Crítica | Homem-Aranha 2099 #1 a 10 (1992)

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estrelas 3

Em 1992, a Marvel lançou a linha 2099, visando ter mais um universo para criar novas histórias, personagens e poder construir uma linha do tempo do zero, além de permitir tramas mais ousadas, devido ao tom futurista. Obviamente, o Homem-Aranha, carro chefe da editora, foi um dos primeiros heróis a serem adaptados. Mas será que a nova versão do cabeça de teia é digna de seu manto?

O quadrinho conta a história de Miguel O’Hara, um engenheiro que teve o destino drasticamente alterado após um trágico experimento que visava ampliar a força de um condenado, usado como cobaia. O resultado foi a morte desse indivíduo. Por causa do acidente, ele decide a abandonar a Alchemax, companhia que financiou o projeto. Contudo, influenciado através de drogas pelo magnata Tyler Stone, Miguel decidiu realizar novamente a experiência para reestruturar sua estrutura molecular e assim livrar-se da dependência do Êxtase. No entanto, a tentativa deu errado, misturando a programação de O’Hara com os códigos do Projeto Aranha.

A primeira sensação que temos ao ler o título Homem-Aranha 2099 é a de que teremos pela frente uma história extremamente futurista, certo? Contudo, é frustrante atestar que esse elemento seja tão mal aproveitado na narrativa. Aliás, não há sequer uma grande diferença entre a tecnologia apresentada, em 2099, para com as demais épocas das HQ’s, uma vez que holograma e carros voadores são itens mostrados outras vezes. Portanto, falta audácia para Peter David imaginar um futuro mais distópico e diferente, ou seja, ele peca por manter seu universo muito pé no chão, quando poderia ousar mais. Um exemplo dessa falta de ousadia em imaginar um futuro diferente pode ser encontrado nos vilões, que não passam de um cowboy do futuro, samurai do futuro e uma versão do Abutre mais moderna.

Aliás, os problemas encarados pelo herói aqui neste arco são muito semelhantes com outros encarados pelo Homem-Aranha original, como a perseguição realizada por organizações poderosas, no entanto, em vez de ser a famosa Oscorp, a empresa vilã aqui é a Alchemax. Além disso, para uma história que, em seu início, faz questão de ressaltar como não tem semelhanças com a original (trazendo, inclusive, um pequeno momento com um holograma de tia May), não deixa de ser decepcionante atestar que, de diferente, ela tem pouco.

A narrativa insere algumas informações que são totalmente desnecessárias, como uma breve aparição de Doutor Destino falando que tem interesse naquele Homem-Aranha, para, logo em seguida, ser completamente descartado. Há também uma tentativa de desenvolver um triângulo amoroso envolvendo Miguel, Gabriel (seu irmão) e Dana (sua namorada) que jamais é levada para frente, soando como algo desnecessário para a trama.

Diante de uma história que pouco explora a questão futurista, resta ao desenhista Rick Leonardi ser o responsável por realmente transmitir a sensação de modernidade da HQ, optando por um desenho minimalista, destacando apenas as silhuetas dos personagens, em alguns momentos, mas mostrando-os sempre iluminados, transmitindo a sensação de constante vigilância daquele universo. Além disso, quadros verticais que ocupam a página inteira são usados constantemente, dando uma sensação de altura e destacando a arquitetura da cidade, aliás, repare como os quadros diminuem quando o Aranha cai na ‘‘cidade baixa’’, mostrando como ele está na região pobre da cidade. Vale destacar também a edição #9, única desenhada por Kelley Jones, que traz um design pontilhado que insere uma sensação de profundidade na HQ.

No entanto, a HQ não possui apenas erros, pelo contrário, a obra tem em seu núcleo familiar o ponto alto da história, destacando como as brigas que Miguel presenciou de seus pais e a rispidez de seu padrasto foram o combustível para que ele aceitasse o manto de Homem-Aranha, ao contrário do original, que teve na perda de um familiar sua inspiração. A qualidade da edição #10, por exemplo, a única que realmente explora a fundo a infância e adolescência de Miguel, é acima das demais justamente por mergulhar nos traumas do protagonista..

Além disso, se a história peca na maneira que explora a questão futurista, ela pelo menos mostra-se extremamente atual em sua abordagem sobre grandes corporações, mostrando a intenção destas em acumular cada vez mais poder e influência política sob uma roupagem de estar fazendo o bem para a população com seus serviços, algo que pode ser visto na relação entre a Alchemax e os Olhos Públicos (uma espécie de polícia privada do futuro). Outro grande acerto da HQ é trazer um protagonista de ascendência mexicana, tornando a série diversificada e abrangente e tornando Miguel O’Hara o primeiro personagem latino-americano a vestir o manto do Homem-Aranha.

Para finalizar, os poderes do Homem-Aranha de 2099 também são um ponto positivo para a HQ, uma vez que explora com eficiência a mutação entre homem e aranha, através das glândulas em seus braços, garras em seus dedos e a teia orgânica que o herói produz. Baseado nisso, temos na edição #4 uma das mais divertidas do arco justamente por mostrar Miguel descobrindo suas habilidades.

Diante da decepcionante abordagem futurista de Homem-Aranha 2099, é uma pena que este primeiro arco da história não tenha se jogado na história familiar de Miguel, perdendo tempo com vilões desinteressantes e clichês. Contudo, ainda assim, a sensação ao ler a última edição deste arco é a de que a história tem potencial para tornar-se melhor, justificando sua continuidade.

Homem-Aranha 2099 #1 a 10 (Spider-Man 2099 #1-10) — EUA, 1992
Roteiro:
Peter David
Arte:
Ricky Leonardi, Kelley Jones
Arte-final:
Al Williamson
Cores: 
Steve Buccellato
Letras: 
Rick Parker
Editora original:
Marvel Comics
Data de publicação original: novembro de 1992 a agosto de 1993
Editora no Brasil: Abril
Data de publicação no Brasil: outubro de 1993 a abril de 1994
Páginas: 242

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.