Crítica | Heroes Reborn

estrelas 2

Obs: Leiam as críticas das temporadas anteriores, aqui.

Não é fácil ser fã de Heroes. A primeira temporada da série de Tim Kring foi uma das mais empolgantes estreias televisivas de 2006, tendo sido fadada, nas temporadas posteriores, a uma série de decisões ruins e histórias bregas que levaram a seu merecido cancelamento em 2010. Então, out of the blue, Kring anuncia que a série teria um revival em 2015 com Heroes Reborn, vendida como um reboot que apresentaria algo completamente novo, mas que também existiria dentro da mitologia original.

A trama começa em um futuro no qual as pessoas com habilidades (chamadas aqui de EVOs, abreviação de evolved) enfim foram à público, seguindo o exemplo da revelação de Claire Bennet no final da série original. Em um evento para simbolizar a união dos EVOs com a sociedade humana, uma bomba catastrófica destrói a cidade de Odessa no Texas, forçando todos os EVOs a se esconder do governo.

Nesse cenário, somos apresentados a diferentes tramas ao redor do mundo. O casal Luke e Joanne Collins (Zachary Levi e Judith Shekoni) executa uma caçada mortal a todos os EVOs, que os culpam pela morte de seu filho na explosão da bomba. O jovem Tommy Clark (Robbie Ray) descobre a habilidade de transportar massa orgânica de um lugar a outro. Após a morte de seu irmão, Carlos Gutierrez (Ryan Guzman) assuma a identidade de El Vengador, uma figura vigilante do México. No Japão, Miko Otomo (Kiki Sukezane) descobre que, de alguma forma, é capaz de entrar em um videogame. Por fim, Noah Bennet (Jack Coleman) é atraído pelo jornalista Quentin Frady (Henry Zebrowski) em uma conspiração para descobrir o real responsável pelo atentado em Odessa.

É um recomeço para a série, mas é temeroso contestar como pouco parece ter mudado na mente de Tim Kring. A televisão mudou muito de 2006 para cá, e as séries de super-heróis em especial tem atingido um padrão de qualidade muito alto; apenas observem a maturidade de Demolidor e Jessica Jones ou a popularidade de Arrow e The Flash. Até mesmo Sense8, mesmo não sendo uma série do gênero, foi bem eficiente em lidar com múltiplas histórias “fantásticas” em pontos diferentes do planeta. Infelizmente, é um nível muito abaixo no qual Heroes Reborn se encontra. Ao longo de seus 13 episódios, a trama é incapaz de instigar, além de soar como uma mistura genérica de tudo o que Kring já havia explorado nas temporadas anteriores: a ameaça de uma bomba letal, um vilão “visionário” que acredita na sobrevivência dos mais fortes e uma companhia cheia de potenciais ameaças.

E até poderíamos perdoar isso caso tivéssemos bons personagens. Noah Bennett é o único veterano da série original, com algumas participações de luxo como as do Hiro Nakamura de Masi Oka (excepcionalmente posicionado no desenrolar da trama), Mohinder Suresh de Sendhil Ramamurthy, Matt Parkman de Greg Grunberg, entre outros pequenos papéis. Desnecessário dizer que esses são os momentos em que a série ganha mais força, principalmente pela nostalgia que provoca ao vermos ali, novamente.

Desesperados para criar uma nova dupla japonesa, a equipe faz um trabalho pavoroso com Miko e Ren. Primeiro porque a relação dos dois é bizarra, e Ren surge mais como um groupie irritante ao nível Jar Jar Binks do que alguém que tenha real compaixão pela companheira. Já Miko… Além de totalmente inexpressiva em sua versão “humana”, é sofrível quando somos forçados a acompanhar longas sequências da personagem dentro de um game, com gráficos que parecem saídos de um Playstation 3 em início de geração. A coreografia das cenas de ação também decepcionam, tanto no estilo quanto na direção inimaginativa dos diferentes diretores. Só temos algo realmente empolgante em termos de aventura quando Allan Arkush (responsável por diversos episódios da série original) retorna para um eficiente episódio de duas partes (June 13th).

Se há um fator cativante aqui, é Zachary Levi. O talentoso comediante de Chuck surpreende ao fazer um personagem dramático e completamente diferente de seus trabalhos anteriores, além de Luke e Joanne se destacarem diante dos demais por serem assassinos – a introdução dos dois em um grupo de anônimos é fantástica. Fica mais interessante quando há uma ruptura entre os dois, devido a uma inesperada revelação quanto a natureza de Luke (olha, não precisa ser um gênio para prevê-la alguns episódios antes de acontecer) e o caminho que este é forçado a seguir depois.

Mas é um mero sopro de alívio em meio a linhas narrativas entediantes. Tudo o que acontece no México é absolutamente pavoroso, com El Vengador sendo uma versão estranha do Batman (com direito a um mordomo e uma caverna subterrânea!), mas que certamente provoca risos com sua roupa mais apropriada para um duelo com Nacho Libre.

Infelizmente, Heroes Reborn pouco oferece a nós, órfãos daquela maravilhosa primeira temporada que Tim Kring nos presenteou em 2006. A série carece de uma trama envolvente, personagens carismáticos e virtualmente de qualquer coisa que a torne especial em meio a diversas e diversas séries de super-heróis que lotam as grades de programação.

Heroes Reborn (Heroes Reborn, EUA – 2015/6)

Showrunner: Tim Kring
Diretores: Matt Shakman, Greg Beeman, Jeff Woolnough, Gideon Raff, Allan Arkush, Larysa Kondracki
Elenco:
Jack Coleman, Zachary Levi, Robbie Kay, Kiki Sukezane, Ryan Guzman, Rya Kihlstedt, Gatlin Green, Judith Shekoni, Danika Yarosh, Henry Zebrowski, Masi Oka, Greg Greenberg, Jimmy Jean-Louis.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.