Crítica | Highlander – O Guerreiro Imortal (1986)

estrelas 3,5

Obs: Há spoilers, mas o filme é de 1986 e a regra de “aviso de spoiler” não se aplica de verdade. De toda forma, se você não assistiu, deveria assistir antes de ler.

Devo começar fazendo um aviso importante aos meus leitores, algo que costumo deixar claro em algumas poucas obras que fizeram parte da minha “formação” como cinéfilo e, por que não, crítico: adoro Highlander (só este filme, o original, pois “só pode haver um”) do começo ao fim e relevo completamente seus mais diversos defeitos. Se dependesse unicamente do meu lado emocional, esta produção anglo-americana levaria facilmente cinco estrelas. Mas a função de um crítico é deixar em xeque suas emoções – o máximo possível, claro, pois a verdadeira imparcialidade é impossível – e tratar o objeto de seus comentários com objetividade.

Dito isto, Highlander é um fruto dos anos 80 que, inexplicavelmente (ou talvez nem tanto), assim como seus personagens, ganhou enorme longevidade com três continuações no cinema, duas séries de TV live-action (uma delas com seis e a outra com uma temporada), uma série de TV em animação (com duas temporadas), dois longas em animação, livros, audiodramas e quadrinhos, além de videogames. Um verdadeiro filão explorado ao limite pela indústria do entretenimento que ainda tem planos de colocar nas telonas o obrigatório reboot em futuro ainda incerto e não sabido.

Talvez a razão para todo esse sucesso tenha raízes no estranho charme trash oitentista que a obra original carrega, algo que é definitivamente ampliado pelo protagonismo do então ainda exótico Christopher Lambert (vindo de Greystoke e Subway, dois filmes que ganharam seguidores fieis e um ar de cult) e do sempre carismático e eterno e melhor 007 Sean Connery, além da famosa e inesquecível trilha sonora composta pelo Queen (inicialmente, o Marillion foi convidado, mas negou em razão de conflitos com turnê), a segunda na mesma década. Afinal, quem pode esquecer o álbum deles para a divertida trasheira camp Flash Gordon, não é mesmo?. Todos esses elementos, aliados a uma narrativa com muitos duelos de espada, flashbacks para a Idade Média e subtemas muio presentes sobre solidão e preconceito elevam Highlander a mais do que apenas diversão descerebrada de sua década e potencialmente explica sua diluição e – sim – prostituição com tudo que veio a reboque posteriormente.

Como é mencionado no filme mais de uma vez, há “um tipo de mágica” no ar, tanto literal, quanto metaforicamente. A história de guerreiros imortais que, ao longo dos milênios duelam entre si até que só reste um que ganhará um misterioso “prêmio” é automaticamente cativante. Imaginem vocês, por um momento, vivendo não uma vida, mas várias vidas ao longo de centenas e centenas de anos, com todos os entes queridos ao seu redor morrendo de uma maneira ou de outra e, ainda por cima, tendo que olhar por sobre o ombro a cada minuto para literalmente não perder a cabeça? Imaginem a solidão e a tortura de uma vida cujo único efetivo objetivo é matar ou morrer, sem lar fixo, sem criar raízes, sem efetivamente existir como um ser humano. Não é à toa que, em um belo momento da película, a especialista forense e interesse romântico de Connor McLeod (Lambert) no século XX, Brenda (Roxanne Hart), diga a ele que ele não tem medo de morrer e sim de viver.

E é a verdade dolorosa dessa fita, verdade essa que alcança níveis ainda mais líricos quando, embalados pela belíssima canção Who Wants to Live Forever, somos apresentados, em flashback, à vida a dois de Connor com sua segunda esposa, mas primeira e até então única verdadeira amada Heather (Beatie Edney), que morre idosa, de causas naturais, em seu colo. Se existe uma sequência que resume o porquê de Highlander estar acima do dilúvio de obras semelhantes na década de 80, esta é ela.

A presença do guerreiro egípcio Juan Sánchez Villa-Lobos Ramírez (Connery) – o nome vem de sua mais recente identidade como Metalurgista-Chefe do Rei Carlos V da Espanha – também merece destaque pela estrutura batida, mas simpática de mestre e pupilo que é formada entre ele e McLeod, em preparação ao inevitável encontro com o grande vilão Kurgan (Clancy Brown em papel raso, mas extremamente divertido), dono de momentos impagáveis como seu deboche em uma igreja católica e a sequência em que enfrenta um americano louco que anda de carro com uma metralhadora na mão, em uma tentativa completamente deslocada de crítica à belicosidade americana por parte do roteiro de Gregory Widen, Peter Bellwood e Larry Ferguson.

Feita com orçamento apertado para seu escopo épico (19 milhões de dólares), a fita carece de cuidado em diversas sequências de ação. Assistida com o olhar de hoje em dia, então, há momentos que gerarão risadas inadvertidas, como todo o poderoso duelo entre Kurgan e Ramírez no lar dos McLeod. Cada golpe derruba pedaços inteiros da torre como se as pedras fossem do que são de verdade: isopor pintado. Falta peso a cada prop e o ar de filme B impera completamente.

No entanto, Russell Mulcahy, conhecido por fazer muito com pouco (afinal, ele, além de vários videoclipes, já havia feito um filme inteiro sobre um javali – sim, um javali, por Tutatis! – gigante assassino sem que o animal aparecesse, vide Razorback – As Garras do Terror), faz o que sabe fazer de melhor e entrega um trabalho que faz jus ao seu nome. Fazendo muito uso de câmeras rodopiantes, a começar da tomada geral interna do Madison Square Garden que repousa em um soturno McLeod, Mulcahy e Gerry Fisher, experiente diretor de fotografia, trazem melancolia e “solidão na multidão” durante toda a projeção, deixando mais do que evidente a tristeza da vida de McLeod, algo evidenciado mais claramente pelo efêmero – para ele – momento de felicidade com sua querida Heather.

O roteiro, porém, acaba oscilando entre seriedade e quase-comédia mais vezes do que o necessário, criando dúvida sobre o que exatamente o espectador está assistindo e tirando foco de McLeod no processo. Mas, estranhamente – ou talvez seja a voz da nostalgia falando – as peças se encaixam e a estrutura um tanto cambaleante faz sentido, ou pelo menos algum sentido. Temos McLeod de um lado, carregando o peso do mundo sobre os ombros, recusando-se a viver e, do outro, Kurgan, vivendo como se não houvesse amanhã, de maneira a criar dois opostos que obrigatoriamente se atraem. A intensidade da atuação de Lambert em contraste com a diversão da atuação de Brown, ambos atores de medianos para ruins (mas que, por uma conjunção astral, funcionam aqui), criam o choque que o roteiro precisava para ser uma amálgama razoável, algo amplificado pela linguagem apropriadamente de videoclipe que Mulcahy usa.

Highlander é um produto único. Um daqueles filmes que, se tiver sido visto em sua época, provavelmente terá ficado para sempre na mente dos espectadores, para o bem ou para o mal. Hoje, seu efeito diante de espectadores entorpecidos pela computação gráfica talvez seja longe de ser o mesmo, mas tenho a sincera impressão que mesmo visto sob as lentes cínicas atuais, Highlander deixará sua marca.

Versão do diretor

estrelas 3,5

Com seis minutos a mais do que a versão lançada nos EUA, a versão diretor lançada para o aniversário de 10 anos de Highlander é quase que integralmente a versão europeia do filme. Nela, o espectador ganha mais flashbacks, o mais significativo deles sendo o que mostra McLeod duranta a Segunda Guerra Mundial salvando a menininha Rachel que, no presente, é sua secretária (Sheila Gish), consideravelmente mais velha que ele.

No mais, há cenas que são apenas interessantes, como a de Kurgan seguindo McLeod e Brenda no zoológico a rdículas, como Fasil dando cambalhotas (!!!) no duelo de abertura. Há novos efeitos sonoros aqui e ali, especialmente no choque das espadas – sempre exagerados e cheio de faíscas, um daqueles charmes inexplicáveis – e na aproximação entre dois imortais, mas nada que realmente avance a trama.

Em linhas gerais, porém, a Versão do Diretor não prejudica nem beneficia a versão original, que foi a que veio para o Brasil originalmente. É uma curiosidade apenas.

Highlander – O Guerreiro Imortal (Highlander, EUA/Reino Unido – 1986)
Direção: Russell Mulcahy
Roteiro: Gregory Widen, Peter Bellwood, Larry Ferguson
Elenco: Christopher Lambert, Sean Connery, Roxanne Hart, Clancy Brown, Beatie Edney, Alan North, Jon Polito, Sheila Gish, Hugh Quarshie, Peter Diamond
Duração: 110 min. (versão cinematográfica americana), 116 min. (versão do diretor/versão cinematográfica europeia)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.