Crítica | Hinamatsuri

Em qualquer mídia, a boa construção do humor, por mais acertada que seja, acaba seguindo alguns padrões formulaicos. Sendo talvez um dos elementos mais subjetivos a compor narrativas, a comédia tende a recorrer à familiaridade na medida em que tenta alcançar sensos de humor tão diferentes que compõem seu público-alvo. Como resultado, temos o seguinte dilema: quanto mais sabemos o tipo de humor que nos agrada e, portanto, a comédia que vale a pena se ver, menos ela tem chances de realmente nos surpreender. E a surpresa não é, afinal de contas, um dos grandes pilares do humor? Caso essas especulações estejam no rumo certo, talvez a boa comédia seja justamente aquela que consegue o que parece quase impossível: criar sem limitações dentro de uma fórmula bem delineada, como bem exemplifica nosso caso em tela.

Hinamatsuri é um anime que parte de uma premissa que soa familiar, constrói situações que ornam com o que se pode esperar de um slice of life comédico e apresenta personagens simples que apontam para um cenário de sitcom que jogue seguro com as fórmulas do subgênero. E, logo em seguida, joga tudo isso para o pano de fundo, tecendo uma narrativa suave e bem segmentada que envolve o espectador do início ao fim. Mostrando que uma boa comédia não depende da frequência dos momentos hilários, mas sim do quanto nos vemos cativados pela construção deles, a produção tem tudo para agradar os apreciadores do humor situacional japonês.

A história nos leva ao mundo de Yoshifumi Nitta (Yoshiki Nakajima), membro da yakuza que parece viver tranquilamente e com certo luxo até o dia em que uma surpresa inexplicável se materializa em plena sala de estar de seu apartamento (e a alguns centímetros acima de sua cabeça). Trata-se de um grande ovo metálico contendo uma misteriosa garotinha, Hina (Takako Tanaka). Descobrindo que ela possui poderes sobrenaturais de telecinese, e que veio despachada de alguma organização que pretendia utilizá-los como arma, Nitta se vê compelido a ajudar a pobre criança sem lar, ao mesmo tempo em que contempla a possibilidade tentadora de utilizar seus poderes para facilitar seu trabalho como capanga no submundo do crime.

Ao contrário de investir mais em reações exageradas a situações comuns, Hinamatsuri traz seus protagonistas reagindo de forma quase indiferente a situações completamente fora do comum. Também marcam presença os divertidos monólogos internos onde o personagem descreve, aos poucos, a situação em que se encontra, humor que lembra bastante alguns dos (muitos) momentos hilários de Gintama. Um exemplo dessa comédia de situação e de subversão de expectativas bem construídas se encontra já no primeiro episódio, quando Nitta aceita de maneira estóica a aparição misteriosa de Hina, não tomando nenhuma providência que não a leve esperança de que ela tenha desaparecido na manhã seguinte. Ao final do episódio, vemos o que a garota tirou dessa experiência — já começando a aprender o estilo de vida de Nitta. Esse tipo de abordagem segue ao longo de todos os episódios da adaptação.

A rendenização do primeiro encontro entre Nitta e Hina é cativante e já nos dá pistas do tipo de interação de personagens e do humor em que a série irá investir, e já é por si só capaz de ao menos despertar a curiosidade do espectador mais ressabiado com a produção. Eu mesmo admito que estava bastante incrédulo em relação à premissa, que me pareceu divertida porém propensa a cair em armadilhas conhecidas de seus sub-gêneros. Já no encontro entre Nitta e Hina a produção consegue trabalhar muito bem o timing das piadas, alternando entre a entrega rápida e momentos mais alongados, jogando bem com a hipérbole e o exagero, que costumam ser parte central do humor nos mangás e animes. A relação entre os protagonistas é muito bem explorada e cheia de momentos divertidos, trazendo uma dinâmica interna que garante algumas das melhores piadas de toda a temporada.

Mas se engana quem acha que a coisa vai seguir apenas por aí. Escapando de ser uma comédia de situação sobre um membro medíocre da yakuza e sua filha adotiva com super-poderes, Hinamatsuri se desenvolve por caminhos inesperados, priorizando sempre algo de novo, sem deixar de trazer os elementos já conhecidos na jogada. Cada episódio trata ou de introduzir um personagem ou de aprofundar sua história de forma significativa, frequentemente tomando o ponto de vista da pessoa em questão. Baseada no mangá de Masao Ōtake, que conta com 13 volumes tankōbon lançados desde 2010, a animação do estúdio Feel (de Tsuki ga Kirei) adapta uma quantidade extensa de capítulos de maneira compacta ao longo de 12 episódios, sendo que muitos deles acabam divididos em esquetes independentes entre si, alternando os focos narrativos e mantendo a experiência sempre fresca.

Assim é que por vezes assumem o protagonismo da série a amiga da escola de Hina, Hitomi Mishima (Kaede Hondo), um caso clássico do que as dificuldades de se dizer “não” ao próximo podem levar; ou então a desfortunada Anzu (Rie Murakawa), que vem a mando da organização para capturar Hina, mas não tem a sorte de ser adotada por um milionário de cabeça fresca e passa a ter que se virar por conta própria. Pior ainda fica Mao (Ari Ozawa), outra ex-colega de Hina que acaba sozinha como náufraga em uma ilha deserta. Temas sérios como trabalho infantil e a situação de rua são explorados de forma irreverente e surpreendentemente de bom gosto, combinando uma sátira social leve com momentos genuinamente dramáticos. Perpassando todas as histórias, a temática da família é apresentada de forma astuta e sem cair em melodramas forçados ou nos clichês com que o tema costuma ser abordado nesse tipo de produção.

O mais legal é que essas pequenas peças de personagem humorísticas vão construindo uma continuidade com efeitos duradouros, ao contrário do que poderia se esperar de uma comédia de situação onde o desenvolvimento de personagem frequentemente bate de frente com a tendência à repetição, que sustenta muito desse tipo de humor. Aqui nossos personagens mudam e evoluem, o que torna os momentos dramáticos das histórias de Hitomi ou Anzu ainda mais contundentes, fortalecendo o enredo. Nos pontos climáticos dos arcos dos personagens, o espectador que se envolveu com a narrativa se vê colocado na interessante zona entre o humor e o drama, sendo notável a forma como a produção conta histórias tematicamente ricas sem jamais deixar de entreter com seu humor nonsense.

Hinamatsuri é uma aula de desenvolvimento de premissas com simplicidade, riqueza temática e, é claro, bom humor. Não se contentando em apenas causar risadas, a produção envolve o tempo todo o espectador em suas narrativas estapafúrdias e inesperadas. Os momentos de gargalhada podem ser mais esparsos, mas o investimento aqui está no quanto a narrativa entretém no conjunto, mantendo nossa curiosidade aguçada e nos fazendo nos importar com o elenco expansivo de figuras que compõem o cenário. A necessidade de se abreviar o material original não passa despercebida, trazendo benefícios com o formato de esquetes sempre dinâmico mas ao mesmo tempo contando o único ponto negativo da adaptação, que parece passar a largo de alguns elementos da história que provavelmente deveriam aparecer com mais destaque. No todo, nada que roube da obra muito de seu brilho. Trata-se de um tipo de comédia raro: aquela que diverte para além das próprias piadas. Mas talvez seja apenas o meu senso de humor…

Hinamatsuri (Japão, 6 de Abril de 2018 – 22 de Junho de 2018)
Estúdio: feel.
Direção: Kei Oikawa
Roteiro: Masao Ohtake
Elenco: Takako Tanaka, Yoshiki Nakajima, Kaede Hondo, Rie Murakawa, Yoko Hikasa, Ari Ozawa, Kengo Kawanishi, Tsuyoshi Koyama, Shinpachi Tsuji
Duração: 23 min. (cada episódio)

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.