Crítica | Hilda Hilst Pede Contato

PLANO CRITICO HILDA HILST PLANO CRITICO

A sinopse oficial diz o seguinte: Hilda Hilst, escritora, poeta e dramaturga é considerada pela crítica especializada uma das mais importantes vozes da língua portuguesa do século XX. Com arquivos pessoais inéditos de som e imagem, depoimentos, encontros e intervenções, Hilda Hilst Pede Contato revela sua memória e presença na Casa do Sol, chácara onde vivia em Campinas. A voz de Hilda Hilst em gravações realizadas entre 1974 e 1979, em busca de contato com o além, é o fio condutor do filme, que acaba por se oferecer como um canal de comunicação tão almejado pela escritora: ‘Vocês Mortos, vivem?

Certo. O filme de Gabriela Greeb é isso mesmo, mas não é tão simples e objetivo assim. Recusado em vários editais por ser julgado esquisito e incompreensível, Hilda Hilst Pede Contato é classificado como documentário por convenção. Arriscando alguma definição possível, ele seria um poema visual, um ensaio-xamânico filmado, um elevado docudrama de silêncio e muitas vozes.

No longa, Hilda Hilst, morta há 14 anos, retorna a sua casa e procura estabelecer contato com os vivos. Trata-se de uma inversão da experiência realizada pela escritora na década de 70, onde ela, inspirada pelo cientista Friedrich Jurgenson, buscou a transcomunicação, o diálogo com os mortos. Por meio do ruído branco que surge entre duas estações de rádio e um gravador, ela procurou conversar com desencarnados de toda ordem, daqui e de outros países: o importante era conseguir provas da imortalidade, da continuidade da vida.

Em seu regresso, Hilda encontra a residência abandonada, sem seus antigos convivas, mas ainda habitada pelas personagens que criou. Lá elas fazem morada e se presentificam em imagens sobrenaturais, dando ao filme a estranheza e ousadia tão caras a Hilda Hilst e Gabriela Greeb. A música brilhante e fantasmática de Nicolas Becker dá o tom desse passeio pelo quintal etéreo da escritora e já mostra a que veio logo no arrepiante início: um galope de cavalo que nos leva, em câmera subjetiva, para os portais da casa.

Gabriela Greeb sabe o que faz e o faz magnificamente. Junto ao fotógrafo Rui Poças, ela filma o passado, o presente e o imaginário numa amálgama mística e de alto quilate. Mais uma vez apontando para a ideia do antidocumentário que é, sem entrevistas ou identificação, os amigos de Hilda Hilst surgem em cena num jantar póstumo, rindo, bebendo e lembrando a escritora. Mas quando eles começam a trazer recordações demais, Hilda não hesita em acabar com a festa numa cena muito interessante. Ela não volta do além buscando comer macarronada com os colegas com quem viveu intensamente, mas sim para ir ao encontro de seus leitores, à sua própria voz reverberada por meio de seus livros. É conosco, expectadores, que agora ela quer estabelecer contato. Não por acaso, passagens de sua obra são lidas e encenadas de um modo que Hilda revisita sua obra e a nos oferece, mas, claro, sem nenhuma facilidade ou didatismo como era de praxe em seu estilo.

Gabriela Greeb escolhe passagens fundamentais dos textos de Hilda Hilst, mas nem sempre os mais “absorvíveis” num primeiro momento. Está aí mais uma aposta no sensorial, no imagético, onde a compreensão se dá em outros termos (plenamente dominados pela diretora). O filme é corajoso por manter o “estilo Hilda Hilst” do começo ao fim, ou seja, sem fazer nenhuma concessão estética, indo fundo na proposta artística.

Ao final da empreitada é como se tivéssemos atravessado uma bruma espessa, na qual, cegos pela neblina, fomos guiados por vozes, imagens oníricas e tudo aquilo que pertence ao campo do imaterial. Se Hilda Hilst fosse cineasta seria exatamente esse o filme que faria. Gabriela Greeb conseguiu pôr na tela não a vida, não a obra da escritora, mas algo muito mais difícil: a atmosfera do universo particular, remoto, descontínuo, fluido e intangível da genial Hilda Hilst.

Hilda Hilst Pede Contato – Brasil, 2018
Direção: Gabriela Greeb.
Roteiro: Gabriela Greeb.
Elenco: Luciana Inês Domschke.
Duração: 73 min.

MAURÍCIO ROSA . . . Maurício Rosa é um cara do século 19 ou dos anos 70 ou do futuro, mas, definitivamente, não é um homem do aqui e agora. É poeta ocasional e brinca com as palavras para produzir textura e afeto. Tem 26 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.