Crítica | Homem Animal: O Evangelho do Coiote

estrelas 5,0

Quando começou a escrever para a revista Homem Animal, Grant Morrison não era o ícone da 9ª Arte que hoje conhecemos. Ela fazia parte de algumas das promessas da invasão britânica que os Estados Unidos recebiam e que deram à indústria de quadrinhos americanos publicações regulares de alta qualidade, como a fase de Alan Moore na Saga do Monstro do Pântano; a recriação do Sandman pelas mãos de Neil Gaiman e a retomada do Homem Animal pelas mãos de Morrison, algo que deveria ser apenas uma minissérie em 4 partes, mas acabou se tornando uma próspera série mensal, da qual o autor roteirizou as 26 primeiras edições.

Criado em 1965 na Strange Adventures #180, por Dave Wood e Carmine Infantino, o Homem Animal teve uma primeira fase bastante pobre nas mãos de seu criador. Mesmo nas participações que realizou posteriormente (tipo O Fim do Cartel) até quando figurou como um dos heróis esquecidos em Crise nas Infinitas Terras, o personagem não conseguia emplacar, não era atrativo. Para quê um Homem Animal se o mundo poderia ter “heróis de verdade“, certo? Bem, tudo isso mudaria — inclusive a pergunta maliciosa sobre a utilidade do personagem, com a qual Morrison faz piada –, na segunda metade de 1988, quando a primeira série do A-Man começou a ser publicada.

A 15 Km da cidade, os gritos começam com intensidade. A princípio, como um burburinho, depois, mais altos a cada passo. Gritos… Os macacos gritando… Sacudindo as grades. Golpeando a tela de arame. E o cheiro… Oh, Deus, o fedor da cidade enorme e doentia. Tossindo suas entranhas, esvaziando seus intestinos nos rios, nos mares. O cheiro de pessoas se comprimindo como uvas numa prensa. O ácido aroma de suor. De todas as vidas despercebidas que caminham no ventre do monstro. […] Uma orquestra de jaulas. Um punhado de macacos gritando. Por que tivemos de descer? Por que tivemos de descer as árvores?

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Não pude resistir e transcrevi uma parte da introdução da primeira revista, intitulada, O Zoológico Humano. Aqui são lançadas as bases para o que o autor desenvolveria nos três números seguintes, Vida na Selva de PedraA Natureza da Besta-Fera e Quando Vivíamos Todos na Floresta. Nesta primeira parte, que por si só é um pequeno arco fechado, temos dois caminhos muito bem construídos. O primeiro, como uma apresentação do cotidiano de Buddy Baker, seus dois filhos e esposa. O segundo, como colocação compassada do Deus Branco, o Fera Buana (Mike Payson Maxwell) chegando à cidade.

A arte de traços suaves assinada por Chaz Truog (nas edições, seu nome está grafado Chas, com “s”) é um convite mais do que bem-vindo para o leitor, que parece estar visitando uma casa meio exótica da vizinhança. E não demora muito tempo para termos esse sentimento ainda mais ressaltado, pois vemos Baker passar por um reexame de consciência e optar por sair do anonimato, refazer seu treinamento para descobrir o que pode e o que não pode fazer.

Morrison respeita o cânone do personagem, trazendo Ellen Frazier, antiga namorada/noiva de Buddy, agora como esposa dele, e também o velho amigo Roger Denning cercando o personagem de uma vida “normal” que está prestes a mudar. É justamente esse cenário que dá espaço para Truog desenhar com maior delicadeza as cenas da edição, até chegarmos ao final do primeiro número e nos depararmos com uma surpresa nada agradável. A simplicidade da finalização de Doug Hazlewood e as cores muito bem escolhidas por Tatjana Wood servem como plano de fundo extremamente funcional para estas apresentações.

A jornada de Buddy para “voltar ao mundo dos super-heróis” não passa sem um pouco de crueldade pelas mãos de Morrison, que faz questão de transcrever muitas das piadas ou do desprezo que os leitores tinham (e os que não o conhecem, ainda podem ter) em relação ao personagem. A sequência em que ele participa de um programa de televisão é hilária e, ao mesmo tempo, patética para Buddy, mas serve como impulso para que ele tenha o seu primeiro emprego e se encontre com a Fera em uma história onde vemos criticados os testes de laboratórios em animais e a caça; onde vemos exposta a posição do autor pelo vegetarianismo (ele inclusive fala isso na introdução americana para o relançamento da obra) e temas familiares como a necessidade de dinheiro para pagar as contas — Buddy é um dublê desempregado –, o assédio moral e sexual, a violência urbana e tentativa de estupro. O entrelaçamento dos temas “mundanos” com a temática heroica arrebata o leitor desde a primeira revista e é com prazer e horror que vemos o desfecho da saga, algo que nos faz pensar muito sobre o que acontece no contato entre o homem e o macaco, ou traduzindo para outro sentido, entre a parte racional e não muito racional entre dois animais.

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Na edição que dá título ao arco, O Evangelho Segundo o Coiote, temos uma metáfora metalinguística que distribui críticas a um montão de instituições e chama a atenção para muitas outras coisas, desde uma relação homossexual em plenos anos 80, quando a AIDS era chamada de “câncer gay” — a doença é trazida à tona pelo autor já na edição #1 — até a relação de fé entre aqueles que sofrem e atribuem esse sofrimento a uma provação divina, aceitando os dissabores de uma vida inteira como “prova de amor a Deus“, como se acometidos do Complexo de Jó que Morrison faz questão de alfinetar por completo.

Por um momento, vemos a linha principal das histórias do personagem ganhar um rumo diferente. O Homem Animal encontra o Coiote Astuto (imediatamente fazemos espelho com a relação entre o Papa-Léguas e o Coiote, da Looney Tunes) e há uma tentativa de comunicação entre eles, mas não ocorre entendimento algum. O final da história, com o estabelecimento do artista/autor como um Deus tirano, ganha ares messiânicos e representa forte crítica aos editores, roteiristas e artistas, sempre condenando e matando personagens que, por algum erro de comunicação, não conseguiram se mostrar de forma correta para o público. É muita condenação para um mal entendido. Que roteiro!

Em Aves de Rapina — edição onde Morrison cutuca algumas feridas bélicas daquele final de Guerra Fria e fala sobre arte na indústria cultural, terrorismo, militarismo e destruição em massa — temos a oportunidade de ver um modelo estético diferente na arte de Chaz Truog e Doug Hazlewood, com muito mais elementos por quadro e diagramação muitíssimo mais ousada. Esta é a melhor arte de todo o arco (desenhos e narrativa visual/fluidez) e tem o melhor encadeamento do roteiro, embora a história pareça um pouco confusa para o leitor desavisado. Depois da edição seguinte, A Morte do Máscara Vermelha, quando vemos o encontro do Homem Animal com um vilão B do passado da DC, entendemos que Buddy estará na saga Invasão! (1988 – 1989), onde diversas raças alienígenas — entre eles, os thanagarianos da edição anterior — se unem para atacar a Terra e explodem uma bomba genética que bagunça os sentidos do Homem Animal… É por isso que ele aparece lutando contra essa confusão nas edições finais do volume: Espelho, Espelho MeuTudo para sua Casa.

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Com uma brincadeira a partir de uma frase famosa de Einstein, uma figura nas sombras, um nativo americano deslocado do tempo e um resultado enigmático após luta do Homem Animal contra o Mestre dos Espelhos (entenderíamos os desdobramentos disso tudo apenas no arco Deus Ex Machina), chegamos ao final de O Evangelho do Coiote, um arco de apresentações que tira o Animal Man de uma não declarada aposentadoria para o posto de um interessantíssimo membro da Liga da Justiça Europa. Um passo e tanto.

Durante todo esse tempo, o leitor ainda pode ver performances excelentes de Ellen (ela lutando contra o Mestre dos Espelhos é excelente) e o um drama de Cliff, filho de Buddy que sofre bullying e é ajudado pelo Caçador de Marte; além de problemas familiares que são organicamente mesclados à vida heroica do Homem Animal. Não é à toa que o personagem tenha saído da obscuridade e ganhado o amor do público. O trabalho de Grant Morrison aqui é realmente algo para se apaixonar.
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* Ritter Fan, muito obrigado pelo presente!

O Evangelho do Coite — Homem Animal Vol.1 #1 a 9 (Animal Man Vol.1 #1 – 9) — EUA, setembro de 1988 a março de 1989 
Roteiro: Grant Morrison
Arte: Chaz Truog e Tom Grummett (desenhista convidado apenas na edição #9)
Arte-final: Doug Hazlewood
Cores: Tatjana Wood
Letras: John Costanza
Capas: Brian Bolland, Lovern Kindzierski
Editoria: Karen Berger, Art Young
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.