Crítica | Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos

Entre o “comercial” e o “alternativo”, Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos é um filme que nos permite refletir com uma série de questões sobre o “fazer artístico”. Conhecido por seus trabalhos em Guerra de Canudos e Achados e Perdidos, o roteirista Paulo Halm assume também a direção do filme, narrativa que versa filosoficamente sobre amor, confiança, dúvida, melancolia, sexo e outros assuntos tangentes.

Narrada em primeira pessoa, a trajetória do protagonista Zeca (Caio Blat) é desnivelada. Ele é um jovem que se diz escritor, mas ainda não conseguiu escrever praticamente nada que não seja rabisco ou esquemas para um livro. Na casa dos 30 anos, faixa etária onde somos cobrados veementemente pela vida e por nossos anseios, Zeca ainda não “chegou lá”. Por “chegar a algum lugar”, compreenda: não escreveu seu livro, não tem uma profissão definida, vive um relacionamento amoroso estranho e às vezes precisa recorrer ao pai quando a grana fica curta.

Morador de um apartamento na Lapa, no Rio de Janeiro, espaço criado com competência pela direção de arte de Renata Pinheiro, responsável pelo visual retrô e escuro, o protagonista nos permite observar o seu cotidiano dividido entre tentativas de escrita e o relacionamento morno com Julia (Maria Ribeiro), uma mulher atraente que vive constantemente envolvida com as reuniões da faculdade e do doutorado. Em suma, a sua namorada possui uma existência concreta, aparentemente mais significativa.

Seu pai é Humberto (Daniel Dantas), um homem que funciona como uma espécie de mentor da narrativa. Ele nos conta que desde criança, vislumbrou no filho a escrita, pois sempre acreditou que isso daria um rumo na vida do jovem. O pai, que sempre sonhou em ser escritor, mas desistiu por falta de talento, projeta no filho as suas expectativas frustradas, construindo outra criatura frustrada a vagar pelas ruas cariocas em busca de sua história.

Sem conseguir desenvolver seu material literário, Zeca se bifurca por uma estreita crise existencial, provocada pela falta de perspectiva em sua vida básica, marcada pelas horas vagas sem inspiração e manutenção da sobrevivência por conta do dinheiro deixado pela mãe. Com traços bem delineados de um “perdedor”, Zeca é a insegurança personificada, sempre a fazer a linha Brás Cubas e conversar com o espectador, por meio de enquadramentos e movimentos de câmera eficientes de Nonato Estrela, diretor de fotografia da produção.

O que chega para mudar a sua condição é a jovem e iluminada Carol (Luz Cipriota), uma dançarina argentina cheia de mistério e energia. Moradora de um apartamento que é o contraste da moradia de Zeca, ou seja, adornado por cores vivas e intensas, a personagem funciona como uma espécie de “arauto” da narrativa, tal como definem os manuais clássicos de roteiro. Ela de certa forma vem para anunciar as mudanças necessárias na vida de Zeca, um homem que precisa aprender com Sartre o seguinte lema: “você é aquilo que vive”.

Enfeitiçado pela moça, Zeca começa a fazer viagens semelhantes aos passeios alucinógenos: imagina e constrói um suposto caso entre a sua companheira e a nova “amiga” do casal, logo depois, se apaixona pela moça e realiza um plano supostamente ousado. Ele quer que Júlia, pesquisadora que acabara de receber proposta para cursar parte do doutorado em Paris, flagre uma cena de sexo na cama com Carol. A sua ideia funciona em partes, pois diferente do que fora imaginado, isso não reaquece o seu relacionamento, mas na verdade o rasura.

Com o fim do relacionamento, uma notícia boa é anunciada. Ele narra para a tela que a situação o permitiu escrever o seu romance. Foi o acontecimento responsável pela retomada de sua vida planejada inicialmente: a carreira de escritor. Com laços próximos ao também instigante Nome Próprio, além de elementos que dialogam com o recente O Autor, a trajetória de Zeca melhora deliberadamente quando se firma na experiência.

Com trilha sonora de André Moraes e montagem de Luiz Guimarães de Castro, Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos é uma produção que reflete o ser humano na perspectiva filosófica da “modernidade líquida”. Lançado em 2010, o filme peca razoavelmente por conta do seu ritmo um pouco arrastado, mas ganha a nossa simpatia por tocar nas questões sensíveis da existência humana contemporânea, incerta, insegura e instável, fruto do contexto histórico repleto de imprecisões e mudanças bruscas que não permitem, às vezes, a solidificação necessária de conceitos, definições e das “coisas”.

Histórias de Amor Duram Apenas 90 minutos — Brasil, 2010.
Direção: Paulo Halm
Roteiro: Paul Halm
Elenco: Caio Blat, Daniel Dantas, Lucia Bronstein, Luz Cipriota, Maria Ribeiro
Duração: 96 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.