Crítica | Hércules (1997)

Hércules marca o retorno da equipe diretorial Ron Clements & John Musker, vindos diretamente da sequência de sucessos estrondosos de A Pequena Sereia e Aladdin.  Se outros diretores tiveram sucesso em manter a produção disneyana em altíssimo nível (com A Bela e a Fera, O Rei Leão e O Corcunda de Notre Dame), é inegável que foram estes dois veteranos do estúdio os responsáveis por lançar as diretrizes do Renascimento Disney, que entrava na segunda metade dos anos 1990 ainda com a força toda. Mesmo com tais feitos no currículo, a dupla teve a realização de seu projeto dos sonhos de longa data — Planeta do Tesouro — novamente declinada pela diretoria do estúdio, que avaliou como mais proveitoso dar encaminhamento a um filme de aventura que iniciara os primeiros esboços como uma adaptação da Odisseia.  Com uma inventividade que surpreende quem poderia ter pensado que os diretores jogariam seguro após seus acertos estratosféricos, o longa animado chegou aos cinemas em 1997 trazendo uma experimentação em cima do modelo e estilo que haviam caracterizado a nova fase do estúdio até então.

Tais liberdades já se revelam logo de cara: os visuais de Hércules diferem bastante do estilo que o estúdio vinha seguindo há quase uma década. Preparando o caminho para empreitadas como Mulan, Atlantis e Lilo & Stitch, a animação do longa trouxe visuais mais caricaturais, abrindo mão da movimentação fotorrealista em favor de um uso altamente estilizado do 2D, com visuais “chapados” que em alguns momentos espertamente remetem às pinturas de cerâmicas gregas. O filme conta com uma identidade visual singular que se destaca de toda a biblioteca Disney, fato que se deve em grande parte aos designs de personagem de autoria do cartunista britânico Gerald Scarfe.

A escolha inspirada rende excelentes frutos, uma vez que os traços expressionistas e o gosto pelo grotesco de Scarfe, conhecido pelo trabalho em Pink Floyd — The Wall, mesclam-se inusitadamente bem tanto com a imagética colorida e leve típica dos filmes da Disney, quanto com os ares satíricos com os quais o enredo flerta por toda sua extensão. É muito difícil não se encantar com o misto entre formas angulares e espirais que, sob uma abordagem minimalista e alta proeza técnica, fazem com que os visuais do filme se alinhem perfeitamente com as tonalidades do enredo: ao mesmo tempo e em perfeito equilíbrio, o épico mitológico e a comédia escrachada.

Combinando humor irreverente e um conto de proporções épicas, o roteiro aqui é um dos mais ecléticos de todo o panteão do camundongo. Afinal de contas, são bem poucos os filmes que se propõem a adaptar um mito grego em forma de musical gospel, parodiar Superman e Rocky, trazer um pouco de sátira da cultura norte-americana noventista e, de quebra, narrar o início e o final do combate de todos os deuses do Olimpo contra os titãs. A narrativa é energética e empolgante do início ao fim, novamente fazendo um bom uso do talento genial de Alan Menken para, com o uso de suas composições hipnoticamente grudentas, realizar o malabarismo necessário para manter em movimento todas essas frentes do enredo. A trilha sonora é um dos trabalhos mais sólidos de Menken, mesclando a ideia inspirada do dispositivo de enquadramento das musas gospel (narrando a história dos deuses — afinal, é ou não é esse o intuito da música god spell?) com baladas pop que, se são menos atemporais do que o estilo de “musical da Broadway” adotado em seus primeiros trabalhos, ornam perfeitamente com a proposta da película.

É difícil não ficar com a impressão de que Clements e Musker no mínimo se inspiraram levemente em suas vivências como parte dos Estúdios Disney em sua sátira do consumismo desenfreado e dos exageros do showbiz tebano. De maneira um tanto auto-indulgente, a comercialização desenfreada da imagem de Hércules traz diversos momentos divertidos para o enredo, apoiando-se no carisma ilimitado de figuras como Pégasus, Phil, além dos divertidos minions Pânico e Agonia. Com o sucesso arrebatador de Os Simpsons e de seus derivados, a ideia também vinha ao encontro das sensibilidades noventistas, o que se alinha bem com a proposta do filme em contemporanizar o mito. Se Oliver e sua Turma foi o filme mais anos 1980 da Disney, foi Hércules quem mais trouxe para dentro da tela os anos 1990. Toda essa riqueza de ideias é combinada em um ritmo tão acelerado que não seria exagero dizer que o Renascimento Disney se encaminhava aqui para sua fase barroca: exagerada, auto-consciente e auto-referente, elevando a uma nova potência tudo aquilo que deu certo anteriormente.

O Hércules que chega até nós pelo filme é um misto de pelo menos três figuras mitológicas, que são abordadas em torno do eixo principal da busca pelo heroísmo. Alguns elementos centrais, como os pais adotivos e os famosos Doze Trabalhos são relegados a aparições em segundo plano, sendo que adquirem centralidade as relações do herói com o treinador Danny DeVito Phil e com o interesse romântico Mégara. As escolhas são coesas com a proposta do enredo, e o enorme carisma dos personagens compensa pelos leves deslizes do enredo. Merecem destaque Meg, que traz o centro dramático da trama com seu passado trágico, ao mesmo tempo em que propicia momentos hilários com sua personalidade irreverente (rompendo com vários clichês da posição de “interesse romântico”); e o absurdamente carismático Pégasus, que traz excelentes momentos de humor visual para o filme. E o que dizer de Hades? Papel-revelação de James Woods, a adição tardia ao elenco redefiniu o personagem com seu misto de comediante stand-up fracassado e vendedor trambiqueiro de carros usados, brilhantemente bem complementado pelos visuais — o efeito de representar suas tentativas falhas de controlar sua raiva visualmente com as explosões de chamas é sensacional.

Se é verdade que a animação é um show audiovisual experimental e energético do início ao fim, isso acaba vindo ao preço de pequenas inconsistências internas no roteiro. A maior delas se refere justamente ao arco do protagonista. A história de Hércules se inicia — como não poderia deixar de ser — como um conto sobre identidade pessoal, seu conflito central sendo o fato de que ele não se encaixa com sua vida com os pais adotivos mortais. A jornada em busca ao heroísmo vem como forma, apontada por Zeus, de se seguir em busca dessa identidade e de seu lugar no mundo. Hércules deseja ser um herói apenas para voltar ao Olimpo, e esse posicionamento praticamente não evolui ao longo do filme. Em parte devido ao enfoque comédico que a busca pelo heroísmo — e fama, com a entrada do sonho do treinador Phil na parada — toma no enredo, o fato é que a temática central é pouco articulada pelas ações do personagem principal, que transita entre motivações atribuídas por terceiros e tem pouco agenciamento por si próprio.

Essa “ponta dupla” do enredo se prova mais aguda no desfecho da animação, seu maior ponto fraco (poderia se dizer: seu calcanhar de Aquiles?). Os titãs invadem o Olimpo e derrotam todos os deuses com facilidade, apenas para serem vencidos facimente por Hércules, ainda em sua forma mortal. Um dos pontos centrais da trama é resolvido em uma gag visual em que o herói toma o titã dos ventos pela cauda, suga os outros como aspirador de pó e lança em direção ao espaço, literalmente varrendo para baixo do tapete cósmico um buraco desnecessário de roteiro.

E por que isso acontece? Bem, na verdade essa cena se encontra “sanduichada” entre o verdadeiro desfecho da história: Mégara foi esmagada por uma coluna ao salvar Hércules, o que fez seus poderes de semideus voltarem, às custas da vida de sua amada. É bizarra a forma como ele deixa Meg com Phil, voa até o Olimpo e resolve o apocalipse em cerca de minutos, apenas para voltar à cena anterior como se nada tivesse acontecido. E é aí que está o problema: o desfecho emocional do filme tem que ser o salvamento de Meg no Mundo Inferior, mas o desfecho do enredo exigia que fosse o combate no Olimpo. O que eu nunca entendi em relação a isso é: porque raios a ordem das coisas não foi invertida? Por que Hércules não salvou Meg do Mundo Inferior primeiro e, ao adquirir seus plenos poderes de deus, utilizou-os para banir os titãs, resolvendo o furo de roteiro e o problema de estrutura do ato final numa tacada só?

Embora toda a ambição e o impulso experimental cobrem seu preço em alguns momentos, não há dúvidas de que Hércules é um filme muito mais interessante assim do que se Clements & Musker tivessem decidido jogar seguro e se atido aos paradigmas bem conhecidos. A animação diverte e encanta do início ao fim e, mesmo que o foco vacile na entrega dos desfechos emocionais e na resolução de alguns dos arcos de personagem, trata-se ainda assim de uma aventura épica com comédia genuína que merece ser lembrada como mais um dos grandes acertos da segunda fase de ouro do estúdio.

Hércules (Hercules) – EUA, 1997
Direção:
 Ron Clements, John Musker
Roteiro: Ron Clements, John Musker, Don McEnery, Bob Shaw, Irene Mecchi
Vozes originais: Tate Donovan, Josh Keaton, Roger Bart, Danny DeVito, James Woods, Susan Egan, Bobcat Goldthwait, Matt Frewer, Samantha Eggar, Barbara Barrie, Rip Torn, Hal Holbrook, Paul Shaffer, Amanda Plummer, Carole Shelley, Paddi Edwards, Charlton Heston, Patrick Pinney, Lillias White, Vanéese Y. Thomas, Cheryl Freeman, LaChanze, Roz Ryan, Corey Burton, Jim Cummings, Keith David, Mary Kay Bergman, Kathleen Freeman
Duração: 92 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.