Crítica | Hideout (mangá)

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estrelas 5,0

Japoneses sabem fazer histórias de horror. Olhem o cinema deles e verão fantásticas e inesquecíveis obras como os sessentistas Jigoku, As 4 Faces do Medo e Onibaba, O Sexo Diabólico, além dos recentes O Chamado, O Pacto e O Grito que são constantemente copiados pelo Ocidente. Assim, foi com confiança que imaginei que Hideout (em tradução livre, “Esconderijo”), mangá de horror por Masasumi Kakizaki, não fosse diferente, mesmo tendo sido meu primeiro contato com um mangá verdadeiramente desse gênero.

E, dito e feito, Hideout não me frustrou. Muito ao contrário, na verdade, pois conseguiu ir além do que esperava. Bem além.

Obra em volume único publicada pela Panini Comics, Hideout, conforme seu autor mesmo deixa claro no posfácio, bebe de influência Ocidental, notadamente de Stephen King em seus melhores momentos (a fase mais antiga dele). No entanto, mesmo não sendo nominalmente citado por Kakizaki, parece-me que sua verdadeira influência do lado de cá do oceano foi do genial Edgar Allan Poe, mais especificamente de seus contos O Coração Revelador (A Tell-Tale Heart) e O Barril de Amontillado (The Cask of Amontillado) ou até mesmo de A Queda da Casa de Usher (The Fall of the House of Usher). E a razão é muito simples: ainda que Hideout possa ser lido como uma narrativa linear de um casal perdido em uma floresta de uma ilha paradisíaca tendo que lidar com uma ameaça desconhecida, ele também pode ser encarado como algo semelhante à descida de Fortunato à adega de Montresor, em uma espiral constante que ultrapassa os limites da sanidade.

E, se o leitor souber apreciar essa segunda camada, que também não é a única outra que existe, então Hideout será algo especial, uma verdadeira viagem pela mente dos protagonistas e, em última análise, pela mente da raça humana. A narrativa faz uso de flashbacks que, aos poucos, vão revelando o que levou os dois àquela ilha, desnudando a destruição de um relacionamento conjugal em razão de uma tragédia. O catalisador do problema – reparem, estou sendo propositalmente misterioso aqui, pois falar algo é estragar o prazer da descoberta – é até algo clichê, já usado antes um sem número de vezes, mas a maneira cirúrgica e cinematográfica que Kakizaki insere os momentos no passado, alterando até a arte, torna a leitura fluida e cativante em todos os momentos. É uma daquelas obras que, mesmo sabendo quase que exatamente o que vai acontecer (será?), o leitor não conseguirá parar de ler até devorar as pouco mais de suas 200 páginas.

A arte, aliás, é outro ponto que merece destaque. E muito destaque na verdade.

Com as quatro páginas iniciais a cores, em momento futuro da narrativa, com o protagonista ensanguentado e amarrado à uma cadeira, voltamos ao presente, em preto e branco, com o casal na praia. Os traços são típicos de mangás: limpos, precisos e bonitos. Mas Kakizaki acrescenta fotorrealismo a seu trabalho e confesso que, aqui, não sei dizer se ele fez uso de computador, mesclando fotografias reais à arte ou desenhou tudo de próprio punho. Seja como for, o resultado é muito interessante.

hideout-plano-criticoNo entanto, a arte realmente chama atenção e se destaca de seus pares quando o autor passa a abordar a viagem do casal para a floresta e a descoberta de uma tenebrosa caverna. Trabalhando predominantemente o preto com tons de cinza, a arte passa ao leitor o breu total fora e dentro da caverna de maneira impressionante, transmitindo a opressão daquela situação, da literal inexistência de alguma saída daquele pesadelo. Novamente, Kakizaki faz uso de fotorrealismo com efeitos assustadores em termos de tragar o leitor para dentro da narrativa, que é predominantemente visual, diga-se de passagem. É literalmente ver uma obra de Poe em quadrinhos, mas sem que o autor deixe de lado sua herança Oriental.

Se existe algum defeito em Hideout, esse é o quão curta é a história. Por ter poucos diálogos, pouca narração, a leitura é rápida e simples. Mas ainda que o leitor vá acabar com a história em não mais do que uma hora (e simplesmente não dá para não virar as páginas!), vale voltar algumas vezes com calma para apreciar a detalhada e angustiante arte de Masasumi Kakizaki.

Hideout é mais uma grande obra de horror japonesa que merece um lugar na estante dos fãs de HQs em geral e de mangás em particular. Só sugiro que não leiam sozinhos no escuro…

Hideout (Idem, Japão – 2010)
Roteiro: Masasumi Kakizaki
Arte: Masasumi Kakizaki
Editora (no Japão): Shogakukan (2010)
Editora (no Brasil): Panini Comics (outubro de 2014)
Páginas: 224

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.