Crítica | Homem Animal: Nascido Para Ser Selvagem (1990 – 1991)

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estrelas 4

Suceder Grant Morrison na condução de um personagem, depois de uma fase gloriosa como foi a revelação do britânico em Homem Animal, não é uma tarefa fácil. Peter Milligan que o diga. Após a soberba aventura metalinguística encerrada por Morrison em Deus Ex Machina, restava a dúvida sobre como o próximo escritor faria o drama do herói seguir em frente e que “desculpas” ele arranjaria para construir o “momento depois” do encontro de Buddy com o seu Criador, na edição #26. A resposta, obviamente, não é de fácil compreensão. Mas é ótima.

A saga começa em Apagão, com Buddy Baker acordando no hospital após um coma de três meses. Em apenas três páginas Milligan estabelece o mistério do deslocamento do protagonista e impede que o leitor busque relações imediatas e fortes com a fase anterior, não por negá-la, mas por continuá-la sob um ponto de vista mais adiante no tempo, ou seja, alguma coisa aconteceu entre Deus Ex Machina e o início de Apagão que permanece um mistério para nós até a última revista do arco.

Como a arte de Chaz Truog e a finalização de Mark Farmer são exuberantes e muito precisas ao explorar a violência sugerida pelo roteiro, o espetáculo é completo, sofrendo a sua primeira explosão no final da primeira edição, passando de loucuras e comportamentos realmente animais (de macaco e cachorro) de Buddy para a mais completa insanidade de O Lanchinho Nu.

Um elemento importante a ser destacado aqui é a mistura de linhas temporais-espaciais e também de indivíduos, coisas que só são “explicados” na última edição do arco, porém, de maneira insatisfatória, com muitos buracos e conveniências demais que comprometem a relação do leitor com os motivos pelos quais o Homem Animal que vemos na trama está duplicado em várias realidades, dentro do mesmo lugar.

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Capa da edição #27: Apagão.

Milligan cria aqui uma Terra depois da Crise, a Terra Vinte e Sete, na qual existem muitas diferenças históricas com a nossa Terra e diversas versões do Homem Animal, além de personagens como Batman, Fera Buana e figuras bizarras da DC que aparecem pela primeira vez em e O Lanchinho Nu: Homem Nocional (filho de uma gravidez fantasma — sim, essa é a parte onde a gente diz “UAU!” pela fantástica ideia de Milligan), Primeira Página (um vilão que tem pele de jornal e noticia suas lutas ou o que quer que aconteça) e Homem de Lugar Nenhum, o mais interessante desses novatos, que é “fora de sintonia” devido a repressão da libido vinda da mãe, em sua adolescência, e que fala misturando palavras dos livros de Edgar Rice Burroughs. Mais para frente ainda teríamos o trio de anjinhos demoníacos (Lucinda, Mark e Matthew Angel) e o ridículo Cigarro Verde (sim, esse é o nome do personagem, supostamente um “herói de categoria B” nessa Terra Vinte e Sete).

Quando Buddy encontra Lugar Nenhum, o roteiro passa a seguir uma linha mais investigativa, embora não abandone a busca do herói para entender o que está acontecendo, já que as “visões” da selva no banheiro de sua casa, os poderes manifestos de Maxine e o comportamento animal que ele acabava assumindo por ligação com um ancestral de milhões de anos antes são impasses sem resposta. As edições Nascido Para Ser Selvagem (a única totalmente desenhada e finalizada por Steve Dillon, com seu traço mais sujo e disperso) e Belo Dia Para Um Casamento Estranho são basicamente voltadas para fazer um cerco externo a Buddy, dando conta, ao mesmo tempo, da linha investigativa e das pistas para a resposta da bagunça temporal, que começa a ser dada em Ritos de Passagem.

A arte da parte final da saga, A Pizza de Schrödinger, é totalmente realizada por Chaz Truog, sem a finalização de Mark Farmer, o que traz uma impressão estranha, porque os desenhos e finalização de Truog são mais ou menos parecidas com os de Dillon, com a principal diferença de que, enquanto o convidado se caracteriza por traços finos e pontilhados, o veterano da revista usa traços grossos, muita hachura pouco entrelaçada, sombras e linhas majoritariamente tortuosas, dando um ar mais selvagem mesmo à edição final, trazendo maravilhosos quadros da selva, diagramação bem mais ousada (a principal vantagem de trabalhar sozinho é maior liberdade) e o melhor momento da coloração de Tatjana Wood no arco.

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Capa da edição #30: Belo Dia Para Um Casamento Estranho. 

A explicação para a bagunça espacial-temporal ou “roda-viva” na qual Buddy está não é necessariamente a melhor explicação. Tive sentimentos conflitantes em relação ao conteúdo e estrutura de A Pizza de Schrödinger porque, enquanto o autor não recua nem um pouco na exposição da crueldade humana, muito bem representada na arte; e também na excelente explicação do por quê do coma e Buddy em Apagão (a descoberta da GRANDE VERDADE em Deus Ex Machina); do outro lado da história, a forma como o Homem Animal conta essa aventura simbólico-darwinista para Lugar Nenhum parece um pouco jogada, quase displicente e, a despeito da inteligente saída, ainda ficam umas pequenas lombadas, problemas de coerência no meio da explicação. Esta é a principal diferença entre a finalização de Milligan, que teve apenas este arco à frente do Homem Animal, e a de Morrison: a forma como as pontas são amarradas.

A sucessão do trabalho de Morrison encontrou em Milligan um caminho igualmente aberto para a loucura; para referências científicas, simbólicas e também para o Universo DC, com o detalhe de criar mais coisa nova ao invés de usar o catálogo da editora. Nascido Para Ser Selvagem é um ótimo trabalho, divertido, e que sustenta bem o peso de vir depois de um momento adorado do Homem Animal, tanto para os leitores quanto para os críticos. Como apontei antes, não é uma fase livre de erros, mas estes aparecem mais no final e estão quase que unicamente relacionados ao ajuntamento das migalhas espalhadas através dos volumes. Ao terminar a aventura, o leitor não será capaz de rejeitar uma grande fatia de pizza, com bastante pimenta, assim como gostava o Homem de Lugar Nenhum. E talvez irá querer comê-la encostado em um Dente-de-Sabre, em plena mata de chão quente e úmido, como um ancestral qualquer de uma Terra muito distante teria (ou terá, ou teve?) feito…

Homem Animal: Nascido Para Ser Selvagem (Animal Man Vol.1 #27 – 32) — EUA, setembro de 1990 a fevereiro de 1991
No Brasil:
Panini, 2016
Roteiro: Peter Milligan
Arte: Chaz Truog / Steve Dillon (#29)
Arte-final: Mark Farmer / Steve Dillon (#29)
Cores: Tatjana Wood
Letras: John Costanza
Capas: Brian Bolland
164 páginas (encadernado da Panini).

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.