Crítica | Homem-Aranha: A Morte de Jean DeWolff

estrelas 5,0

“Eu me pergunto por que estou tão relaxada. E me indago… Por que estava pensando na minha vida justamente agora?” – Jean DeWolff relembra sua história para o público, abrindo este clássico arco do Homem-Aranha.

Contém spoilers

Se A Noite em que Gwen Stacy Morreu quebrou os paradigmas de até onde um quadrinista de super-herói poderia levar seu personagem, A Morte de Jean DeWolff fez questão de destroçar o limite do teor das histórias em quadrinhos sobre justiceiros mascarados. O estreante Peter David origina de sua escrita, após apenas alguns meses a frente da revista Peter Parker, the Spectacular Spider-Man, uma das maiores histórias do aracnídeo, hoje contemplada por ter dado início a entrada do herói em uma era mais sombria. Não é por menos, pois, em apenas quatro páginas David projeta, utilizando da própria personagem título como narradora, uma descrição – crítica e contemplativa – de sua própria vida, violentamente terminada em um quadro que posiciona seu corpo morto estirado sobre o chão do apartamento. Jean DeWolff está morta, mas quem a matou?

Conhecida do público desde meados dos anos 70, a Capitã Jean DeWolff era uma das maiores apoiadoras do Homem-Aranha, auxiliando o herói diversas vezes. Sua morte, no entanto, não é impactante como a do Capitão Stacy ou a da própria Gwen Stacy já fora, mas não havia o porquê de ser. A crueldade estava em ver a personagem ali, no chão, com os olhos arregalados, o sangue escorrendo por seu corpo e os braços abertos de uma maneira nenhum pouco honrosa. Até o momento nenhuma morte havia sido retratada com esse grau de violência, o que deu caminho para que se traçasse uma das histórias mais complexas e adultas do Homem-Aranha dos anos 80.

Dewolff_01

A imagem que ilustra perfeitamente o teor do arco.

À medida que a narrativa progride somos apresentados a diversos outros personagens, como por exemplo o Sr. Popchik, vítima da criminalidade urbana, que acaba passando por uma jornada de revolta à submissão cotidiana do povo à violência. A presença do Demolidor na história é outro marco que acrescenta ainda mais valor ao argumento, proposto em discutir a moral e a justiça. Aqui, Matt Murdock e Peter Parker assumem papéis antagônicos acerca de seus pensamentos sobre o que fazer com o Devorador de Pecados, o assassino em série, que após matar Jean DeWolff também mata um juiz, sendo este amigo pessoal do advogado da Cozinha do Inferno.

O Devorador de Pecados é construído com extrema minúcia por David, que alonga ao máximo a revelação de que o Sargento Stan Carter é enfim o criminoso por detrás da máscara e dos crimes. O jogo com o leitor é muito bem feito, utilizando de pequenas aparições no confessionário de uma igreja para pseudo-indicar que a identidade do vilão é a de um doente mental chamado Gregg. Quando o Demolidor percebe que aquele homem não é o verdadeiro Devorador de Pecados, e consequentemente, em uma busca dentro do apartamento do suposto vilão, a verdade por trás dos crimes é descoberta, o desespero de Homem-Aranha em alertar Betty Leeds do perigo que ela corre (o próximo alvo seria J. J. Jameson e Betty estava na casa do homem, enquanto ele viajava) é suficiente para provocar inquietação no leitor. Para complementar, o público é terrivelmente agraciado em ver Betty ser supostamente morta pelo disparo brutal de rifle do Devorador de Pecados, apenas para logo depois, ter a edição abruptamente encerrada e a conclusão adiada. Eu não queria ter estado na pele dos leitores dos anos 80 que sentiram uma ferrenha ânsia em saber qual seria o desfecho da sequência.

DeWolff-2-pcA melhor luta do Homem-Aranha contra o Demolidor.

É nesse clima de bastante tensão e suspense que vemos o Homem-Aranha, ainda com o seu traje preto (não confundir com o traje simbionte adquirido nas Guerras Secretas), ir perdendo a sanidade diante de tanta insanidade. Um Homem-Aranha poucas vezes visto, mas que felizmente, encontra em um Demolidor mais frio e mais centrado em seus deveres como vigilante, um contraponto que o impede de ser destruído pela vingança. Algumas atitudes do amigão da vizinhança, como não pensar nas possibilidades que podem ocorrer a um criminoso quando este delata seus parceiros, ressurgem, e invocam um sentimento de dubiedade perante o que é mais correto a ser feito.

Os embates com o Devorador de Pecados são mais realistas, visto que o próprio personagem a ser combatido pelos heróis da história, não é um super-vilão. A história em si não comporta-se como os moldes de histórias de super-heróis se comportariam. A não ser pela super força que o assassino possui, adquirida em seus dias de agente da S.H.I.E.L.D., tanto o Homem-Aranha quanto o Demolidor poderiam ser facilmente substituídos por policiais em busca de vingança ou justiça, respectivamente. O duelo entre os dois, após a derrota do criminoso, é outro ponto alto desse arco, fugindo dos padrões de confrontos entre heróis. Aqui, a perspectiva é a de necessidade de uma luta, tendo em mente que se o Homem-Sem-Medo não intervisse, o aracnídeo teria assombrosamente sujado suas mãos. Não há o mal-entendido, ou um isolado duelo de ideologias. É o Homem-Aranha interpretando um vilão, e o Demolidor sendo sua consciência heroica, em uma batalha graficamente impressionante.

Com um traço competente de Rick Buckler (mesmo que seja por sua parte que haja a introdução de mais um vilão multi-colorido, e pouco memorável no quesito estético), A Morte de Jean DeWolff ainda faria ligação, anos depois, com a origem de um outro vilão, amado por uns e odiado por outros – o Venom. Por si só, contudo, esta permanece sendo uma das histórias mais importantes do personagem, feita em uma das melhores décadas dos quadrinhos, e quebrando alguns conceitos até então normativos para as próprias histórias do Homem-Aranha. Não é necessariamente uma história atemporal, que continuará impressionante décadas e décadas adiante, mas sem dúvidas alguma, é uma história que deixou uma marca eterna na Nona Arte – uma crua e complexa marca.

Homem-Aranha: A Morte de Jean DeWolff (Spider-Man: The Death of Jean DeWolff) — EUA, 1985/6
Edições: Peter Parker, the Spectacular Spider-Man #107-110
Roteiro: Peter David
Arte: Rick Buckler
Arte-final: Brett Breeding
Cores: Bob Sharen
Letras: Donizeti Amorim
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: outubro de 1985 a fevereiro de 1986
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: março de 2013
Páginas: 172

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?