Crítica | Homeland – 3ª Temporada

estrelas 5,0

Obs: A crítica que segue contém SPOILERS das duas temporadas de Homeland. Leiam as críticas das demais temporadas, aqui.

Homeland consegue consistentemente surpreender em dois quesitos importantíssimos para uma série de TV: (1) a mudança do status quo de temporada a temporada e (2) atuações brilhantes de seu elenco. Esses dois elementos, por si só, já valem todo o esforço para assistir a série.

Baseada em série israelense de onde a premissa apenas foi retirada, a série nos faz acompanhar a vida de Nicholas Brody (Damian Lewis), soldado americano que, depois de oito anos preso pelo talibã, volta como herói aos Estados Unidos e a de Carrie Mathison (Claire Danes), agente da CIA que desconfia fortemente que Brody está, na verdade, trabalhando para os radicais árabes. A primeira temporada não deixa dúvidas em relação à traição de Brody para os espectadores, mas mantém o suspense em relação a esse fato para os demais personagens da série, com exceção de Carrie que, porém, ao final, acaba sendo tratada com eletrochoques para controlar seu distúrbio bipolar.

Essa situação impossível ao final da primeira temporada permite a reviravolta da segunda, com Carrie finalmente convencendo seu mentor Saul Berenson (Mandy Patinkin) que Brody é um agente duplo e os dois fazendo com que ele passe a trabalhar para a CIA, com o objetivo de capturar Abu Nazir (Navid Negahban). Com a missão cumprida e tudo em paz, BUM, metade do predio da CIA é destruída em um dos finais de temporada mais bombásticos (com trocadilho) que já vi. E, novamente, uma mudança de status quo era necessária.

E é com essa situação limite que a terceira temporada começa, 58 dias depois do atentado que fecha a segunda: Brody, que havia sido contrabandeado para fora dos EUA por Carrie acaba  nas mãos de bandidos na Venezuela e Carrie, tentando ser honesta diante de uma CPI sobre os furos da CIA, acaba sendo internada em um hospital psiquiátrico por seu próprio amigo Saul. Saul, por sua vez, tem que não só mostrar serviço como o diretor interino da agência como enfrentar a arrogância do Senador Lockhart (Tracy Letts), que chefia a CPI e cobiça o cargo de diretor da CIA. 

E, com isso, passamos a olhar para dentro da agência e todas as maquinações políticas necessárias para fazê-la funcionar depois de uma tragédia, além de suas operações de inteligência. Por vários episódios, esquecemos da existência de Brody, perdido em um buraco qualquer e bombeado de heroína. Por um momento, esquecemos da  luta contra o terrorismo lato senso e passamos a olhar com lupa como é que a engrenagem funciona. Pode não ser exatamente assim, mas os showrunners Howard Gordon e Alex Gansa fazem um tremendo trabalho para nos convencer e eles, definitivamente, são bem sucedidos.

Vemos o recrutamento de uma relutante agente de ascendência iraniana (Fara Sherazi, vivida por Nazanin Boniadi) para ajudar a desvendar o “caminho do dinheiro” que financiou o atentado, as dúvidas morais do agente Peter Quinn (Rupert Friend) depois de uma missão que deu certo, mas nem tanto (pessoalmente para ele) e a força política do senador tentando esmagar os esforços de Saul em reativar a agência e mostrar que a espionagem “à moda antiga” ainda é o caminho a se seguir. Mas o mais sensacional é que, no meio disso tudo, que eleva a complexidade da série sensivelmente, os showrunners não se esquecem do lado pessoal. Se Brody não está presente, as consequências daquilo que dizem que ele fez são devastadoras para sua família, especialmente para Dana (Morgan Saylor), sua filha adolescente que, como aprendemos, tentou se matar e está em tratamento em uma clínica. Saul e a relação complicada com  sua esposa Mira (Sarita Choudhury) se intensifica com a volta dela depois do atentado e seu envolvimento com um francês, que ela não reluta em convidar para sua própria casa.

São pequenos momentos pessoais assim, contrastados com a nobre caçada aos responsáveis pela morte de 219 pessoas no atentado à bomba que retiram Homeland do que poderia muito facilmente ser uma vala comum de séries de TV. A cada nova temporada, a série realmente se renova e, mesmo quando achamos que sabemos exatamente o que está acontecendo, nosso tapete é puxado debaixo de nosso pés, como quando no sensacional momento, vários episódios adentro, em que descobrimos que a traição de Carrie por Saul foi encenação (ainda que o que ela tenha passado na clínica não seja, o que, por si só, empresta camadas e mais camadas de complexidade aos personagens) para atrair a atenção de Majid Javadi (Shaun Toub), iraniano amigo de Saul antes da “revolução iraniana” e que hoje ocupa cargo equivalente ao de Saul em seu governo. 

No entanto, a terceira temporada, acertadamente, parece fechar um ciclo. Ela termina a história iniciada na primeira e abre caminho para uma nova história envolvendo Carrie Mathison apenas – e talvez Saul Berenson, mas agora em outra capacidade – em um ambiente completamente diferente. Afinal, em uma sequência angustiante e que, novamente, é difícil de acreditar, Brody é eliminado da série em definitivo (espero!), o que automaticamente significa que toda a família Brody e agregados não têm mais função narrativa. Com isso, pela quarta vez seguida, a série terá que se reinventar.

Mas é a constante reinvenção que faz de Homeland o que é. Resta saber se Carrie sem Brody é a mesma coisa. Considerando, porém, o grau de dedicação de Claire Danes ao papel e o cuidado dos showrunners, diria que estamos em boas mãos.

Homeland – 3ª Temporada (EUA, 2013)
Showrunner: Howard Gordon, Alex Gansa
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Claire Danes, Damian Lewis, Morena Baccarin, Diego Klattenhoff, Mandy Patinkin, Jackson Pace, Morgan Saylor, David Marciano, Rupert Friend, Sarita Choudhury, F. Murray Abraham, Shaun Toub, Nazanin Boniadi, Tracy Letts
Duração: 630 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.