Crítica | Homem Animal: Praga Vermelha

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SPOILERS!

Com Praga Vermelha chega ao fim a fase de Jamie Delano à frente do Homem Animal. Foram 29 edições dividias em quatro arcos, a saber, Carne e Sangue (de longe, o melhor de todos dessa fase), Presas e Garras (onde se estabeleceu uma ferrenha luta pela sobrevivência), Formas Misteriosas (onde o autor nos fez pensar nas muitas trilhas da evolução) e por fim, Praga Vermelha, que continua a história a partir da morte de Maxine, explicada e resolvida por completo na edição #71, O Sermão do Monumento.

A primeira coisa que o leitor sente aqui é um alívio em relação ao motivo pelo qual Maxine retorna. Eu fui bastante contundente na crítica do arco anterior ao falar sobre o efeito dramático diminuído pelo pouco tempo em que a garota ficou morta, mas aqui nós temos recuperado um pouco desse efeito e ainda conseguimos ver um excelente aproveitamento do contato de Asa Pequena com o Coelho, no Anual #1 do título. A arte de Tom Sutton, nesse início, organiza melhor as coisas visualmente do que se fosse realizada pelo caótico Steve Pugh, cujo lápis (excelente em situações específicas de dramas caóticos e mais ou menos ligados ao terror) dará toda a identidade de sujeira, morte e revolução necessárias para o encerramento na edição #79, Terra Prometida.

Resolvido, pois, o problema de Maxine, temos ainda em andamento o enlouquecimento completo do Homem Animal, agora adotando uma forma híbrida de muitos bichos — Delano vem abrindo caminho nessa metamorfose do personagem desde Carne e Sangue — e falando quase que exclusivamente em nome do Vermelho, mantendo, ao que parece, apenas o seu sentido de amor por Maxine, Cliff e Ellen. O roteiro não demora em fornecer o clique para mudar o rumo das ações do Homem Animal e, a partir do momento em que Annie sugere a criação da Igreja Maxine do Poder da Vida, as coisas começam a ficar muito, muito estranhas e se torna um pouco difícil para o leitor aceitar tamanhos “desmandos” que esta versão selvagem do Homem Animal está causando nos Estados Unidos.

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A “praga vermelha” está chegando…

Não é nada provável que todos esses eventos tivessem acontecendo e qualquer outro personagem da Vertigo na época não fosse chamado ao menos para verificar de longe a bagunça da andança de quilômetros da IPV, que vai angariando fiéis e doações em dinheiro por todos os lugares. Por um momento, o leitor imagina se tudo isso não é mais um sonho ou viagem para uma outra dimensão feita por Buddy, como no arco de Peter Milligan, Nascido Para Ser Selvagem. Mas fora do campo das hipóteses, o que temos é uma entrega total do protagonista à teia da vida, à sua… digamos… possessão — resultando na transfiguração de seu corpo — e, enfim, à colocação de um plano louco em prática.

Mesmo diante dos questionamentos sobre a probabilidade disso tudo acontecer livremente, sem interferência alguma de outras forças que não as seculares, é inegável que temos uma história forte e repleta de eventos para se pensar. Também que é perfeitamente possível imaginar as fases de cada autor como um “Universo à parte”, com uma continuação de ideias básicas da fase anterior, mas trazendo um pano de fundo completamente diferente e que não precisa de interferências ou justificativas externas. Tudo isso é possível e válido. O que não podemos é deixar de levantar problemas e impedimentos narrativos de algumas situações ou, em um exercício crítico, de questionar certas decisões do autor.

A desconstrução da família, sob diversos aspectos, é um dos braços do arco e a cada capítulo nos deparamos com incômodos ético-morais e culturais bem interessantes, começando com o afastamento de Ellen para o recanto das feministas radicais — basicamente largando o filho –, seguindo-se pela liberdade não muito saudável para a idade de Cliff e Maxine e pela forma como eles são colocados como figuras centrais da nova igreja.

Se deixarmos de lados algumas pequenas impossibilidades visuais colocadas na arte da última edição, podemos dizer que Praga Vermelha alcança um término bem satisfatório nesse aspecto, apesar dos pontos questionáveis aqui já citados. Se isolarmos a ideia da igreja, as questões ambientais levantadas no roteiro desde Presas e Garras e todo o longo processo de mudanças, evolução do corpo, mente e espírito dos personagens, temos um quebra-cabeça bastante curioso, onde momentos do passado se integram ao presente (alguns um tanto forçados, mas não mais improváveis que outras situações do enredo). Mais uma vez, morte e a vida são entrelaçadas em um discuso belo, triste e realista que nos faz entender, de uma vez por todas, a dinâmica de funcionamento do Vermelho, inclusive em aspectos emocionais — encarnados em algum ser inteligente.

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Vida e morte em um ciclo que é ao mesmo tempo belo e aterrorizante.

A ironia que Delano coloca diante de nós, sobre Buddy/Homem Animal salvar o planeta é algo a se pensar. Pelo que expõe aqui, ele nos dá a entender que a Terra é uma “causa perdida”, que ninguém pode salvá-la. As criaturas mais próximas disso foram os Caminhantes Silenciosos, que conhecemos em Formas Misteriosas, mas eles não são deuses, são apenas parte do Vermelho e sofrem tanto quanto o restante da natureza com o envenenamento do planeta pelo homem que, não percebe, mas também mata a si próprio, e às suas futuras gerações, com todo o lixo gerado pelo “progresso”. Olhando para este cenário, Delano escancara a janela do cinismo e pensa: “como seria se o herói que verdadeiramente pudesse salvar o planeta a partir da teia da vida, decidisse fazê-lo?“. É uma pena que o Monstro do Pântano não tenha sido convidado para esta festa, mas a presença dele por aqui também seguiria pelo mesmo caminho. Isoladamente falando, o conceito de “Terra perdida” é denso e mostra, ao menos nas entrelinhas, o por quê de toda essa chacota ecológica ligada a ideias filosóficas, religiosas e questões sociais tão sérias.

Do horror ao cinismo mesclado com economia verde, eterno retorno, feminismo e messianismo, Delano finaliza a sua participação na revista do Homem Animal. Provavelmente houve uma conversa dele com Jerry Prosser, autor das 10 edições seguintes (e finais) do título para a continuidade de toda essa bagunça deixada, mas, para o leitor, fica aquela sensação de decisão não muito sábia. Seja como for, há um bom tom de resiliência e aprendizado. Todo mundo amadureceu durante esta jornada. A faxina ainda precisa ser feita, mas nada impede um bom uísque, banho quente de banheira e uma conversa com pessoas queridas antes de voltar a pensar no que fazer com tantos eventos excêntricos.

Homem Animal: Formas Praga Vermelha (Animal Man Vol.1 #71 a 79) — EUA, maio de 1994 a janeiro de 1995
Vertigo Comics
No Brasil:
 Panini, 2017
Roteiro: Jamie Delano
Arte: Russell Braun, Steve Pugh, Peter Snejbjerg
Arte-final: Tom Sutton, Steve Pugh, Gene Fama, Peter Snejbjerg
Cores: Tatjana Wood
Letras: John Costanza
Capas: Michael Uman, Mark Chiarello, John Van Fleet, Miran Kim, Peter Kuper
Editoria: Lou Stathis, Axel Alonso, Julie Rottenberg
233 páginas (encadernado na Panini)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.