Crítica | Hino de uma Consciência

estrelas 1,5

Douglas Sirk foi um grande diretor, responsável por colocar nas telonas obras como Sublime Obsessão, Chamas Que Não se Apagam e Tudo o Que o Céu Permite. Mas nenhum grande diretor é imune a erros (ok, mentira, pois Stanley Kubrick foi imune sim) e, depois de Herança Sagrada, Sirk tropeçou em Hino de uma Consciência.

O filme, baseado em autobiografia do Coronel Dean E. Hess, piloto da força aérea americana, que foi publicada simultaneamente ao lançamento da fita nos cinemas, é uma espécie de lista de clichês melodramáticos sem propósito maior do que fazer os olhos dos espectadores rolarem. O interessante é que Hess, herói que, depois de bombardear um orfanato na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, matando dezenas de crianças, vai treinar pilotos na Guerra da Coréia e acaba protegendo e salvando centenas de crianças, teve enorme controle criativo, algo raro mesmo hoje em dia, influenciando até mesmo na escolha do protagonista. A Universal queria Robert Mitchum, mas Hess vetou, levando à escolha de Rock Hudson para vivê-lo, ator que vinha de longa parceria com Sirk.

Apesar do mérito intrínseco da história de bravura de Hess, o filme se utiliza de todos os subterfúgios hollywoodianos possíveis para agradar a vasta maioria do público. O herói corroído de culpa vivido por um ator bonitão. A esposa grávida que fica nos EUA aguardando a volta do marido com olhar de cachorro perdido. A bela coreana que ajuda Hess em sua cruzada para salvas as crianças, mas que não é coreana na verdade, e sim a atriz anglo-indiana Anna Kashfi (no filme, o diálogo faz questão de determinar que ela é metade coreana, metade indiana, para ninguém achar “estranho” o fato de ele não ser nada oriental). Os amigos de Hess que são verdadeiramente amigos, daquele jeito raso como o proverbial pires, sem uma sombra de maldade ou dúvida. O velhinho coreano simpático (Philip Ahn, que curiosamente é cristão – mais sobre isso adiante). Um menininho super simpático quase adota Hess como pai para aumentar o fator “fofura” e por aí vai. Entenderam o que quis dizer com “desfile de clichês”? E reparem que nem mesmo abordarei os exageros patrióticos que pontilham a obra.

Por cima de todos esses aspectos, há ainda uma narrativa religiosa que pode ser encarada de duas maneiras. A primeira delas é por seu valor de face: Hess vive com a pesada culpa de seus atos durante a Segunda Guerra – ainda que claramente não tenha sido sua intenção – e, na volta, se transforma em um reverendo, passando a pregar para seu rebanho. A abertura da fita é com “Glória, aleluia”, que já marca o tom religioso e toda a questão da culpa e expiação desse pecado, que ele procura fazer alistando-se na guerra seguinte. E Sirk faz questão de repetir a música mais algumas vezes, para não nos deixar esquecer de sua intenção.

Mas, considerando-se a filmografia do diretor, esse tom religioso escancarado soa estranho, fora de lugar. Assim, parece-me que Sirk, apesar da supervisão intensa de Hess, conseguiu inserir, no contexto já benevolente do roteiro de Charles Grayson e Vincent B. Evans, um certo exagero temático, talvez para ironizar toda a questão. Será que Hess só resolve proteger os órfãos coreanos em razão de seu pecado passado na Alemanha? E será que a proximidade dele com En Soon Yang (Kashfi) significaria momentos de tentação que ele tem que enfrentar como parte desse processo? Fato é que, mesmo que Sirk tenha querido trabalhar dessa maneira – e isso é apenas suposição – ele não conseguiu o efeito desejado. Ao contrário até, pois o resultado final é o mais completo bom-mocismo de Hess (com uma atuação mecânica de Hudson), que ainda é refletido no quase impossível personagem de Ahn – o velhinho Lun-Wa – que não só fala inglês fluentemente, como é cristão e sabe recitar a Bíblia como ninguém. Se a intenção era ironizar, Sirk errou a mão.

E, se Sirk realmente não queria ironizar, o resultado é uma fita que só não é completamente esquecível em razão das sequências de combate aéreo, que são realistas e muito bem executadas, com 15 aviões de guerra verdadeiros obtidos pela produção, incluindo um especificamente para ser destruído on camera. Nesses momentos, Sirk mostra toda sua habilidade como diretor e a montagem de  Russell F. Schoengarth somada à fotografia de Russell Metty (que viria a trabalhar em Spartacus), produzem um resultado muito bom, só às vezes estranho, com a reutilização de algumas tomadas e uso de stock footage.

Hino de uma Consciência, no final das contas, é uma obra que poderia ser classificada no máximo como “simpática”, mas, mesmo assim, com algum esforço. Talvez o adjetivo correto, porém, seja “descartável” mesmo.

Hino de uma Consciência (Battle Hymn, EUA – 1957)
Direção: Douglas Sirk
Roteiro: Charles Grayson, Vincent B. Evans
Elenco: Rock Hudson, Anna Kashfi, Dan Duryea, Don DeFore, Martha Hyer, Jock Mahoney, Alan Hale Jr., James Edwards, Carl Benton Reid, Richard Loo, Philip Ahn, Bartlett Robinson
Duração: 108 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.