Crítica | Homem Animal: O Senhor dos Lobos

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estrelas 3

Assumindo o Homem Animal após a fase completamente maluca de Peter Milligan, que escreveu um único arco para o herói, Nascido Para Ser Selvagem, Tom Veitch apostou em crises pessoais e familiares, voltando também com a noção corporativa/laboratorial trabalhada em algum momento por Grant Morrison em O Evangelho do Coiote.

Em seu arco de estreia no título, Réquiem Para um Ave de Rapina, Veitch tropeçou na extrema soltura interna e externa de suas ideias, mas no todo, conseguiu um bom resultado ao propor uma revisão para a origem dos poderes do Homem Animal. Todavia, quando isto aparece de maneira mais clara aqui em O Senhor dos Lobos, o leitor não pode deixar de manifestar o seu desagrado.

Se pararmos para pensar no quanto personagens de quadrinhos são revisados e têm coisas adicionadas ou alteradas em sua existência ao longo dos anos, as mudanças que Tom Veitch apresentou no arco passado e neste arco não são estranhas. Mas uma coisa é mudar a origem de um personagem revisando-o de maneira coerente em dois âmbitos, dentro do enredo e no plano maior, ou seja, o cenário no qual essa mudança existe; outra coisa é o abandono de ótimas criações previamente estabelecidas.

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Capa da edição #38: O Punidor.

Para ficar só em um personagem da DC que passou por algo exatamente igual, lembremos do que Alan Moore fez com o Monstro do Pântano em A Lição de Anatomia. A mudança não pode, de forma alguma, desrespeitar o passado do personagem, por pior que seja (Grant Morrison sabia muito bem disso quando pegou para reformular aqueles roteiros horrorosos de Dave Wood, o criador do Homem Animal). Reformular em cima do cânone não é algo fácil, mas é o único caminho válido, se o roteirista da vez quer criar algo notável. O que Veitch faz aqui com o H.A. não é nada notável. A incursão da mitologia indígena pareceu interessante no começo, mas o texto fala de tudo muito superficialmente, citando uma ou outra cena do passado, entregando para o leitor uma série de conceitos prontos sem jamais desenvolvê-los bem. Não tem como não ficar frustrado com isso.

Por outro lado, ver Buddy Baker passar por algumas provações é algo interessante, porque dá ao herói algo bastante raro de se ver nos quadrinhos. Um pai de família em crise, que por um lado é um super-herói conhecido e recentemente odiado, e por outro, alguém que não consegue um trabalho — ele saiu da Liga da Justiça Europa — para colocar comida na mesa. O projeto familiar em questão aqui é forte e ganha uma das melhores críticas do roteiro ao heroísmo barato, dos mascarados e uniformizados que tem tudo.

Na minha leitura, há a sugestão de que Cliff, que fugiu de casa e está passando por maus bocados, está nas mãos de um pedófilo. Aquele tio dele ou NÃO é o tio ou me pareceu muito… íntimo. Ao menos é o que a arte nos sugere. Não dá para entender como os pais simplesmente deixam o garoto “a caminho da fazenda da avó” sem ir em busca dele imediatamente e como Buddy coloca outras coisas em primeiro lugar e não vai buscar o filho. O texto sequer se dá o trabalho de ampliar a preocupação do pai. Uma grande falha, se formos ver que uma das linhas do volume é a preocupação de Buddy com a família.

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Capa da edição #40: Sopa de Garra de Urso.

O arco conta ainda com o hippie gênio Travis, índios, a chegada de Vixen no final da edição #44, Samson e seus projetos, todos pontos que clamam por uma melhor colocação do roteiro. O lado familiar, a visita de Buddy à cidade dos vampiros inundada pelo Monstro do Pântano na era de Alan Moore e o fortalecimento (ou um novo padrão de uso) para seus poderes são bons ganhos dessa fase, que ainda traz Maxine de fato mostrando que também está ligada ao Campo Morfogenético da Terra e, portanto, aos animais. Quanto à arte, minha única reclamação é para a última edição, com desenhos e finalização simplesmente péssimos, com traços  anatômicos infantis e preguiçosa construção de cenários e finalização.

Mais um ponto metalinguístico é desenvolvido ao término da revista, com Ellen sendo contratada por uma editora para trabalhar como colorista na sessão de quadrinhos, uma sessão que tem como carro chefe um anti-herói chamado O Punidor, nome que será bastante relevante para o arco seguinte do Homem Animal. Resta saber se Tom Veitch irá criar ainda mais janelas ou começará a responder perguntas essenciais dessa fase.

Homem Animal: O Senhor dos Lobos (Animal Man #38 – 44) — EUA, agosto de 1991 – fevereiro de 1992
No Brasil: Panini, 2016
Roteiro: Tom Veitch
Arte: Steve Dillon (#38, 40, 41, 43), Tom Mandrake (#39), David G. Klein (#42), Brett Ewins (#44)
Arte-final: Mark Farmer (#38), Dick Giordano (#39), Steve Dillon (#40 , 41, 43), Mark Badger (#42), Jim McCarthy (#44)
Cores: Tatjana Wood
Letras: John Costanza
Capas: Brian Bolland
186 páginas (encadernado da Panini)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.