Crítica | Homem Animal: O Significado da Carne

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O Significado da Carne encerra o run de Tom Veitch à frente do Homem Animal, período que contou com outras duas aventuras, Réquiem Para uma Ave de Rapina e O Senhor dos Lobos. Ao longo de sua jornada, o autor assumiu um plano que, com o passar do tempo, se tornou parte de uma polêmica entre os fãs por conta da comparação com a fase de Grant Morrison, focando um aspecto principal: as origens do poder e a criação do Homem Animal. Uma coisa é preciso ficar clara: não há problema nenhum em fazer comparações de narrativa dentro de um mesmo cenário e temática, com um mesmo personagem e para o mesmo tipo de característica. Sendo uma comparação coerente sobre construção de enredo (não o bobismo sobre gostos pessoais para dizer o que é melhor ou pior), a comparação é válida. O que analistas e leitores devem tomar cuidado é que a obra que está sendo comparada também precisa ser analisada como obra em si, não apenas por sua aproximação ou não com outra coisa. E é aqui que a polêmica entre a fase Veitch e a fase Morrison esquenta.

Lembremos que o autor de O Significado da Carne começou a escrever para o Homem Animal após uma jornada curta mas inteiramente surreal vinda pelas mãos de Peter Milligan, em Nascido Para Ser Selvagem. Ali já havia um elemento de ancestralidade, mas não de origem. Era uma viagem de encontro íntimo, quase um farol diante do próprio Homem Animal para justificar ou engrandecer o que acontecera com ele no pré e pós-Crise. O plano de Veitch, porém, era olhar para essa origem a partir de outro ângulo. E se… os poderes do Homem Animal não fossem, na verdade, produto de uma relação íntima de alienígenas com a matéria animal do planeta Terra? E se a origem de seus poderes fosse, na verdade, xamânica?

Em um primeiro momento fica difícil negar a estranheza. Nós esperamos que cada arco e cada autor se utilize da cronologia do personagem em um título para mudar, aprimorar ou seguir com quaisquer mudanças que tenha pensado dentro dos dados antes apresentados. Mas nem sempre é assim. Cada autor pode representar um olhar diferente sobre o herói ou vilão que escreve, como se estivesse “fazendo tudo de novo” em um cumulativo genérico de coisas, como no caso dos problemas familiares que Buddy herda da era Milligan e que aos poucos vai piorando aqui.

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Capas das edições O Homem Brilhante e O significado da Carne.

No todo, o plano de Tom Veitch é bastante interessante. Eu confesso que em termos de significado, prefiro uma origem xamânica do que alienígena para o Homem Animal e, tomando como base a construção desse elemento indígena por parte do autor, é possível ver que muita coisa faz sentido com o que veio antes. Mas infelizmente são apenas coisas paralelas à origem do personagem. E por mais interessante que seja o elemento de um xamã, a criação do Campo M, a divisão do poder de “avatar do vermelho” entre Homem Animal, Asa Pequena (sua filha Maxine), Vixen, Tristess e Fera Buana, toda a iniciativa faria ainda mais sentido e seria ainda mais interessante se harmonizasse a proposta com a explicação e refiguração perfeitas de A Origem das Espécies. E sobre O Vermelho, é importante lembrar que outros personagens da DC também acessam o campo, com diferentes capacidades ou intensidades. São eles: Tefé Holland, quando se tornou Elemental da Carne; Fera Liberdade, Mutano, Cavaleira, Tabu, Yolanda Montez da Terra-2 e os usuários do soro do Morcego Humano.

Em dado momento da história o autor nos faz crer que seguiria por um caminho familiar ou que se encontraria com forças místicas da Terra, mas isso muda rapidamente. A relação dele com o índio Pedra (que já havia aparecido para Maxine), a revelação do contato de Buddy desde adolescente com o seu “verdadeiro pai” e a forja de um outro Universo pela força do pensamento durante a batalha contra o Antagon (a força anti-vida ou o outro lado da moeda que é o equilíbrio, a criação e a preservação dos animais no Campo M) torna-se cada vez mais intensa e o desequilíbrio no poder do Homem Animal nos últimos tempos é explicado, assim como algumas de suas ações e memórias escondidas. Mesmo não sendo muito bem organizado, se olharmos para o run como um todo, o resultado final tem a sua beleza, especialmente no flerte do autor com a criação desse outro Universo.

Infelizmente o roteiro abandona personagens sem mais nem menos, para piorar as coisas. Isso acontece tanto com o Punidor, que começa com uma boa adição à saga — quase uma quebra de quarta parede — mas termina em lugar nenhum. O mesmo vale para a relação final do Homem Animal com Vixen e Tristess, que juntos criaram um Universo mas não existe no texto ou na arte uma indicação de finalização, apenas a narrativa um tanto enfadonha (embora não ruim) do protagonista, alternada com a do roteirista que está mantendo um diário, preparando-se para escrever um filme do Homem Animal.

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Capas das edições O coração Quente da Realidade Abstrata e Crônica da Praga.

A aparição do Metaman no término da história tem algum sentido de integração com o cientista maluco que vínhamos acompanhando, mas quebra algo que sempre esteve em segundo plano na revista (e quando digo isso é em importância dentro do roteiro) que o super-vilão básico. Penso que o texto já tinha coisas demais para lidar nestes últimos momentos e a aparição de um pseudo-super-herói não foi a melhor saída, mesmo que o enredo não seja realmente estragado pelo personagem.

Com uma arte que respeita as indicações de vida, morte, sanidade, loucura, limpeza e sujeira de um campo místico onde se relacionam a matéria animal da Terra e os detentores do poder para acessá-la, O Significado da Carne encerra uma fase cheia de mudanças para o Homem Animal. Distante do filho (cuja trama será retomada logo no início da fase seguinte, de Jamie Delano), distante da esposa e cada vez mais diante de seus poderes, Buddy atravessa provações cada vez mais opressivas até se libertar da força ruim que o influenciava.

A diagramação e os desenhos da manifestação do poder do Antagon mais o uso de cores e disposição dos personagens e lugares nas cenas de xamanismo nos ajudam a entrar visualmente neste mundo de desventuras do Homem Animal, encerrando-se de maneira íntima, um pouco cômica e quase despreocupada a partir de uma anotação do roteirista dentro da história, assumindo a voz de despedida do autor do arco, um toque lírico e com votos positivos para a vida do personagem. Mesmo com tropeços, a fase termina de maneira coerente e com mais uma camada recheada de informações sobre a origem e o uso de poderes do Homem Animal. Um fim que nos permite respirar melhor depois de tantas tragédias. Uma boa despedida de Tom Veitch.

Homem Animal: O Significado da Carne (Animal Man #45 – 50: The Meaning Of Flesh) — EUA, 1992
No Brasil:
Panini, 2016
Roteiro: Tom Veitch
Arte: Steve Dillon (#45, 47), Steve Pugh (#46)
Arte-final: Steve Dillon (#45, 47), Steve Pugh (#46)
Cores: Tatjana Wood
Letras: John Costanza
Capas: Brian Bolland
Editoria: Tom Peyer
144 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.