Crítica | Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Sem Spoilers)

estrelas 3,5

– Leia, aqui, nossa crítica com spoilers e, aqui, nosso Entenda Melhor de referências e easter-eggs.

Ser um dos heróis mais populares da Marvel não conseguiu livrar o Homem-Aranha de uma conturbada história nas telonas. Quando tudo estava no auge, após o sucesso de seus dois longa-metragens comandados por Sam Raimi, que são considerados divisores de águas quando falamos do sub-gênero, fomos agraciados com uma verdadeira tragédia, Homem-Aranha 3. Com a ausência da qualidade e fracasso do reboot da franquia por Marc Webb, o Aracnídeo, enfim, retorna à casa (ainda que com guarda compartilhada), como parte do extenso Universo Cinematográfico Marvel. Em razão das tragédias anteriores, contudo, não há como não deixar de sentir certo receio em relação a essa nova empreitada da Sony/ Marvel Studios.

Felizmente, já que nos cansamos de ver o pobre tio Ben encontrar seu trágico destino, Homem-Aranha: De Volta ao Lar, de imediato, já muda esse cenário para uma história de origem diferente do que vimos até agora. Já apresentado em Capitão América: Guerra Civil, Peter Parker (Tom Holland) não precisa verdadeiramente se habituar com seus poderes, ou até mesmo transformar-se de menino tímido/nerd em um herói. Sua jornada, aqui, consiste no aprendizado de como ambos os lados de sua vida devem coexistir. Dito isso, o que encontramos no início da projeção é um garoto extremamente entusiasmado com a ideia de ser um Vingador, aspiração essa que é freada por Tony Stark (Robert Downey Jr.), que o coloca em um estágio probatório. Com o surgimento de um novo bandido na cidade, o Abutre (Michael Keaton), Peter precisa entender o que é, realmente, ser um super-herói.

Um dos grandes temores em relação ao longa era justamente a presença de Downey Jr. como Stark, o que poderia roubar, indevidamente, o espaço do Aranha no protagonismo, transformando esse em um Homem de Ferro 3.5. Já adianto, porém, que tais receios não são concretizados, visto que Tony funciona como o mentor de Peter, claramente substituindo o tio Ben. Seu tempo em tela é pouco mais do que já foi mostrado nos trailers, embora ele seja citado continuamente ao longo da trama. Isso, contudo, não atrapalha a narrativa em momento algum, visto que o personagem é utilizado afim de alavancar tanto a história do protagonista, que o enxerga como a figura paterna em sua vida, assim como a do vilão, cuja mágoa das Indústrias Stark e dos Vingadores em geral o motiva a ser quem ele é.

Com isso em mente, fica fácil enxergar o porquê desse antagonista interpretado por Keaton ter funcionado tão bem. Não se trata de mais um vilão que surge do nada – a partir do momento que os eventos de filmes passados, especificamente de Os Vingadores, são trazidos à tona, mesmo que brevemente, é criada uma imediata história pregressa desse vilão e o homem que enxergamos na atualidade é um reflexo desses acontecimentos – sendo preciso, portanto, apenas trabalhar sua figura no presente. Evidente que parte do mérito vai para o ator, que, em uma sensacional narrativa metalinguística representada por sua mera escalação (vide Birdman) convence-nos de suas atitudes, entregando um trabalho mais pé no chão, constituindo um personagem em quem podemos acreditar, não criando intrincados planos maquiavélicos: ele é, apenas, um vilão e traficante de armas hi-tech.

Aliás, um dos pontos mais interessantes de De Volta ao Lar é a forma como a disparidade entre os Vingadores e o restante desse universo se estabelece. Toda a tecnologia avançada mostrada aqui é proveniente de Stark ou dos alienígenas, construindo a ideia de que esses “supers” apenas lidam com problemas maiores, não sendo nada acessíveis à grande população. Claramente isso dialoga com a própria trajetória de Parker, que deve ser o “amigão da vizinhança”, resolvendo crimes menores, embora queira logo partir para o plano mais geral. A obra, portanto, aos poucos lida com a questão: esses heróis realmente estarão lá quando as pessoas precisarem deles? Ou somente quando um portal intergalático abrir sobre alguma cidade? Ninguém melhor do que o Aracnídeo para solucionar esse problema.

Tomada a forma dessa sua jornada pessoal, o longa procede de maneira bastante previsível, mas não por isso deixando de divertir por meio de seu clima descontraído. O que está em jogo não é o destino da humanidade e sim o futuro de um garoto. Aproximamo-nos do herói, que demonstra clara dificuldade em viver essa sua vida dupla, por mais que ele claramente se divirta quando veste a máscara, jogando piadinhas enquanto combate o crime, da maneira que o Aranha deve fazer, mesmo que muitas delas não tenham tanta graça assim, mas essa é a essência do personagem: ele se liberta de sua timidez, de sua necessidade de auto-afirmação quando passa a lançar teias por aí e o que ele precisa aprender é que o Aracnídeo não é nada sem Peter Parker e não o contrário.

Holland, nesse ponto, nos entrega a melhor personificação do personagem até agora nas telonas, sabendo transitar com facilidade entre os dois lados da moeda. Ao mesmo tempo que enxergamos nele o garoto que sequer consegue falar direito com seu crush, ficando no mundo das nuvens sempre que interage com a menina, vemos alguém que não teme combater bandidos frente a frente, sendo mais descontraído do que ele jamais seria sem o uniforme. É preciso notar, também, como o simples fato dos olhos da máscara abrirem e fecharem afeta nossa percepção do herói, visto que ele se torna mais humano, possibilitando que tenhamos alguma noção do que passa pela sua cabeça sem que nada seja dito – não que o Aranha seja, de fato, um personagem tão calado assim.

Essa trajetória, porém, não chega a ser exatamente perfeita, já que o roteiro, assinado por nada menos do que seis escritores, sente a necessidade de entregar inúmeras sequências de ação, dilatando o tempo de projeção a tal ponto que efetivamente sentimos a narrativa se alongando mais do que deveria. Ainda que tais cenas se diferenciem umas das outras, algo mais conciso favoreceria o impacto de toda a aventura, sem torná-la tão cansativa. Sentimos como se inúmeras voltas fossem dadas até chegar naquilo que interessa, tirando o potencial espaço de um maior desenvolvimento dos personagens secundários, que permanecem rasos do início ao fim da história.

A direção de Jon Watts, por vezes, também não ajuda. O ainda inexperiente diretor nos entrega alguns trechos memoráveis, criando o humor através de situações e não necessariamente através dos diálogos, mas algumas das lutas se tornam confusas em razão de movimentos excessivos de câmera e planos mais curtos. Nada que caia na maldição dos filmes de ação modernos, mas que acaba incomodando em determinados trechos. Além disso, é preciso ressaltar como certa cena com luzes piscantes desnecessárias simplesmente estraga um dos momentos mais importantes do filme, algo que realmente não podemos relevar.

Apesar de tais questões, Homem-Aranha: De Volta ao Lar consegue tirar o herói do limbo em se encontrava desde o terceiro filme da franquia dirigido por Sam Raimi. Temos, aqui, um longa que verdadeiramente se diferencia daquilo que vimos antes quando se trata do personagem, pintando sua imagem de uma maneira única e que entretém, ao mesmo tempo que lida com questões pertinentes ao amadurecimento de qualquer um – além, é claro, de explorar aspectos relevantes para o Universo Cinematográfico Marvel em si. Esse seu retorno à casa, portanto, foi mais do que bem-vindo, nos presenteando com a adaptação que, mesmo com seus defeitos, Peter Parker merecia.

Ps.: A segunda cena pós-créditos (assim que eles acabam) é crucial para o UCM como um todo. Não deixem de assistir!

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming) — EUA, 2017
Direção:
 Jon Watts
Roteiro: Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna, Erik Sommers
Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Gwyneth Paltrow, Zendaya, Donald Glover, Jacob Batalon, Laura Harrier, Tony Revolori,  Bokeem Woodbine, Michael Mando
Duração: 133 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.