Crítica | Heroes – 3ª Temporada

estrelas 2,5

Depois da nada impressionante segunda temporada, Heroes prometia um épico retorno à seu status extraordinário, com Tim Kring cheio de ideias ambiciosas para seu terceiro ano. Tamanha megalomania, que o criador respondeu à Greve do WGA com uma temporada composta por dois volumes com treze episódios cada, separados por um intervalo de dois meses.

Tal divisão nos permite uma proposta de análise mais eficiente para esta temporada:

Volume 3: Vilões

Seguindo a tentativa de assassinato de Nathan Petrelli no final do ano anterior, The Second Coming começa no 220 com uma abertura sensacional, nos apresentando a mais um futuro distópico e versões sombrias dos protagonistas. É aí que entra o Peter Petrelli desta realidade, já revelado como o responsável por atirar na versão passada de seu irmão, a fim de evitar uma catástrofe. Não só essa bombástica informação nos atinge como um soco, mas também temos promissoras subtramas com Matt Parkman (Gregg Grunberg) sendo transportado para um deserto na África, Hiro Nakamura (Masi Oka) recebendo uma nova missão de seu pai e um esfomeado Sylar partindo para enfim atacar Claire em sua casa.

Todas esses empolgantes acontecimentos fazem da season premiere um dos pontos altos de toda a série, o que realmente dói quando vemos os rumos estúpidos tomados por Kring ao longo da temporada. Já começando da revelação de que Sylar também é filho de Angela Petrelli, criando uma decepcionante sensação de que todos os personagens são membros de uma mera briga familiar, ao passo em que a ameaça do futuro é revelada como uma fórmula química capaz de dar poderes a pessoas comuns… Isso acaba com todas as influências e discursos Darwinistas que a série trazia em sua primeira temporada, ainda mais quando nos é revelado que os poderes de alguns dos personagens principais foram criados em laboratório, e não pela evolução. O que nos leva à Tracy Strauss, responsável por descobrir dos experimentos, que é vivida por ninguém menos do que Ali Larter que – vejam só – é uma irmã gêmea de Niki Sanders… Os produtores realmente não queriam perder a atriz, não importando o quão tola seria a justificativa para mantê-la na história.

E mesmo que Mohinder Suresh nunca tenha sido uma figura interessante, a ideia de lhe fornecer poderes é risível. Não só vai completamente contra os ideais do personagem (que nunca, jamais demonstrou interesse em ter habilidades), como o lança numa subtrama assumidamente copiada de A Mosca, de Cronenberg, à medida em que o geneticista começa a sofrer medonhas mutações em seu corpo; que basicamente o transforma em uma barata gigante. De maneira similar, a transição de líder de torcida agonizada com seus poderes para jovem idealista com desejo de salvar o mundo é muito rápida, não sendo muito coerente aqui. E nem vou falar sobre o arco maluco que o pobre Nathan Petrelli de Adrian Pasdar enfrenta aqui.

Um dos pontos positivos deste Volume 3, é justamente aquele que traz em seu título: vilões. Logo no segundo episódio, Sylar é responsável por libertar 12 dos mais perigosos prisioneiros da Companhia; sujeitos assumidamente do mau, e que garantem bons episódios sobre a procura dos heróis. One of Us, One of Them nos lança à cartunesca situação de reféns em um banco, quando um grupo de 4 vilões planeja se vingar da Companhia, que envia Noah Bennet e – sim – Sylar para controlar a situação. É uma pena que esta seja apenas um dos núcleos do bom episódio, que funcionaria melhor caso adotasse uma estrutura isolada, como aquela vista em Company Man. O vilão central de Arthur Petrelli ganha uma figura interessante graças à sistemática performance de Robert Forster, que transforma o patriarca da família de Peter e Nathan em um sujeito frio e calculista, rendendo um eficiente episódio de origens (o oitavo da temporada, Villains) que ajuda a posicioná-lo bem dentro da trama geral. O clímax Dual também é um dos pontos altos da temporada, ainda mais pela fotografia sombria que confina parte dos heróis dentro da Companhia com Sylar, em um bem executado jogo de gato e rato.

Ainda assim, é um volume decepcionante.

YATTA:  Dual
Powerless:
It’s Coming

Volume 4: Fugitivos

Dois meses depois, a segunda metade da terceira temporada estrearia, sob a promessa do próprio Tim Kring de termos algo mais simples e centrado, na esperança de evitar o descontrole anárquico que foi Vilões. Partindo do instigante desfecho do volume anterior, Fugitivos começa com Nathan Petrelli trabalhando com um equipe secreta do governo americano para capturar todas as pessoas com habilidades, que encontram-se escondidas. Entra em cena o caçador Emile Danko, que o competente Zeljko Ivanek transforma na figura antagonista central da história.

Assim, o volume 4 tem uma narrativa mais específica do que o perdido volume anterior, com a caçada pelas pessoas com habilidades rendendo alianças inesperadas e um bom ritmo. No entanto, tal decisão transforma Heroes em mais uma genérica série policial, perdendo todo o charme que nos conquistara previamente em 2006. Os núcleos de Peter, Hiro, Claire e grande parte do elenco são misturados de qualquer jeito e sem uma narrativa lógica, incluindo descartáveis viagens de Hiro à Índia e até uma inexplicável evolução no poder de Matt Parkman, agora capaz de pintar o futuro como Isaac Mendez. A absurda dependência de Kring em deus ex machinas realmente elimina qualquer tensão ou envolvimento com os personagens, que parecem incapazes de morrer ou sentir algo genuíno.

Sylar é o único que permanece ileso, sendo lançado numa sonolenta busca por seus pais verdadeiros, que acaba por desvirtuar completamente o personagem ao colocá-lo ao lado de um adolescente – que também revela-se obviamente descartável. Só melhora quando seu núcleo enfim cruza-se com Danko, rendendo uma inesperada aliança entre os dois, e uma bizarra crise de identidade do famigerado serial killer. Assim, Kring toma aquela que talvez seja a mais estranha decisão de toda a série em An Inivisible Thread, envolvendo Sylar e Nathan. Confesso que, por mais que seja tola, pode trazer bons  frutos para a 4ª temporada.

Só temos algo realmente bom quando Bryan Fuller se mete. Produtor consultor da série desde a primeira temporada, o criador da futura série Hannibal já havia escrito o excelente Company Man, e ele retorna aqui novamente para Cold Snap, e não é nenhuma surpresa que este seja o absoluto ponto alto da 3ª temporada. Impressiona por enfim aproveitar bem a nova personagem de Ali Larter e seu poder de congelamento, além de fragilizar a poderosa Angela Petrelli em uma Nova York chuvosa e sufocante. Fuller até consegue lidar bem com o pavoroso núcleo de Matt com a velocista Daphne, oferecendo um desfecho poético e memorável.

YATTA: Cold Snap
Powerless: Exposed

É triste ver que a promissora 3ª temporada foi capaz de decepcionar mesmo tendo considerável tempo de desenvolvimento e dois volumes com ritmos diferentes que pouco lembram a maravilhosa estreia de Tim Kring em 2006. Agora, não teve greve para culpar e a ideia de que Heroes tinha ficado ruim era algo que os fãs precisaram aceitar.

Heroes (Heroes, EUA, 2008/2009)
Showrunner:
Tim Kring
Principais diretores:
Allan Arkush, Paul Edwards, Greg Beeman
Elenco: Milo Ventimigla, Masi Oka, Hayden Panettiere, Greg Grunberg, Zachary Quinto, Ali Larter, Jack Coleman, Kristen Bell, Sendhil Ramamurthy, Robert Forster, Brea Grant, George Takei, Dania Ramirez, Zeljko Ivanek.
Duração: 25 episódios de 42 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.