Crítica | Homem Animal: Espécie Anormal

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SPOILERS!

Para o Homem Animal, a consequência mais triste e imediata do grande evento de Mundo Podre: Reinos Verde e Vermelho foi a morte de seu filho Cliff. A esta altura da sofrida vida do herói, sabemos que a perda de um filho não se trata de uma novidade. Primeiro Cliff, em Carne e Sangue, sequestrado e psicológica e fisicamente abusado pelo tio sádico. Depois Maxine, que “morre” e depois volta à vida em uma inteligente jogada dela com o Vermelho, entre Formas Misteriosas e Praga Vermelha. Com isso em mente, era de se esperar que o Bichoso fosse ter algum tipo de profunda provação familiar nesse run de Jeff Lemire nos Novos 52. E que provação familiar ele tem aqui!

Trabalhar o luto em uma história de super-herói é algo complicado e nem todos os roteiristas conseguem fazer isso bem. Além da óbvia delicadeza do tema, urge, nesses casos, a necessidade de ao mesmo tempo que vem à tona o lado frágil e sofrido de um herói, vir igualmente a sua posição mais forte e ofensiva diante da dor. Todos nós temos esse lado, mas na realidade, o tempo recebe carta branca para agir. A superação e entendimento vem a passos lentos. Num quadrinho, porém, o leitor junta a noção de “fuga” com a “responsabilidade” que dá ao personagem-título e é aí que se cria a exigência que faz tramas de luto serem difíceis de se abordar em HQs. Como sabemos, Jeff Lemire tem como temática recorrente o trabalho de relações familiares e laços humanos em grande complexidade, o que faz dele um dos autores que melhor logram retratar esse tipo de questão, como observamos ao longo deste ótimo Espécie Anormal.

Por mais que uma linha narrativa de esperança em relação a Cliff apareça no enredo — Maxine e o gato-totem Sr. Meia estão trabalhando para que o menino retorne –, Lemire não facilita em nada, e estas dificuldades bem medidas é que fazem este arco avançar em qualidade, a trama mais bem fechada do autor à frente do Homem Animal até aqui. No meio do caminho, temos no Anual 2 da revista o encontro de Buddy com Anansa, a Aranha-dos-Sonhos (também ligada ao Vermelho) que ajuda a aplacar a dor do herói, devolvendo-lhe algumas memórias de Cliff. Particularmente gostei muito da modificação (até aqui, pelo menos, foi uma modificação) que o roteirista fez da personagem em comparação à sua versão mais agressiva e maléfica na fase de Jerry Prosser, quando então se chamava Rainha Branca, aparecendo pouco a pouco a partir de Tipo Selvagem. Meu único lamento é que ela não tenha feito parte da estrutura do arco, encerrando-se em apenas um momento que, visto de maneira mais pé no chão, quebra um pouco o ritmo da história corrente, justamente por não ter uma implicação maior.

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Maxine, Pastor e Sr. Meia no Vermelho.

Entre o aplacar da dor de Buddy e o gancho para o grande vilão desse arco, protagonizado pela Igreja do Sangue, pelo Irmão Sangue e pelo Povo Divergente, temos uma aplaudível relação com a opinião pública, o uso de redes sociais na ótima diagramação de páginas da revista e xingamentos ou defesa do herói quando da indicação dele ao Oscar de Melhor Ator pelo filme Fantasias. A fusão dos dissabores familiares com o termo “vida que segue” quase não nos dá tempo para pensar, mas não falo isso de maneira negativa. O texto aqui é estruturado de modo que vemos o luto de Buddy ser paralelamente desenvolvido com a sua investigação do sequestro de animais e a entrada de Maxine no Vermelho em busca da alma de Cliff. O que o leitor não espera é a virada do arco, com um “golpe elemental” de um dos totens, não aprovando as ações do Parlamento da Carne em dar os poderes de Homem Animal a Buddy Baker e fazer de Maxine a Rainha do Vermelho, a verdadeira avatar deles. E assim como aconteceu em Mundo Podre, temos aqui mais um “distúrbio na Força”. Desta feita, com a carne tentando dominar a Teia da Vida, o Campo Morfológico da Terra.

Sem facilitar caminhos para o herói e sem cair em um dramalhão insuportável, a revista do Homem Animal segue em alta para o seu derradeiro momento. Jeff Lemire faz da dor de uma família o pano de fundo de uma busca que não só coloca a morte em perspectiva — como parte um caminho, uma fase do ciclo da vida que precisa se completar para que o funcionamento das forças vitais da Terra sigam fluindo –, mas mostra que independente do lugar, tempo e espaço, sempre haverá aquele tipo de pessoa ou grupo de indivíduos que usarão da força, do discurso de superioridade e incitação à segregação, ódio e morte aos diferentes para poder ascender ao poder. Com uma arte e cores que seguem respeitando muito bem a noção de “revolução e fraqueza da carne” sustentada pelo enredo (destaque absoluto para as excelentes cenas no Vermelho), Espécie Anormal é mais um lembrete de como é difícil alcançar o equilíbrio na vida. E a mostra do que acontece quando o desequilíbrio tem espaço para agir.

Animal Man Vol.2 #19 – 23: Splinter Species + Animal Man Annual #2 (EUA, 2013)
Roteiro: Jeff Lemire
Arte: Steve Pugh, John Paul Leon, Timothy Green II, Francis Portela, Travel Foreman
Arte-final: Steve Pugh, John Paul Leon, Joseph Silver, Francis Portela, Travel Foreman
Cores: Lovern Kindzierski
Letras: Jared K. Fletcher
Capas: Howard Porter, Lovern Kindzierski, Jae Lee, June Chung, Francis Portela, Travel Foreman
Editoria: Matt Idelson, Joey Cavalieri, Kate Durré, Kyle Andrukiewicz
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.