Crítica | Homem Animal: Origem das Espécies (1989)

estrelas 4,5

SPOILERS!

Para quem estava esperando que o segundo arco do Homem Animal sob a égide de Grant Morrison fosse narrativamente (não tematicamente) tão tranquilo e favorável quanto O Evangelho do Coiote, certamente caiu do cavalo. Aqui, o autor faz o seu famoso exercício de fundir cérebros e escava algumas informações do passado, joga mais um monte de dados aparentemente desconexos e prepara alguns cenários para que todos os mistérios possam ser retomados no volume seguinte (e final) de sua fase à frente do HA, o arco Deus ex Machina.

O que mais se deve ter aqui é atenção. Tanto para não se perder ao longo das histórias, que não são exatamente o último refúgio da lógica, por contarem apenas com alguns pedaços de informação; quanto pelo fato de que tudo isso será retomado, explicado e expandido mais adiante.

O Mito da Criação, em Origens Secretas #39.

Buddy está medindo o estrago que a bomba genética fez aos seus poderes.

A trama começa com O Mito da Criação, da Secret Origns #39, onde vemos retomada a cena de caça que faria de Buddy Baker o Homem Animal. Morrison acrescenta algumas informações importantes a esta origem pré-Crise, especialmente porque a perspectiva é de uma bagunça de poderes para o personagem, que está tentando consertar o estrago da Bomba Genética que o atingiu na saga Invasão. Dessa procura por melhoras, ele será levado, a partir de Caça à Raposa, para a África, ao lado de Vixen, onde lutará juntamente com o Fera Buana e seu sucessor, o Fera Liberdade, pelos direitos civis na África do Sul (a trama é uma clara referência ao apartheid e às ditaduras e guerras civis na África desde a descolonização).

Mesmo com uma maior complexidade em relação ao Evangelho do Coite, Origem das Espécies fala realmente de origens, de novos começos ou primeiros encontros do herói com situações que não imaginava ou que não tinha medido as consequências muito bem antes de partir para a ação. Nós vemos o personagem amadurecer bastante desde que escolheu voltar a vestir o manto, mas isso não significa que ele esteja livre de conflitos, tristezas e medo. Enquanto age em diferentes frentes, há algo muito estranho acontecendo com sua esposa, filha e filho. E também com o tempo. Mais para frente, ele levanta suspeitas, mas Ellen não sabe explicar e Buddy acaba desistindo de entender. A coisa fica realmente estranha na edição Assombrações (máxima atenção na leitura, aqui!), que coloca uma sombra visitando Maxine e, mais adiante, aparecendo para Buddy, que diz tê-lo visto quando tinha 10 anos de idade (lembrem-se: a mesma idade em que ele recebeu a cicatriz no braço que foi amputado e que cresceu novamente na luta contra o Homem-Rato).

Todo esse emaranhado de acontecimentos estranhos, sentimentos, compromissos familiares e decisões difíceis de se tomar quando se tem determinada importância social, ou em outras palavras, quando tem muito mais gente prestando atenção no que você faz, chega a uma crise quando Buddy alia-se a grupos contra a matança de animais e passa a agir como um “ecoterrorista”. Vemos referências à caça de golfinhos (com excelente problematização da matança de qualquer bicho como “algo cultural” e, mais para o final, como “produto de livre-arbítrio”), a matança de baleias, as terríveis condições de animais em alguns laboratórios de testes medicinais e o levantar de outras bandeiras (que no diálogo de Buddy com o filho Cliff acaba tendo ares demasiadamente panfletários) como o vegetarianismo e o ciclo natural da criação de rebanhos, desmatamento e poluição, pastagem, infame abate e transformação desse bicho em alimento para humanos.

Buddy, Vixen e o Fera na luta contra o Apartheid.

 Massacre na África.

Essas ideias não aparecem aos borbotões, elas são muito bem colocadas ao longo das edições, apenas sofrem de algum excesso aqui ou ali, mas nada que seja ruim. O leitor deve ficar atento também às linhas paralelas, como a do físico de origem indígena James Highwater, que em visita ao Asilo Arkham, recebe algumas migalhas de informação do Chapeleiro Louco e do Pirata Psíquico. Vejam como Morrison brinca com a perspectiva de criação do personagem em nível metalinguístico, mostrado pela arte com alguns membros do corpo apenas com o primeiro esboço a lápis para o desenho. Essa quebra nada sutil, mas ao mesmo tempo cuidadosa da quarta parede é igualmente ressaltada pela atuação do Mestre dos Espelhos, pelo modo como o Mestre do Tempo age e justifica seus atos e pela forma como todas as inconstâncias e mistérios em torno de Buddy causam nele uma crise de identidade, especialmente após alguns bombeiros serem feridos em uma ação de salvamento de macacos de um laboratório.

A questão agora é: que tipo de homem Buddy Baker se tornou? Ele, sua esposa e seu amigo Roger fazem essa pergunta de diferentes formas. Em um exame de consciência, o herói percebe que tem falhas demais e a possibilidade de errar que lhe é inerente pode ferir pessoas inocentes, o que acaba por fazê-lo decidir — novamente! — pela aposentadoria.

Origem das Espécies é a história de um herói explorando seu campo de batalha, encontrando problemas que jamais imaginou existir e parando espantando diante dos muros morais e mistérios que parecem ser obrigatórios nessa estrada. Ao longo do volume, é possível que informações sobre a Crise nas Infinitas Terras (a Sereia Delfim aparece aqui, por exemplo) e sobre a saga Invasão, impeçam que certos detalhes de cronologia sejam entendidos em sua totalidade, pelo menos no momento, pois no último round dos roteiros de Morrison, tudo é explicado. Importante deixar claro que essa “ausência” não diminui o roteiro nem nada. Apenas dá mais alimento para a confusão temporária.

Assombrações, a mais misteriosa edição do arco. Um drama que no volume seguinte fará muita gente chorar...

Assombrações, a mais misteriosa edição do arco. Um drama que no volume seguinte fará muita gente chorar…

A arte tem aqui uma pequena queda em relação à primeira parte do run, mas não é ruim, apenas pouco exigente em momentos que pediam uma maior exuberância. Isto, porém, é uma opinião pessoal, pela forma como recebi as informações lurante a leitura. Devo dizer, porém, que Chaz Truog e Tom Grummett  (em duas edições) criam um bom espetáculo visual para o leitor, principalmente nos quadros mais cheios. Eles também diminuem a ousadia na diagramação, o que é uma pena, mas, de novo, não é uma exposição ruim. Quem faz um trabalho bom de cabo a rabo é Tatjana Wood na coloração das edições, com uma atuação ainda mais intensa na criação de atmosferas e contextos para o roteiro.

O encontro (quase) romântico de Buddy com Ellen em Paris e a participação da Liga da Justiça Europa (aparecem o Homem Elástico, Dmitri Pushkin — um dos Sovietes Supremos — e Metamorfo) são bons momentos, por motivos diferentes. O primeiro, pelo toque bonito do casal em um jantar romântico, um pouco de normalidade e amor para a vida de um herói não muito comum. E o segundo, pelo toque de humor e bizarrice que traz para a passagem do HA pela cidade das luzes, convenientemente durante o ataque do Mestre do Tempo.

Colocando a guerra em vários frontes externos e internos para o seu personagem, Grant Morrison faz com que nos aproximemos cada vez mais dele e torna ainda mais relevante a sua presença no mundo dos heróis e das pessoas comuns. Nós simpatizamos com o Homem Animal e suas lutas, se não com todas, pelo menos com a maioria delas. É impossível não mergulhar na narrativa e esperar impacientemente para a resolução de todos os mistérios.

Origem das Espécies — Homem Animal Vol.1 #10 a 17 (Animal Man Vol.1 #10 – 17) — EUA, abril a novembro de 1989 
Roteiro: Grant Morrison
Arte: Chaz Truog, Tom Grummett (Secret Origins #39 e Homem Animal #14) e Doug Hazlewood (junto com Chaz nas edições #16 e 17).
Arte-final: Doug Hazlewood / Mark McKenna (#10) e Steve Montano (#14)
Cores: Helen Vesik (Secret Origins #39), Tatjana Wood
Letras: John Costanza / Janice Chiang (Secret Origins #39)
Capas: Brian Bolland, Lovern Kindzierski

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.