Crítica | Homem-Aranha: A Criança Dentro de Nós

estrelas 4

Quando lidamos com quadrinhos de super-heróis, independente de qual editora estamos falando, costumamos sempre ver a velha história do bem contra o mal. O vilão emerge, o herói percebe sua ameaça e logo parte para combatê-lo, na maioria dos casos, não se importando de onde ele veio ou o porquê de fazer aquilo – algo, que, claro o antagonista acaba revelando em sua necessidade de entregar todos os seus planos antes de ser derrotado. Nesse comum cenário, poucas vezes vemos o roteiro se preocupando em trabalhar a maldade no vilão, tratando-o como humano e não como monstro, algo que estamos mais acostumados a ver. O arco A Criança Dentro de Nós, publicado nas edições #178-183 da revista The Spectacular Spider-Man lida justamente com isso.

A história tem início com Peter preocupado com o fato de Rattus (Vermin, no original), ter escapado de seu confinamento. A perigosa criatura, fruto dos experimentos do Barão Zemo, passava por um tratamento incentivado por Reed Richards, mas, por alguma razão, decidira fugir. Temendo que ele acaba assassinando mais pessoas, o Homem-Aranha se vê inquieto, se recusando a interromper sua busca – enquanto isso, ele começa a enxergar o lado humano de Rattus, se questionando se ele não é mais uma vítima e não o monstro que imaginava ser. Do outro lado temos Harry Osborn, abalado por visões de seu pai, que parece quer incentivá-lo a vestir o manto do Duende Verde.

O roteiro de J.M. DeMatteis cria um evidente paralelo entre o foco em Rattus e aquele em Harry. Enquanto um vive como monstro e luta para resgatar sua humanidade, o outro tem de se controlar para não se transformar naquilo que seu pai acabara se tornando. Essa escolha narrativa, naturalmente, lida com os diferentes estágios do vilão, desconstruindo essa figura, que passa a ser enxergada como um ser capaz de redenção. O maniqueísmo tão presente em histórias em quadrinhos do gênero se extingue, ao passo que é assumido que todos contam com inúmeras facetas e devem lutar para preservar aquela que melhor os representa.

Essa questão se faz presente na própria mentalidade de Peter, que se mantém em um constante dilema em relação ao caráter de Rattus. Ele próprio deve desmistificar a ideia do monstro formada em sua cabeça, para que possa enxergar o ser humano, a vítima, existente dentro do antagonista. Esse lado humano é muito bem representado pela visão de uma criança, que justifica o título do arco. Em outras palavras, a história busca mostrar que, por trás de toda essa vilania, existiu uma criança e que agora ele está tão perdido quanto um menino procurando a sua mãe. O texto se sai muito bem ilustrando essa ideia, fugindo do comum ao qual estamos acostumando, transmitindo autenticidade à trama, algo muito ausente nas histórias de hoje em dia.

A arte de Sal Buscema consegue captar a essência dessa duplicidade dos personagens, sabendo evidenciar suas expressões faciais de tal forma que entendemos plenamente qual persona está no comando. Basta pegar Rattus, por exemplo. Quando seu lado monstruoso toma controle, ele se torna ameaçador, com um olhar feroz e impiedoso. Quando seu lado humano assume, porém, ele se torna mais frágil, a verdadeira vítima de todo aquele cenário, profundamente abalado com aquilo que ele agora é. Por vezes Buscema acaba exagerando nas reações, as quais assumem um ar exageradamente dramático, mas nada que estrague a experiência. Outro exagero são os músculos sempre em evidência e desproporcionais – não se trata de nada tão gritante quanto o traço de Rob Liefeld, mas, em determinados painéis, isso chega a incomodar.

Esse elemento, porém, não deve afastar ninguém da ótima leitura que é A Criança Dentro de Nós, que nos traz uma abordagem muito pouco vista nos quadrinhos de herói. Favorecendo mais a construção de personagens do que as brigas entre mocinho e vilão, esse arco apresenta uma das melhores temáticas que as obras do gênero podem trazer: o questionamento sobre a natureza do ser, dispensando maniqueísmos e mistificações. J.M. DeMatteis acerta em cheio, proporcionando dilemas morais que perfeitamente dialogam com a nossa própria realidade.

The Spectacular Spider-Man #178-183 — EUA, 1991
Roteiro: J.M. DeMatteis
Arte: Sal Buscema
Cores: Bob Sharen
Capas: Sal Buscema
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: julho a dezembro de 1991
Editora no Brasil: Editora Abril
Data de publicação no Brasil: fevereiro de 1995
Páginas: 164

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.