Crítica | Homem-Aranha: A Saga do Planejador Mestre

estrelas 5,0

A Saga do Planejador Mestre é uma tradução aquém do belíssimo e dramático If This Be My Destiny…! original de Stan Lee. Considerado o primeiro arco mais longo e bem trabalhado do Aranha, essa pequena saga de três edições é geralmente lembrada ora por introduzir Harry Osborn e Gwen Stacy ao universo do cabeça de teia, ora por uma específica sequência visual que Steve Ditko nos oferece, onde o herói precisa resistir a um equipamento esmagando-o. Contudo, certamente há mais – muito mais – para se falar dessa história, um marco do brilhantismo da parceria Lee/Ditko. Nela é fincado no coração do leitor o que Peter Parker é em sua essência simbólica, tal como vislumbrado desde sua origem.

O primeiro dia de aula na faculdade e a doença inexplicável de Tia May são os meros pontos de partida para um caos repentino que, aqui, ganha uma dimensão antes inimaginável no que parecia ser uma promessa de dias mais tranquilos e felizes. É sabido que o Homem-Aranha nasce carregando consigo a sabedoria dos perigos que o ressentimento e a amargura representam. Acaba sendo desnecessário ressaltar novamente como o Aranha se distingue pela sua humanidade frágil e falha – e como a Marvel se tornou a Marvel com tal ideia de heróis mais relacionáveis. Nesta história, a dupla criativa potencializa a vida banal de Peter e insere, exatamente em uma sinopse pouco sofisticada, elementos memoráveis e definitivos sobre o significado de ser super-herói.

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Uma preocupação constante com as brechas egoístas e a vaidade, no mesmo sentido, pontuam a escrita densa de Lee, que enche a história de curvas dramáticas e interações entre personagens, sem perder a veia humorística. A dificuldade na vida de Peter, afinal, é expressa de modo tão humano que chega a ser cômico. Os primeiros dias de Peter na faculdade, sem muita paciência para papo mole e todo o clichê que envolve primeiros dias em qualquer lugar, é um prazer inesgotável de ser lido. A bem da verdade, notar como um grande contingente de histórias do Aranha se faz presente na sua primeira década de vida dá uma boa medida da parceria espetacular de Lee e Ditko no comando do herói. O roteiro cuidadosamente toma conta da personalidade de Peter em suas diversas facetas. A vida do estudante é tão ou mais interessante do que a vida do mascarado, com o roteiro estabelecendo a gênese dessa linha fina no que diz respeito ao lugar do verdadeiro caráter super-heróico: no indivíduo comum ou no alter-ego.

Além de manter o ritmo das histórias anteriores e adicionar, com mais paciência e cuidado, notas a reverberarem no leitor, trabalhando o peso da responsabilidade e a falta de solução redentora, A Saga do Planejador Mestre é um norte para qualquer admirador da nona arte por conter, principalmente, uma das mais inesquecíveis sequencias heroicas de todos os tempos. Antes de falar dela em si, é bom deixar claro que estes três números ultrapassam a mera curiosidade histórica, devendo ser lidos por sua qualidade intrínseca. Se o didatismo de Lee atrapalha mentes acostumadas a “lerem” Instagram, ou se a arte de Ditko é infantil – uma heresia – demais para o leigo amante do universo ultimate, só se pode lamentar a impaciência. Deixar de lado esta peça, taxando-a como datada, é nublar a própria visão para uma obra-prima dos quadrinhos.

spiderman31Muito do que caracteriza este pedaço da história do Homem-Aranha como obra-prima é a já citada sequência que Ditko indica ao fim da edição #32 e expõe na edição final #33. Ela inteira é inesquecível e espetacular. Uma aula, assim como todas as outras edições, mas uma aula magna. Ditko mostra mestria durante toda a narrativa em trabalhar tanto cenários cotidianos, seja com foco no ambiente em si ou nas expressões das personagens, sempre com um senso de continuidade primoroso, quanto em situações de fato super-heróicas, mostrando a urgência sob diferentes ângulos, ora enchendo páginas, ora manuseando, quadro a quadro, o sentimento de angústia e dor que transpassa o protagonista. O aumento da tensão na narrativa é uma combinação admirável da habilidade de Lee expor o pensamento gradualmente trágico de Peter com o total domínio de Ditko do espaço e da simbologia do evento criado. Se Lee fosse um pouco menos verborrágico e deixasse os quadros do seu parceiro criativo falarem ainda mais por si só, imagino que os fãs teriam uma sequência ainda mais magistral, como se Ditko fosse um guitarrista fazendo seu solo, elevando a melodia ao seu clímax, possível graças à construção feita com tanto esmero até ali, exposta principalmente na forma dos painéis crescendo de página em página até o painel final, uma página inteira que enche o leitor de emoção.

Tal como o Wolverine contra o Clube do Inferno de John Byrne em X-Men #132, a força imagética da capa da edição #33 do Homem-Aranha é um dos grandes momentos não só do herói como também da editora. É a síntese do personagem colada em um quadro, a força do herói e seu motor filosófico representados em um olhar. São momentos como esse que formaram a origem do momento heróico que seria repetido por décadas nos quadrinhos até chegar às telonas, como se vê na espetacular sequência do amigão da vizinhança em cima do trem em Homem-Aranha 2. Quando bem trabalhados, são tais eventos que valem uma HQ e a destacam do enorme contingente de histórias semelhantes.

A Saga do Planejador Mestre não passa incólume, mas seus deslizes são ínfimos quando comparados com tanta harmonia. A identidade do vilão é revelada muito cedo, de fato, ainda que se possa justificar tal andamento por se tratar de uma história que, em suma, foca sua lente na personalidade do protagonista, tratando o vilão como mero acessório. Independentemente disso, trata-se de um clássico do Homem-Aranha. Um arco curto e dramático, representante da potência de Stan Lee e Steve Ditko, uma parceria que duraria, infelizmente, apenas mais cinco edições, com a saída polêmica de Ditko da Marvel.

The Amazing Spiderman #31-33 (EUA, 1965/6)
Roteiro: Stan Lee
Arte: Steve Ditko
Capa: Steve Ditko
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: dezembro de 1965 a fevereiro de 1966
Páginas: 20 (cada)

ANTHONIO DELBON . . Pupilo de Goku, aprendiz de Charles Xavier e padawan nas horas vagas, gosto mesmo é de bons passeios, seja por Gotham, Westeros, Los Santos ou pelo reino de Lemuria. Sinto-me em casa aonde me aventuro e gosto de viajar sem sair do lugar. No dia-a-dia, nada melhor do que ouvir Gorillaz para lembrar porque estudo e amo filosofia - por mais que o Dr. Matthew Murdock tenha insistido em me fazer cursar Direito há alguns anos.