Crítica | Hitman (Episódio 1)

estrelas 4,5

Na minha recente crítica à Street Fighter V precisei ressaltar como os games não chegam prontos ao mercado e como isso pode se tornar um estorvo maior caso vire moda. Hitman, em 2016, será o primeiro título blockbuster tradicional a ser lançado em episódios, tornando-se um jogo completo apenas ao final do ano. Surpreendentemente, até para mim, isso soa como um acerto. Eis o porquê.

Bem é sabido que a série Hitman não é um jogo para impacientes. Se você tiver calma suficiente e souber apreciar level design, trata-se do game ideal. Momentos de pura observação são cruciais para se tornar “O” espião das novas gerações, posto o fracasso de Metal Gear Solid V no ano passado. Ouvir conversas, jogar moedas para distrair guardas, mover uma peça de xadrez, usar veneno de rato, se maquiar, métodos e mais métodos são possíveis de serem explorados, tudo em um mar de pessoas em cenários belíssimos, trilha tipicamente dos filmes de espião e, principalmente, cautela. Hitman é um jogo simples, mas nunca simplório.

Eu admito que tive dificuldades em realizar certos passos durante o jogo, mas fico feliz em dizer que a culpa é inteiramente minha. Hitman, além de não subestimar sua inteligência, te dá uma margem de escolha absurda a ponto de te paralisar por tantos caminhos existentes, sem bugs ou problemas técnicos que atrapalhem essa escolha. Descobri nesse título que sou um jogador impaciente e isso me deslumbrou. Claro que posso culpar inúmeros títulos que me acostumaram em um determinado tipo de gameplay, mas tenho noção que isso é um problema com raízes mais profundas que nem cabem nessa crítica.

O primeiro episódio do novo game conta com um prólogo de duas fases e a primeira missão da história principal em Paris. Tudo pode ser resolvido muito rápido, mas seguindo o exemplo de Hitman: Absolution, seu antecessor, o valor replay é, provavelmente, o melhor de toda a indústria. Propondo diversas maneiras, desafios constantes, agora com ranking online e liberdade, principalmente, Hitman é um convite a fazer arte, naquele sentido infantil. Usar e abusar da criatividade gera não só um game divertido para se jogar como também um deleite para se assistir.

hitmanparis

O modo de contratos propõe os mesmos desafios em menor grau, algo como uma simples adição, que lembra inclusive as missões genéricas de Ground Zeroes. Nada demais, essencialmente. Também é importante ressaltar que o instinto matador do Agente 47 é a desculpa da vez para uma visão ao estilo Batman, bem útil e que deixa o jogo mais fluido. Com um menu simples, que lembra o charme de Goldeneye, Hitman vai direto ao ponto e propõe um sandbox sem muitas surpresas ao final, mas com uma incrível gama de detalhes que desafia o jogador a ser o mais perfeito assassino no meio da jornada. A inteligência artificial, essencial nesse tipo de gênero stealth, é menos rigorosa do que a de Absolution, mas uma variedade nos níveis da missão da fluidez para todo tipo de jogador, do iniciante ao experiente.

Se os cenários do prólogo são literalmente fakes, tidos como testes na narrativa do game, Paris, local da primeira missão, parece uma fase infinita. Uma multidão se reúne em um lindo palácio onde um desfile acontecerá, e seu papel é se camuflar no meio desse mundo que beira o real e lembra o de tantos filmes do gênero. O replay é ajudado por novos armamentos, novos locais para se começar a missão e diversas opções de disfarce, para variar. O game parece interminável e, vendo os gráficos da nova geração, a vontade é que ele realmente seja.

É nesse sentido que não vejo como nocivo Hitman ser dividido em episódios esparsos. Uma única fase, com dois prólogos, já demonstra tanto potencial a ser transformado pelo poder criativo do jogador que o game lembra, por mais paradoxal que seja, os tempos passados. Um game que melhora com o tempo e que não pede, mas exige calma para explorá-lo – e provoca essa vontade no jogador – vai na contramão da fugacidade de FPSs online, MOBAs, missões aleatórias no GTA e partidas de FIFA. Honestamente, não vejo a hora de jogar a próxima missão em uma nova localidade, mas se ela já estivesse pronta, em mãos, não conseguiria dar tanto valor à Paris e minha vontade de explorá-la se tornaria metafísica. Primeiro, por falta de tempo. Segundo, por estar condicionado há décadas a zerar o game em primeiro lugar. Hitman requer toques de artista constantes como contraponto ao objetivo final ascendente como configurador de status.

Honestamente, acho difícil a noção episódica funcionar para todo game. Outra crítica, agora especificamente para Hitman, é a problemática dos servidores: Caso você caia de um servidor online enquanto joga a missão, é impossível continuar seu progresso. Um absurdo, mas basta jogar off-line para resolver a situação e não ficar contando com estes imprevistos. Como último ponto a ser lembrado, acho péssimo só existir a mídia digital, por mais que seja compreensível em termos econômicos. Meu lado colecionador, contudo, não fica satisfeito, pois este é um game que vale ter na estante e mostrar para seus amigos. Os próximos episódios prometem.

Hitman
Desenvolvedor: IO Interactive
Lançamento: 11 de março de 2016
Gênero: Stealth
Disponível para: PC, Ps4 e Xbox One

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.