Crítica | História da Minha Morte

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estrelas 4

Dois aspectos se destacam em História da Minha Morte, novo filme do diretor espanhol Albert Serra, já conhecido por resgatar famosas figuras históricas e literárias em seus trabalhos. O primeiro, ou que pelo menos vale expor antes de tudo, é o claro espírito predominantemente artístico do longa, o tipo de produção que aparenta transbordar liberdade criativa por parte do seu diretor, desvinculada de qualquer manual para uma narrativa de sucesso comercial.

Daí chegamos ao segundo aspecto, que é a intenção gritante do filme em proporcionar ao público uma profunda experiência sensorial, a partir de um crescente terror verossímil, palpável, da telona para o reflexo da antiguidade sobre o cotidiano. Para tanto, o longa utiliza uma narrativa lenta, paciente ao extremo, que, sim, tende a segmentar bastante seu público, dada a paciência que exige, mas, para quem tiver a disposição de embarcar em sua elegância, extremamente recompensadora.

Uma das figuras literárias da vez é o conquistador de mulheres Casanova (Vicenç Altaió), na trama, um marquês já de certa idade. Acompanhado por seu servo, chega a uma aldeia de camponeses, cercada por densa mata. Aos poucos, Casanova reclama para si a atenção dos poucos moradores daqueles domínios totalmente isolados do resto do mundo – principalmente, é claro, atenções femininas. Só que, aos poucos, uma nova presença se faz notar, imergindo das profundezas daquelas florestas sem fim; nada mais, nada menos, do que o famigerado vampiro Conde Drácula (Eliseu Huertas).

Trata-se de uma típica história de desconstrução, na qual uma atmosfera elitista, de luxúria e frivolidade é aos poucos substituída pelo terror da finitude, a começar pelo fim dos tempos aventureiros, de mocidade e até, por vezes, heroicos de Casanova; daí para o fim da bonança e começo do castigo inerente ou não aos pecados humanos. Essa transição climática, contudo, acontece, como dito, de forma gradual, exigindo que o expectador proponha-se a degustar cena por cena, plano por plano, diálogo por diálogo. Sim, diálogos longos, com grandes pausas, de cunho naturalista, são constantes, bem como cenas com personagens sós, ou que acreditam estar sós, e mesmo juntos, porém sem nada falar – aqui observe-se a presença do erótico na narrativa.

Tal vagar do roteiro, porém, se apreciado, permite uma ótima imersão do expectador naquele universo. Daí a ambientação também contribui de forma fundamental. Mesmo para um crítico deficiente visual, como eu, os sons crescentes da mata, cada vez mais invasivos, opressivos conforme a tensão cresce e o cerco se fecha, são um apreço à parte. Eventuais sons de lobos ou cães ao longe e de graves ruídos distantes, estrondosos, como que de uma ventania ou de trovões, somam-se a tal beleza em termos de captação e mixagem sonora. A trilha sonora também não deixa por menos, muito rica e inspirada, utilizando-se do violão a trombetas – que o diga a belíssima composição para o prólogo – e, com um efeito magistral, um jogo orquestrado de percussão conforme o “buraco fica mais embaixo”.

De fato, de modo, talvez, incompreensível, a obra só não atinge um nível monumental dada a sua conclusão, que mesmo com sua personalidade é indigna da expectativa gerada para o clímax. Clímax, aliás, que tende-se a esperar como retumbante, principalmente, graças ao ressonante prenúncio do prólogo. O que tem-se, todavia, é um epílogo destoante, de insuficiência, com um “gostinho de quero mais”.

Por outro lado, com a união da narrativa entre o naturalismo e o fantástico, o final, tal como é apresentado, tem sua lógica, então o maior erro talvez possa recair mesmo sobre o apelo da introdução do longa. Os urros do conde, que sem pirotecnia alguma em termos sonoros cumprem perfeitamente o seu papel – salve a ótima presença de Huertas, que, ao lado de todo um elenco tão bem dirigido, apresenta uma das melhores versões do vampiro rei já ofertadas ao cinema -, são um bom exemplo do modelo narrativo da produção.

No final das contas, quase duas horas e meia de fita, como dito, parecem não ser o bastante para a construção de um término mais polido para a trama. O desejo por mais, e não por menos tempo de filme, entretanto, resulta de um trabalho que deixa a história ditar seu público, e não o contrário. Independente do tamanho da plateia, ela, na certa, o apreciará como ele merece.

História da Minha Morte (Història de la Meva Mort), Espanha, França – 2013
Direção: Albert Serra
Roteiro: Albert Serra
Elenco: Vicenç Altaió, Lluís Serrat, Eliseu Huertas, Noelia Rodenas, Clara Visa, Montse Triola, Mike Landscape, Lluís Carbó, Clàudia Robert, Xavier Pau
Duração: 148 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.