Crítica | Homem-Aranha 3

estrelas 2

Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.

Parece que Sam Raimi não seguiu o conselho do tio Ben e, com todo seu poder de fazer um terceiro filme perfeito, para fechar uma trilogia mágica do Homem-Aranha, acabou decepcionando feio, criando um filme que só tem visual e nenhuma substância (ou, dependendo do ponto-de-vista, substância demais). Homem-Aranha 3 é um desastre em quase todos os sentidos e está longe de ser um herdeiro digno de seus antecessores.

Diz a lenda que Raimi acabou sendo forçado pelo produtor Avi Arad a incluir o vilão Venom no roteiro porque o personagem era muito querido dos fãs e isso atrairia mais público. No entanto, isso é só metade do que realmente aconteceu. Raimi, que foi terminantemente contra a inclusão de mais de um antagonista nos filmes anteriores, dessa vez queria dois vilões. O primeiro deles seria – e acabou sendo – Flint Marko, o Homem-Areia, vivido por Thomas Haden Church. O plano era ter o Abutre como vilão secundário, mas Arad veio, então, com a ideia de Venom que, apesar de Raimi ter rejeitado no começo, acabou abraçando.

Mas os problemas não pararam por aí. Raimi havia magistralmente construído um arco de personagem envolvendo Harry Osborn (James Franco) e precisava encerrá-lo. E o caminho natural era transformar Harry em um novo Duende, exatamente como nos quadrinhos e como a história mesmo das obras anteriores dava a entender. Com isso, já havia três vilões para tratar, sendo dois deles totalmente novos, exigindo duas origens.

E a questão se complica ainda mais, pois, bem na tradição dos quadrinhos, Raimi, que co-escreveu o roteiro com seu irmão, Ivan, fez um retcon, ou seja, retificou a continuidade do que vimos anteriormente e inseriu retroativamente Flint Marko na crônica da morte do tio Ben (Cliff Robertson). E a cereja no bolo narrativo foi a inclusão de mais três novos personagens (no universo cinematográfico aracnídeo, claro), Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard), colega de turma de Parker, seu pai, o Capitão Stacy (James Cromwell) e Eddie Brock (Topher Grace), um fotógrafo que se tornaria o já mencionado Venom.

A quantidade de novos personagens, de vilões e de situações novas na vida de Peter Parker (Tobey Maguire) requereria um roteiro impecável e uma direção muito objetiva. No entanto, não é isso que vemos em Homem-Aranha 3. As várias narrativas paralelas são desenvolvidas de forma simplista e Raimi, mais ainda do que no segundo filme, carrega na veia cômica, criando longas cenas quase que de comédia pastelão, culminando com uma ridícula dança de Parker para causar ciúmes em Mary Jane. É um daqueles momentos que dá vontade de fazer que nem um avestruz e enfiar a cabeça em um buraco, por vergonha alheia.

E Venom? Sua origem cósmica nos quadrinhos é simplificada no roteiro, mas é mantida em sua essência: uma gosma espacial une-se a Peter Parker, criando uma relação de simbiose na forma de um uniforme negro. Quando ele repara que o simbionte está, na verdade, sugando suas energias, o Aranha o renega e ele acaba juntando-se a Eddie Brock, um fotógrafo que já desgostava de Parker. O resultado é um vilão que odeia duplamente o Homem-Aranha. No filme, o que os Raimi fizeram foi inventar um meteoro que cai na Terra bem atrás de onde Pete Parker está (e ele conveniente não percebe e olha que ele tem sentido de aranha!) e o simbionte sai de lá saltitante e feliz para grudar-se no desavisado herói. É tão aleatório que é impossível não se distrair com isso e perder o foco da história. E o mais incrível é que o roteiro investe um tempo desproporcional – metade do filme – para lentamente construir os personagens e vilões novos para, em seguida, no tempo restante, correr como um desesperado para tentar fechar as pontas soltas.

Tudo acaba, claro, em um clímax envolvendo o terceiro(!!!) rapto de Mary Jane da trilogia, mas como se tivesse sido dirigido por Michael Bay. É difícil acompanhar a ação, há muitas reviravoltas e explicações e tudo demora muito.

Mas nem tudo é imprestável em Homem-Aranha 3. Apesar de John Dykstra ter rejeitado o convite para trabalhar também na terceira parte, os efeitos visuais, coordenados por Scott Stokdyk, são de primeira linha, com especial destaque para a bela cena do “nascimento” do Homem-Areia e para o design de Venom, muito próximo ao dos quadrinhos.

Sam Raimi acabou se traindo no terceiro filme, fazendo uma obra quase irreconhecível. Às vezes, quando a pessoa está muito envolvida em algo, perde completamente a objetividade e a capacidade de julgar seu próprio trabalho. Raimi parece ter sofrido esse revés aqui, mas, pelo menos, ele nos legou duas memoráveis fitas do Aranha.

*Crítica publicada originalmente no dia 28 de abril de 2014. Corrigida e alterada para republicação.

Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, EUA – 2007)
Direção: Sam Raimi
Roteiro: Sam Raimi, Ivan Raimi, Alvin Sargent
Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Rosemary Harris, Willem Dafoe, J. K. Simmons, Thomas Haden Church, Topher Grace, Bryce Dallas Howard, James Cromwell, Cliff Robertson
Duração: 139 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.