Elenco: Mel Gibson, Erin Moriarty, Diego Luna, Michael Parks, William H. Macy, Miguel Sandoval, Dale Dickey, Richard Cabral, Daniel Moncada, Ryan Dorsey, Raoul Max Trujillo
Duração: 88 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.