Crítica | Heroes – 1ª Temporada

estrelas 4,5

No início de 2006, Tim Kring elaborava uma série de televisão que abrangesse diversos países e diferentes personagens, numa trama com escala global. A ideia de super-herói foi posta à mesa, e a NBC logo aprovou Heroes, centrada no cotidiano de pessoas comuns que repentinamente se vêm dotadas de habilidades especiais.

Somos apresentados à líder de torcida Claire Bennet (Hayden Panettiere), no Texas, capaz de sobreviver a qualquer machucado e se regenerar rapidamente; Matt Parkman (Greg Grunberg), um policial de Los Angeles capaz de ouvir e ler mentes; Isaac Mendez (Santiago Cabrera), um artista viciado em heroína que se dá conta que suas obras preveem o futuro; Hiro Nakamura (Masi Oka), um entediado sonhador de Tóquio descobre a habilidade de manipular o tempo e espaço; Niki Sanders (Ali Larter), uma mãe solteira em Las Vegas que é assombrada por uma sinistra dupla personalidade enquanto luta para proteger seu filho e lidar com seu ex-marido presidiário; D.L. Hawkins (Leonard Roberts); Nathan Petrelli (Adrian Pasdar), um candidato a deputado em Nova York que é capaz de voar, enquanto seu irmão Peter (Milo Ventimiglia) vai aprendendo sobre sua nebulosa habilidade. No fator humano, duas importantes figuras marcam presença: o geneticista indiano Mohinder Suresh (Sendhil Ramamurthy), dedicado a estudar e encontrar pessoas especiais pelo mundo, e o misterioso Sr. Bennet (Jack Coleman), representante de uma companhia que procura e neutraliza indivíduos com poderes.

A promessa do Volume Um, intitulado Gênese, é que esses indivíduos terão seus caminhos cruzados a fim de salvar o mundo. Só pela descrição do elenco acima, já é possível deduzir que Heroes terá uma infinidade de subtramas e personagens, e que muitos destes serão ambientados em diferentes cantos do planeta. O piloto da série é extremamente habilidoso ao lidar não só com tanta informação, mas por oferecer abordagens e estilos distintos a cada trama: há um pouco de drama familiar, vício em drogas, política, high school e até a velha história do crime organizado em Las Vegas. Kring adora um bom melodrama, o que caracteriza praticamente todas as subtramas da série, com exceção daquela que definitivamente é uma das preferidas do público: a jornada de Hiro Nakamura. O insanamente carismático Masi Oka rouba a cena desde sua primeira aparição, na pele de um ingênuo e alegre funcionário de Tóquio que – a princípio – é o único personagem que vê sua habilidade como um fator beneficente. Os efeitos visuais de seus congelamentos do tempo são inventivos, e Kring merece créditos por manter quase todos os diálogos de Hiro com seu amigo Ando (James Kyson Lee) em japonês, sabiamente posicionando as legendas de maneira a remeter aos balões de histórias em quadrinhos; assim como a dinâmica mistura de tons de cor (azul e vermelho misturam-se frequentemente).

Já a líder de torcida Claire Bennet enxerga sua regeneração espontânea como uma maldição, e isso já é traduzido estilisticamente em sua primeira aparição: na estética found footage, acompanhamos aquilo que parece ser uma tentativa de suicídio da menina, apenas para que esta registre para a câmera suas cicatrizes sumindo enquanto coloca suas costelas de volta no lugar. Uma introdução forte e que brinca de forma elegante com as expectativas do público, da mesma forma que a trama de Niki Sanders aposta num forte jogo duplo quanto à identidade de Jessica, sua falecida irmã que é revelada ser sua misteriosa identidade oculta – assumindo seu corpo espontaneamente -, adotando uma fotografia que constantemente aposta em espelhos e reflexos para representar sua dualidade.

No desenrolar dos 23 episódios, a trama se mexe com velocidade e num bom ritmo, especialmente quando assume um caráter de thriller na caçada do serial killer Sylar (um excelente Zachary Quinto), que absorve a habilidade de suas vítimas. Tudo bem que, aqui e ali, o drama de Niki com seu filho Micah (James Kyson-Lee) começa a cruzar o limite do novelesco e a jornada espiritual de Mohinder na Índia seja um tanto monótona, mas no geral a série se mantém firme com a exploração dos poderes, além de Hiro servir como um maravilhoso alívio cômico. Mas o mais interessante são os pontos de virada, especialmente quando diferentes personagens passam a se cruzar casualmente, além da brilhante ideia de um sujeito capaz de prever o futuro em pinturas.

Outro importante ponto de virada acontece em Homecoming, por enfim juntar os núcleos de Peter, Hiro e Claire, durante a tentativa de ataque de Sylar. Tal sequência aliás, se sobressai como um dos pontos altos de toda a série por construir uma atmosfera sombria e gélida com o iminente ataque de Sylar: a antecipação de Peter, a imagem ainda oculta do assassino nas sombras e o choque de violência que se desenrola num ambiente escolar. É uma sequência assustadora, e ao mesmo tempo empolgante por tratar-se do decisivo momento em que Peter enfim abraça o heroísmo tão antecipado, num memorável e realista confronto com o vilão. E como fã da série, não poderia ficar sem mencionar aquele que não somente é o melhor episódio da temporada, mas também um dos melhores episódios de qualquer série deste milênio: Company Man, um capítulo tenso e o único a se concentrar num único núcleo, parando a trama para se concentrar nos flashbacks do misterioso Noah Bennett e sua relação com a Companhia, ao mesmo tempo em que tenta manter sua família em segurança durante um sequestro dentro de sua própria casa.

Quando Heroes começa a revelar seu principal antagonista e o grande plano mirabolante, lá pelo final da série, é impossível que o bom fã de quadrinhos não remeta diretamente à Watchmen. A profética explosão de Nova York desempenha um papel idêntico à da criação de Ozymandias na graphic novel de Alan Moore, mas aqui Kring consegue ir um pouco além ao explorar as consequências de uma catástrofe global em Five Years Gone, ótimo episódio que mostra os heróis num sombrio futuro apocalíptico.

A primeira temporada de Heroes foi uma maravilhosa abordagem televisiva ao mundo dos super-heróis e habilidades especiais, rendendo uma narrativa eclética, agitada e povoada por figuras interessantíssimas. Altamente recomendada!

YATTA: Company Man
Powerless: Better Halves

Heroes (Idem, EUA – 2006/7)
Criador:
Tim Kring
Principais diretores:
Allan Arkush, Paul Edwards, Greg Beeman
Roteirista: vários
Elenco: Milo Ventimiglia, Masi Oka, Hayden Panettiere, Greg Grunberg, Zachary Quinto, Ali Larter, Jack Coleman, Leonard Roberts, Santiago Cabrera, Sendhil Ramamurthy
Número de Episódios: 23
Duração: 42 min (cada episódio)

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.