Crítica | Holy Motors

Holy-Motors-Eva-Mendes

Um senhor com algum problema para andar e aparentemente rico sai de casa cercado de seguranças e entra em uma limusine branca dirigida por uma senhora de cabelos brancos que começa a dirigir por Paris. Pelo intercomunicador, ela diz que a pasta sobre seu próximo “encontro” está ao seu lado e, não muito tempo depois, estaciona o enorme carro. Os seguranças param ao lado da limusine, a motorista sai e abre a porta do passageiro. Quem sai? Uma senhora muito corcunda com uma bengala, que passa a pedir esmola e a reclamar que há muito tempo só vê calçadas e pés. Algum tempo depois, a senhora entra na limusine e, quando sai novamente, é um ator de captura de movimentos (como Andy Serkis em O Senhor dos Anéis) que entra em uma sala escura e começa a simular lutas e, mais para frente, uma cena de sexo tórrido também com uma atriz de captura de movimentos. Quando entra na limusine mais uma vez, quem acaba saindo de lá é um ser grotesco, uma mistura de Corcunda de Notre Dame com leprechaun que sai por um cemitério (com lápides que só têm inscrições para visitar websites, como outdoors publicitários) comendo as coroas de flores e, quando se depara com um ensaio fotográfico, seqüestra a modelo e vai com ela para uma caverna.

Acharam estranho?

Bom, a descrição acima nem mesmo arranha a superfície da estranheza e loucura que é Holy Motors. O senhor do começo chama-se Oscar (Denis Lavant) e ele aparentemente é um mestre dos disfarces empregado por alguma corporação sem nome comandada por um senhor com uma enorme mancha no rosto (Michel Piccoli) e que aparece por apenas alguns segundos, do nada, dentro da limusine. Céline (Edith Scob) é a fiel motorista que cuida para que Oscar chegue na hora correta a seus “encontros”.

Encontrar significado para tudo que aparece no mais novo filme que Leos Carax escreve e dirige é uma tarefa próxima do impossível. Carax não faz um longa desde Pola X, de 1999, do qual, aliás, ele retira muita coisa, especialmente as fortes imagens que prendem o espectador à tela e a questão da crise de identidade. Se há um aspecto que permeia todo o filme é exatamente esse: quem exatamente é Oscar? Será que ele mesmo sabe quem ele é? Carax fala de desordem bipolar (a antiga esquizofrenia)? Não há respostas claras, simples para o que vemos na tela. As referências também são obscuras, difíceis, como o personagem meio corcunda, meio leprechaum, tirado do segmento Merde de Tokyo! (do próprio diretor) ou, talvez o mais fácil, a máscara sem rosto de Céline (Scob atuou no clássico Os Olhos Sem Rosto, de 1960).

Mas o que fica são as imagens hipnóticas. Racionalizar cada momento é perda de tempo. O que importa é ver como Carax, com domínio completo do movimento de câmera, evoca imagens de sonho e pesadelo, modernas e antigas, violentas e gentis. O contraste é constante, valendo destaque para a cena típica de A Bela e a Fera de Cocteau, quando o monstro corcunda (M. Merde) sequestra a estonteante modelo fotográfico Kay M (Eva Mendes). Sim, é também de certa forma nojento quando M. Merde faz uma burka para a moça, tira sua roupa verde e, visivelmente excitado, deita no colo dela, ao som de uma canção de ninar.

Lavant consegue mudar de verdade a cada personagem, ao ponto de esquecermos – ou de nunca sabermos – como ele efetivamente é. A terna cena dele contracenando com Kylie Minogue (Eva Grace) em uma loja de departamentos abandonada e a mudança de ritmo infligida pela troca de tom no filme que Carax faz magistralmente (que, porém, não tem como não rir) nos faz lembrar, de alguma maneira estranha e até doentia, de Casablanca ou filmes noir e esquecemos quem é Levant. Seria ele Humphrey Bogart naquele minuto?

Os devaneios de Carax farão muitos torcerem o nariz para o filme e com uma boa dose de razão, especialmente porque a espiral de loucura aumenta e aumenta e, quando você acha que acabou, ela aumenta ainda mais, até o último segundo de projeção. Mas todas as imagens que Carax joga para os espectadores nos prendem aos assentos e nos fazem, no mínimo, indagar sobre o que vem em seguida. Afinal, o que será que pode vir na cena seguinte que conseguirá ser ainda mais intrigante do que veio antes? De onde vem essa imaginação toda, mesmo que não faça sentido direto nenhum?

Geralmente, sou o primeiro a tachar filmes como esse de pomposo e “metido a besta”, mas dêem uma chance a uma experiência diferente. Dêem uma chance ao transe visual surreal que é Holy Motors. Garanto que vocês sairão do filme ou com muita coisa para discutir ou com muita vontade de me xingar.

Holy Motors (Idem, França/Alemanha, 2012)
Direção: Leos Carax
Roteiro: Leos Carax
Elenco: Denis Lavant, Eva Mendes, Kylie Minogue, Elise Lhomeau, Jeanne Disson, Michel Piccoli, Leos Carax, Nasty Golubeva Carax, Reda Oumouzoune, Zlata, Geoffrey Carey, Annabelle Dexter-Jones
Duração: 115 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.