Crítica | Homeland – 7ª Temporada

  • Leia, aqui, as críticas das demais temporadas. Há spoilers

Quando a 5ª temporada de Homeland estava para acabar, a Showtime anunciou algo raro na TV: a renovação da série não por uma, mas por três temporadas de uma vez só. A vantagem da estratégia era óbvia, ou seja, permitir que os showrunners Howard Gordon e Alex Gansa se planejassem a longo prazo, o que permite, também, a redução de custos. A desvantagem, claro, era o perigo de a série ser esticada para além do que deveria, considerando que a protagonista Carrie Mathison, vivida pela sempre excelente Claire Danes, já havia sido explorada por todos os seus ângulos. Mas Gordon e Gansa tinham um plano bem estruturado, felizmente, e, com a 6ª temporada, começaram o que, depois de assistir à 7ª, parece ser uma trilogia de encerramento, já que a própria Danes anunciou que a 8ª seria a derradeira.

Se a primeira trilogia de temporadas – a Trilogia Brody, por assim dizer – era uma visão de dentro para fora de como a CIA opera, tendo a então agente Mathison, bipolar, mas extremamente eficiente, ainda que passional, como centro das atenções, a segunda trilogia, que é perfeitamente possível alcunhar de Trilogia Mathison, é uma visão de fora para dentro sobre os meandros dos órgãos de espionagem, com Carrie primeiro atuando como uma conselheira ad hoc da candidata à presidência dos EUA e, nesta temporada, de forma completamente independente. Mas, mais ainda, a nova trilogia parece dar especial foco à vida pessoal dela, abordando a relação com sua irmã e com sua filha com mais cuidado e vagar, além de sensacionalmente colocar o distúrbio mental que a acomete em primeiro plano.

O pano de fundo, como sempre, é muito atual e urgente, inserindo a série na crista da onda dos acontecimentos diários que lemos nos jornais. Carrie, depois dos eventos do final da temporada anterior, que desfizeram a imagem de “boa moça” da presidente Elizabeth Keane (Elizabeth Marvel), trabalha para reunir provas contra ela, apelando até mesmo para uma mais do que ilegal escuta na residência de David Wellington (Linus Roache), com a ajuda do sempre solícito Max (Maury Sterling). Um de seus objetivos é reverter as prisões de 200 pessoas que Keane acha que talvez tenham tido ligação com o atentado que sofrera, Saul Berenson (Mandy Patinkin) entre eles. No entanto, de forma insidiosa e absolutamente aterradora, vemos a ação de um agente disruptivo russo (Yevgeny Gromov, vivido diabolicamente por Costa Ronin) que abre uma chaga no já errático governo de Keane por meio das chamadas fake news que são multiplicadas exponencialmente pelas redes sociais em um trabalho metódico e com o objetivo claro de desestabilizar a presidência. Essa situação, que vai sendo agravada ao longo da temporada, não só rearruma o tabuleiro no meio do jogo, com Carrie “mudando de lado”, como recrudesce as atitudes despóticas e impensadas de Keane, em um crescendo paranoico muito interessante que deixa tanto David quanto Saul (que, não demora, é empossado como Conselheiro Nacional de Segurança) tendo que lidar com sucessivas e cada vez mais complexas saias justas.

Em meio a tudo isso, que consome o tempo e a mente de Carrie, ela ainda tem que lidar com problemas pessoais que colocam sua própria irmã Maggie (Amy Hargreaves) contra ela, mas compreensivelmente, já que é em defesa da saúde da pequena e adorável Franny, vivida pela gêmeas Claire e McKenna Keane. De certa forma, esse lado doméstico da protagonista parece uma história paralela, uma sub-trama, na verdade, que consome um bom pedaço da temporada e que poderia ser encarado como filler, mas a grande verdade é que não é. A evolução de Carrie ao longo das temporadas é evidente e sua filha com Brody é, queira ou não, parte integrante de sua vida e de sua composição como personagem. Erro seria se a menina fosse descartada ou esquecida como, aliás, aconteceu nas e 5ª temporadas de certa forma, que se acovardaram nesse enfrentamento. Agora, a questão é abordada de cabeça como parte do conjunto de situações que desequilibra Carrie mentalmente, trazendo à tona com muito destaque sua bipolaridade, elemento narrativo que é explorado com generosidade na temporada e que leva a um final doloroso e chocante, como a personagem, afastada de seus medicamentos por meses, completamente entregue à sua doença.

Mas se o problema não está nessa abordagem, ele pode ser encontrado na maneira episódica que a temporada é estruturada até lá pela sua metade. Se, logo no início, o foco fica na presidência quase fascista da antes liberal Keane, ele logo se alarga para a caçada do jornalista sensacionalista Brett O’Keefe (Jake Weber) por Saul que degringola para um massacre. Em seguida, a situação micro é esquecida, literalmente varrida para debaixo do tapete e a situação macro passa a ser abordada, já começando a entrar na seara da estratégia russa, mas ainda mantendo Carrie alheia a quase tudo, em histórias paralelas que não parecem tangenciar. Essa estrutura acaba criando momentos repetitivos ao longo dos seis episódios iniciais que parecem, aí sim, fillers para permitir que a temporada alcance seu tamanho regulamentar. Não é que as histórias não se encaixem, pois ela se encaixam muito bem, mas sim porque as peças, uma vez unidas, vão sendo preteridas pela preferência dada às peças ainda não encaixadas.

No entanto, Claire Danes, mais uma vez, é a grande atração da série. Sua performance é, novamente, absolutamente arrebatadora, sempre mantendo uma aura de desequilíbrio por trás de suas ações, sejam momentos benignos com sua filha, sejam momentos tensos como nas missões que ela mesmo monta com Max e uma equipe de ex-agentes em que ela confia. Igualmente, os roteiros conseguem inserir muito organicamente a bipolaridade da personagem, usando-a quase que como um personagem nas sombras, com uma presença turva, mas vívida e assustadora que parece sempre pronto para “atacar” quando menos esperamos. Chegaria até mesmo a arriscar a dizer que, apesar de a bipolaridade sempre ter sido tratada de uma forma ou outra ao longo das temporadas, é aqui que ela ganha o destaque realmente merecido como elemento informador da personalidade de Carrie.

Homeland, a caminho de seu fim, mais uma vez traz uma temporada sólida, atual, relevante na geopolítica atual e com mais um show de Claire Danes. Não há mais dúvidas que a renovação tripla fez bem à série e a 8ª temporada promete encerrar com chave de ouro esta obra tão pouco vista e comentada por aí.

Homeland – 7ª Temporada (EUA, 11 de fevereiro a 29 de abril  de 2018)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Lesli Linka Glatter, Michael Klick, Alex Graves, Charlotte Sieling, Michael Offer, Tucker Gates, Nelson McCormick, Dan Attias
Roteiro: Alex Gansa, Debora Cahn, Patrick Harbinson, Chip Johannessen, Anya Leta, Ron Nyswaner, Howard Gordon
Elenco: Claire Danes, Elizabeth Marvel, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Jake Weber, Morgan Spector, Amy Hargreaves, Dylan Baker, Ellen Adair, Mackenzie Astin, Claire Keane, McKenna Keane, Sandrine Holt, Costa Ronin, James D’Arcy, Ari Fliakos, Beau Bridges, Elya Baskin, Robert Knepper, F. Murray Abraham
Produtora: Showtime
Duração: 585 min. aprox. (12 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.