Crítica | Herança Sagrada

estrelas 2,5

Eu só posso pensar que Douglas Sirk estava trollando, ironizando ou demonstrando um péssimo gosto para filmes quando ele disse a um entrevistador, certa vez, que Herança Sagrada era um de seus filmes favoritos. Isso simplesmente não pode ser verdade.

Realizado em 1954 (mesmo ano em que o diretor lançou Sublime Obsessão e Átila, o Rei dos Hunos), Herança Sagrada já figurava como um elefante branco na filmografia de Sirk, até então fortemente marcada pelo drama, melodrama e noir. A estética e preferências narrativas do diretor não caíram bem ao western e o resultado final é um filme desencontrado, com algumas cenas muito bem filmadas mas, de resto, com enorme carência de melhor roteiro e menos cacoetes dos atores (especialmente Barbara Rush e Rex Reason, respectivamente Oona e Naiche, personagens e importância estratégica na obra).

O filme tem o mérito de ser curto, mas isso também acaba sendo um problema, porque o roteiro impede que neste pequeno espaço de tempo a trama seja bem articulada, havendo mudanças repentinas de foco central. No caso mais grave, a linha do conflito entre as “duas forças” étnicas dá lugar a um romance que tem dificuldade de se realizar (percebam os tons de tragédia shakespeariana), e é esse mesmo romance que traz o ponto final, uma péssima escolha do diretor, não só porque o desfecho ajuda a diminuir ainda mais a película mas também porque tem um caminho de realização demasiadamente rápido, mal atuado (Rock Hudson, que faz o papel de Taza, também não ajuda muito, transitando entre o mediano e o ruim durante todo o filme) e questionavelmente dirigido.

Exceto pela cena final, de fato muito ruim, o diretor ainda conseguiu imprimir um pouco de substância a boa parte da obra (ajudado por Russell Metty, excelente diretor de fotografia), mas o todo não lembra em nada o estilo narrativo de Sirk, a não ser que forcemos muito em nossa visão interpretativa e comparativa da obra.

Baseado em um conflito tribal após a guerra da cavalaria americana contra os apaches, o filme é uma indian story bastante violenta e com algumas surpresas em seu desenvolvimento. Poucos diretores em meados da década de 1950 abordaram o conflito entre índios e brancos com grande violência “gratuita” e questões culturais discutidas abertamente. Nesse ponto, vemos coragem e vigor de Sirk em expor com crueza e conteúdo esse momento de conflito histórico.

Com uma trilha sonora demasiadamente densa (uma predominância do “estilo épico” que perde a oportunidade de dar identidade plural a determinados pontos da obra) e um roteiro sem cuidado com eixo narrativo, Herança Sagrada vale mais por alguns belos planos e cenas do que pelo todo em si. Douglas Sirk não faz um bom trabalho na direção mas deixa algumas migalhas autorais no decorrer da obra que faz a sessão ter um pouco de significado para o espectador, muito embora seja impossível ter uma visão positiva da fita depois de terminada a saga de Taza, o filho de Cochise.

Herança Sagrada (Taza, Son of Cochise) – EUA, 1954
Direção: Douglas Sirk
Roteiro: Gerald Drayson Adams, George Zuckerman
Elenco: Rock Hudson, Barbara Rush, Gregg Palmer, Rex Reason, Morris Ankrum, Eugene Iglesias, Richard H. Cutting, Ian MacDonald, Robert Burton, Joe Sawyer, Lance Fuller
Duração: 79 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.