Crítica | Homem Animal: Presas e Garras

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Fomos nós que enlouquecemos o mundo. Nós o provocamos e atormentamos, pilhamos e desbaratamos. Testamos sua paciência sem parar. Agora chegamos ao fim da nossa corda, e agora acordamos algo imenso e há muito esquecido. Algo frio e muito antigo. Algo que, gostemos ou não, vamos ter que encarar.

Homem Animal

Existem duas histórias sendo contadas em Presas e Garras, o arco que trouxe pela primeira vez o selo Vertigo para o Homem Animal. A primeira delas vai da revista #57 (Bando Selvagem) até #60 (Vida Selvagem), passando por Lado Selvagem e Cidade Selvagem. E a segunda vai da edição #61 (Presas e Garras) até a #63 (Leviatã), passando por Detritos. Nesses dois blocos Jamie Delano mostra dois tipos diferentes de horror e quase nos faz esquecer que estamos lendo um gibi de super-herói.

Nas edições do mini-arco Selvagem, o autor coloca cada membro da família de Buddy e o próprio Buddy em situações onde precisam agir com bravura e de maneira inesperada para dar conta dos horrores que acontecem com eles. E o grande destaque desta parte é Ellen, que até então não tinha tido um papel de grande destaque e realmente forte nas revistas do Homem Animal. A partir da edição #57, estreia do selo Vertigo junto com algumas outras revistas da DC que traziam data de capa de Março de 1993 (Shade, o Homem Mutável #33; The Sandman #47; Hellblazer #63; Monstro do Pântano #129 e Patrulha do Destino #64), vemos Buddy se perder em “sonhos animais”, onde ele se mistura com o Vermelho e “encarna” em algum animal do planeta, vivendo aquilo que o bicho vive naquele momento. A ligação é interessantíssima e mostra mais um lado da relação do herói com o Campo Morfogenético (Campo M) da Terra.

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Capa da edição #57 (Bando Selvagem), a primeira do Homem Animal a levar o selo Vertigo.

Ellen está indo trabalhar em Nova York por uns dia e Buddy fica com as crianças. A situação financeira dos Baker fica por completo nas mãos dela enquanto o esposo, ao menos nesta fase, está preso ao fato de ninguém saber que ele está vivo (o Homem Animal morrera oficialmente para o mundo em Carne e Sangue). Todos agora vivem na fazenda da mãe de Ellen, em Vermont. Outro ponto curioso sobre a diferente dinâmica familiar da revista é a forma bastante irresponsável com que o casal Baker cria os filhos, permitindo-lhes certos comportamentos, palavras e liberdades que parecem precoces demais para uma criança como Maxine e um adolescente de 14 anos como Cliff. Tenho certeza que parte do meu julgamento aqui é amparado por uma questão cultural, mas isso não tira o faro de Buddy e Ellen serem muitíssimo permissivos, ao menos este foi o padrão na fase de Tom Veich e segue até aqui na fase de Delano.

Trabalhando as diferenças entre o comportamento das pessoas no interior do país e em uma grande metrópole, o texto discute com bastante precisão temas que jamais imaginaríamos aparecer em uma revista como esta. Ellen luta contra o machismo e a misoginia, escapa de uma tentativa de estupro, é presa injustamente após policiais plantarem droga em sua bolsa e acaba pedindo ajuda para um grupo de feministas radicais (cuja abordagem consegue ao menos respeitar a vontade da mulher que as procura, nesse caso, não matando o homem que estava fazendo da vida de Ellen um inferno, mas conseguindo “neutralizá-lo”) ao mesmo tempo que Buddy sai de Vermont e vai para NY em busca da esposa. Os desencontros, os horrores pelos quais Ellen passa — a violência contra a mulher é algo Universal e não importa o contexto em que é representado, sua identificação com o tempo e espaço de qualquer leitor é entendida rapidamente — e a fase final da história, com Buddy sendo preso, julgado como louco e encaminhado para um hospício são as melhores coisas que este encadernado nos traz.

O desvirtuamento dos valores sociais é utilizado aqui como ponte para mostrar o Homem Animal como um esposo e pai que tem um poder e que vai fazer uso dele para salvar a quem ama, mas dada a imprevisibilidade desses dons que ele pega da fauna e das circunstâncias em que são utilizados toda a história ganha ares de loucura social com um misto de fantasia que captura qualquer leitor. E de maneira quase poética o texto de Delano ainda consegue ligar a situação de desespero que ambos os Bakers estão passando a uma situação de dificuldade que um macho garça atravessa, preocupado e amedrontado, cuidando dos filhotes enquanto a parceira foi buscar comida.

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Feminismo, loucura e relações familiares incomuns são as temáticas do arco Selvagem.

A segunda parte da história, que carrega o nome do encadernado brasileiro (Presas e Garras) apesar de ser muito interessante, não tem o mesmo nível que o bloco humano e crítico que Delano acabara de concluir. Este novo momento começa com uma viagem de férias da família Baker até o litoral. No trajeto, Buddy começa a perceber alguns descontroles no seu poder, mas não no estilo dos que ele já tivera. Trata-se mais de um acesso de raiva animal incontrolável do que uso desordenado das forças do Vermelho. É então que aparecem Lucy e Annie Cassidy, que viverão junto dos Bakers o despertar do Leviatã, aqui representado como um lendário monstro que quer vingar a vida e a natureza afogando o homem, motor de tantas desgraças, poluição e devastação da vida.

A história da luta contra o Leviatã é interessante do ponto de vista de discussão ecológica, de economia verde e preservação das espécies. Este lado da trama é interessante e recebe uma boa atenção do roteiro e da arte, na mostra do desespero de Lucy, uma artista amargurada pelo fato de uma indústria local ter, com seus dejetos, gerado um câncer em sua filha — essa temática é bastante retratada em mídias americanas, onde o lixo químico/tóxico sempre faz novas vítimas. Ocorre que essa jornada não é assim tão interessante quanto a anterior e mesmo que volte a trabalhar com os poderes de Buddy e adicione mais uma camada à mitologia do Campo M, não se eleva tão alto assim. Porém, trata-se de uma boa história, com uma arte cuidadosa na representação dos momentos de descontrole de Lucy e Budy e da fúria animal que atacava a todos, causando um medo interessante e incomum no leitor também, cabendo até uma referência a Os Pássaros, de Hitchcock.

Presas e Garras mostra mais uma vez que Delano é capaz de criar um cenário de horror diferente, colocando o inimaginável dentro das regras do jogo de mercado, numa publicação como a do Homem Animal. Mesmo quando não logra uma finalização perfeita, o autor nos põe em uma situação de luta contra a extinção em uma reflexão sobre a cobrança da natureza pelo que é seu, conversa que, se era importante em 1993, imaginem agora, em pleno negacionismo do aquecimento global no século XXI e permissão sem precedentes dos governos para que determinados grupos econômicos explorem até onde der os recursos disponíveis. Algo muito ruim ainda vai acordar e nos fazer ver que esta foi a pior estratégia a ser usada, desde o início.

Homem Animal: Presas e Garras (Animal Man Vol.1 #57 – 63: Tooth and Claw) — EUA, 1993
No Brasil:
 Panini Comics, 2017
Roteiro: Jamie Delano
Arte: Steve Pugh (#57, 61 a 63), John Higgins (#58), Russell Braun (#59, 60)
Arte-final: Steve Pugh (#57, 61 a 63), Graham Higgins (#57, 59), John Higgins (#58), Tom Sutton (#60)
Cores: Tatjana Wood
Letras: John Costanza
Editoria: Tom Peyer, Julie Rottenberg
Capas: Brian Bolland
191 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.