Crítica | Him & Her – Série Completa

estrelas 4

Criada em 2010 por Stefan Golaszewski, Him & Her é uma comédia britânica centrada na vida do casal Steve (Russell Tovey) e Becky (Sarah Solemani), dois desocupados que vivem às custas de rendas providas pelo governo, não têm a menor intenção de trabalhar e passam a maior parte do tempo em seu pequeno apartamento comendo, conversando, brincando e transando. As coisas mais comuns, maçantes, geniais e bizarras que vêm à tona numa longeva vida a dois aparecem na série, que tem cada um de seus episódios como uma espécie de “crônica do dia” na vida dos pombinhos vagabundos.

Quem costuma ver séries do (sub)gênero sitcom sabe o quão difícil é encontrar relacionamentos maduros ou honestos entre protagonistas jovens nesse tipo de show. Primeiro, porque esse modelo de programa se ocupa, em linhas gerais, de outros moldes de texto para seus episódios e temporadas, se preocupando menos com o desenvolvimento intenso das personagens a curto prazo e expandindo para alguns ramos narrativos as linhas de humor da série. No caso de Him & Her, a coisa caminha diferente porque a proposta do programa é justamente trazer à tona o comportamento de um casal que assume a linha de frente de toda a história e tem prioridade no roteiro (com exceção da 4ª Temporada).

Quando assistimos ao episódio The Toast, o primeiro da série, não só ficamos presos à história como também nos apaixonamos pelo casal Steve e Becky, cuja convivência se assemelha a muitos namoros ou outros relacionamentos mais sérios entre qualquer pessoa comum – a aproximação com a realidade é a melhor carta na maga utilizada pelo showrunner.

Livres das sutilezas e disfarces iniciais dos compromissos amorosos, Steve e Becky são honestos um com o outro, desbocados, e vivem como dois adolescentes bagunceiros num apartamento pequeno, onde recebem visitas constantes de Dan, o vizinho sem noção e “amigo” de Steve; Laura, irmã de Becky; Paul, noivo de Laura, e Shelly, amiga de trabalho de Laura. Durante as 4 temporadas da série este é o elenco que dá vida às mais inusitadas situações em torno do casal protagonista.

Não há dúvidas de que a melhor parte de todo o programa é o dia a dia claustrofóbico do casal. Com tonalidades fotográficas sempre frias ou escuras para os ambientes em que estão, vemos a vida da dupla a partir de um ponto de vista íntimo e muitas vezes um pouco constrangedor, de tão verdadeiro. Essa relação entre Russell Tovey e Sarah Solemani é o atrativo principal da série, que já na premiére, captura o público. Os atores conseguem manter um nível de interpretação bastante coerente com a psicologia de suas personagens durante todo o programa, muito embora eu não goste muito da concepção dramática da atriz Sarah Solemani, mesmo que entenda isso como uma postura típica de sua personagem. Já Russell Tovey mantém o interessante e hilário tom de comédia comum de suas personagens nesse gênero, a exemplo do que ele faz na série The Job Lot.

O contraste de personalidades vem com Laura e Paul, que servem como intensificação cômica e ameaça ao paraíso caótico do apartamento de Steve (para onde Becky se muda no início da 2ª Temporada – resultado de um ótimo cliffhanger do ano anterior). Porém, Laura e Paul são extremamente dominadores e encontram na personalidade passiva de Steve e Becky um modo de exploração que chega a angustiar e enraivecer o público, especialmente na 3ª e 4ª Temporadas. Laura, por exemplo, é o tipo de pessoa odiosa e desprezível que o público ficaria muito feliz em ver morrer na série, tamanho o seu ego, inveja, inversão de valores, estupidez e falta de noção de civilização, respeito e família.

Nas duas primeiras temporadas, essa relação entre o grupo se dá de maneira engraçada e bastante aceitável dentro da proposta da série. O problema começa no 3º ano, quando Laura se torna uma personagem impossível de se aguentar. Na temporada final, que é centrada em seu casamento com Paul, nos incomodamos sobremaneira ao ver como ela manipula Becky e de como esta se sujeita a tal tratamento. A chantagem de Laura não é algo grave demais e poderia muito bem ser resolvida com uma simples conversa posterior de Becky com Steve. Não creio que o medo da revelação de um filho a caminho justificasse toda a submissão psicológica e até física que ela sofre da irmã mais velha durante toda a cerimônia de casamento.

A 4ª e última temporada da série, como já ressaltei, desloca-se do apartamento de Steve para o local do casamento de Laura e Paul, que anda às voltas com sua homossexualidade e quer fugir com o amante mais velho, só que o medo, a pressão social e uma conjunção de azares na fuga acabam fazendo com que ele se case e leve a coisa adiante, até a quebra dramática na reta final da temporada, que deixa para o espectador a resolução do caso (uma opção bastante válida do roteiro). Particularmente achei interessante essa caracterização, mas não fiquei à vontade com o deslocamento do lugar que ficáramos íntimos durante as três temporadas anteriores.

Além do mais a modificação foi extrema, inclusive na parte técnica, o que deu a esse ano final de Him & Her uma aparência estética que não condiz muito com a dos anos anteriores, à exceção de dois momentos: a primeira sequência do primeiro episódio e a última sequência do último episódio – uma ideia de ciclo que parece mais interessante quando analisado do que quando visto na tela.

Para engordar essa estranha disposição das coisas, o antipático ex-namorado de Becky, Lee, volta com mais falas e poder de ação, escanteando Steve e muitas vezes tendo mais atenção que o verdadeiro protagonista da série, um erro crasso do showrunner, que só consegue corrigir isso porque investe em um roteiro e uma linha cronológica inteligentes, fazendo valer as aparições de todos no episódio de despedida e minimizando as problemáticas substituições de importância em tela.

As coisas voltam completamente ao eixo em The Disco, o ótimo finale. O ritmo de cumplicidade entre o casal protagonista é novamente ressaltado, a festa de casamento deixada de lado e o tom de confissão, intimidade e particularidade se dá satisfatoriamente no quarto do hotel, onde a revelação da gravidez de Becky acontece e percebemos um novo momento se erguer para os dois. Steve não aparenta uma revolução de personalidade, o que o mantém coerente com o homem que fora até então, e Becky, apesar da mudança transcorrida na temporada, acaba nos fazendo entender o motivo de ter se comportado de maneira estranha. Ela estava livre do “peso do segredo”.

Him & Her é uma comédia com poucos erros de execução, se compararmos ao seu número de acertos ao longo dos anos. A série conseguiu segurar 4 temporadas de boa qualidade, a despeito da estranheza de concepção para a sua fase final. Com um elenco pequeno e talentoso, roteiros sem meias-palavras e uma interessantíssima versão do relacionamento a dois, a série é daquelas que se despede com um saldo positivo e um caminho para o futuro que não trai a sua mitologia e deixa aquela sensação de que veríamos ainda mais quatro anos do programa, se ele seguisse o mesmo incrível caminho.

Him & Her – Série Completa (4 Temporadas) – Reino Unido, 2010 a 2013
Showrunner: Stefan Golaszewski
Elenco principal: Sarah Solemani, Russell Tovey, Kerry Howard, Joe Wilkinson, Ricky Champ, Camille Coduri.
Duração: 30 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.