Crítica | Heroes – 4ª Temporada

estrelas 2

Infelizmente, não era um bom momento para os fãs de o que um dia foi Heroes quando a quarta temporada estreou, em fevereiro de 2010. O promissor ano anterior fora um desastre broxante, e Tim Kring tinha a árdua tarefa de reparar seus erros e oferecer algo que pelo menos lembrasse o magistral volume de estreia. Não por acaso, o quinto volume vem intitulado como Redenção.

Assim como nas temporadas anteriores, o quinto volume da série começa com nossos protagonistas tentando levar uma vida normal: Claire Bennet agora prepara-se para começar a vida universitária, Matt Parkman voltou a morar com a ex-esposa para cuidar de seu filho bebê, Hiro Nakamura e seu amigo Ando tentam fazer bom uso de seus poderes, Peter Petrelli rala duro como paramédico em Nova York e Angela Petrelli tenta lidar com a complexa situação de que Sylar “transformou-se” em seu filho Nathan, ainda atuando como senador.  E, claro, temos o grande diferencial da temporada: a misteriosa trupe cirquense controlada por Samuel Sullivan, o antagonista da vez.

Com Orientation, Kring inicia seu caminho para melhorar Heroes. E, de fato, a narrativa parece muito mais acomodada em tramas simples na tentativa de remeter à gloriosa primeira temporada, particularmente por manter Peter como paramédico – agora usando seus poderes a seu favor. Admiro também a ótima ideia de trazer Matt sendo assombrado por uma estranha presença de Sylar em sua mente, resultando em algo como se A Hora do Pesadelo 2 (que trazia o vilão Freddy Krueger renascendo através de um garoto) tivesse sido bom, além de garantir uma química divertida entre Grunberg e o sempre carismático Zachary Quinto, particularmente quando este acompanha o policial fazendo uma batida. Quanto ao “verdadeiro” Sylar, Kring previsivelmente aposta no vilão tendo consciência de que não é de fato Nathan Petrelli, levando a laspos de memória bizarros e surtos de habilidade que claramente preocupam sua mãe, Angela. Só fica interessante mesmo quando Nathan enfim dá seu adeus à série (de certa forma… é uma bagunça), deixando agora um Sylar confuso e sem memória, que… coexiste de alguma forma com o Sylar da mente de Matt. Sim, você também deve ter percebido que Kring viajou pesado aqui.

E por um lado, aprecio a ousadia do showrunner. O que vemos em Redenção não é Heroes. A série abandona a premissa do primeiro ano e parece concentrada em uma mistura confusa entre fantasia com drama universitário. E, já que tocamos nesse assunto, é realmente lastimável que Kring julgue-se capaz de escrever personagens adolescentes críveis, já que nenhuma das novas personagens no núcleo de Claire – incluindo a própria – passam de estereótipos gritantes, presas em uma subtrama que parece ter saído de um dos piores episódios de Pretty Little Liars, com bizarros toques de The L Word, ao passo em que Peter Petrelli fica limitado a um Grey’s Anatomy genérico. O grande Hiro Nakamura também tem um núcleo decepcionante aqui, já que o súbito tumor cerebral enfraqueceu seus poderes e o deixou à mercê de outros personagens menos interessantes. O desespero para repetir o nível da primeira temporada é tão grande que a série inventa uma viagem no tempo de volta para um dos episódios de 2006, em Once Upon a Time in Texas, trazendo de volta a carismática garçonete vivida por Jayma Mays. Infelizmente, só serve para comprovar como a série está completamente perdida.

Então chegamos ao Circo de Samuel, este que se destaca como o grande antagonista da vez. Sua inserção na história é interessante por oferecer um novo olhar à narrativa e estilo da série, que se aproximam bem mais da fantasia, além de usar com mania a técnica do ângulo holandês durante praticamente todas as suas cenas. A direção de arte também acerta em criar novos ambientes (especialmente a sala de espelhos que relembra as memórias de Sylar) e Robert Knepper também é eficiente ao criar uma figura manipuladora e influente, mas quando paramos para pensar em suas motivações… É algo tão dúbio e confuso, e seus companheiros têm poderes tão estúpidos (o que dizer da mulher que tem visões em suas… tatuagens) que só é possível culpar a fadiga dos roteiristas e o excesso de personagens com habilidades variadas.

É uma pena chegar – ou seria sobreviver? – à quarta temporada de Heroes e se deparar com as infelizes decisões que uma série tão promissora se arriscou a tomar. Nem mesmo a adição de um grupo completamente diferente pôde salvar a série de Tim Kring de uma chatice sem fim, e um merecido cancelamento.

Será mesmo o fim?

YATTA: Once Upon a Time in Texas
Powerless: Thanksgiving

Heroes (Heroes, EUA, 2010)
Criador:
Tim Kring
Principais diretores:
David Streiton, Nate Goodman, Roxann Dawson, Adam Kane, S.J. Clarkson
Elenco: Milo Ventimiglia, Masi Oka, Hayden Panettiere, Greg Grunberg, Zachary Quinto, Ali Larter, Jack Coleman, Cristine Rose, Sendhil Ramamurthy, Robert Knepper, Ray Park, Madeline Zima, Deanne Bray
Número de episódios: 19
Duração: 42 min (cada episódio)

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.