Crítica | Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Contém spoilers referentes ao arco!

Embora receba em português o mesmo nome do aguardado filme estrelando o Homem-Aranha, o arco originalmente chamado Coming Home aborda o herói em um momento de vida totalmente diferente daquele que em breve veremos Tom Holland encarnar. Vemos aqui um Peter Parker mais maduro e experiente cuja “volta ao lar” nada tem a ver com o homecoming escolar norte-americano. A escola pode ser um ponto em comum, mas ao invés do aluno temos um Peter Parker iniciando a carreira como professor, tentando colocar a vida nos eixos após o marasmo do final dos anos 90 as diversas provações recentes em suas vidas pessoal e super-heróica.

Correspondendo à sequência de edições #30-35 de The Amazing Spider-Man (Vol. 2), o arco De Volta ao Lar sinaliza um momento importante na cronologia do herói aracnídeo, principalmente por representar a entrada dramática do roteirista J. Michael Straczynski no comando do título. E que entrada! Em total oposição ao que ocorreria anos mais tarde no arco de encerramento de sua fase, marcado pela interferência editorial resultando no desastroso Um Dia a Mais, Straczynski parece ter desfrutado aqui de uma liberdade criativa imensa, introduzindo elementos até então inéditos e totalmente inusitados bem no coração da mitologia do Cabeça de Teia. Falamos aqui, é claro, do aspecto mágico-totêmico do qual a origem dos poderes do herói repentinamente se encontra revestida. Trata-se do tipo de ideia cujo resultado inescapável será o de gerar polêmica entre os fãs.

Ao contrário do que é de praxe no mundo dos quadrinhos, não se trata aqui de uma grande reviravolta sem cerimônia, ou inconsequente. Ao final do arco o leitor, goste ou não das revelações que acabou de presenciar, há no mínimo de reconhecer que houve cerimônia o suficiente (com uma batalha colossal que se estende por quase duas edições inteiras sem perder o pique, representada magistralmente no traço de John Romita Jr.) e que a história consegue dar um senso de consequência que vai além do mero valor de choque.

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A trama em si é simples e direta. Peter tenta se restabelecer após uma fase conturbada com o retorno do Duende Verde e a aparente morte (e subsequentemente revelado sequestro) de Mary Jane, com o casal decidindo dar um tempo após o rolo todo. A sequência de abertura é especialmente efetiva como narrativa visual e já nos dá o tom do arco, com a mensagem da secretária eletrônica do herói sugerindo procurá-lo “nos escombros”, seguida por uma jornada sem rumo pela cidade onde ao fim, acompanhamos o Homem-Aranha demolindo um prédio condenado em um acesso de raiva. Cansado de ser soterrado, Peter procura uma via de ação, quer efetuar o primeiro movimento e não apenas reagir ao que a vida lhe lança. Por obra do acaso (ou seria de forças totêmicas ancestrais?) nosso protagonista se vê às voltas com a Escola Midtown, e através de uma sugestão de Tia May decide que começar a lecionar seria uma maneira de fazer uma jogada rumo a algo significativo.

Porém um encontro fatídico com o misterioso Ezekiel (que mais parece um Peter Parker do futuro, ainda mais pelo fato de aparentemente compartilhar dos mesmos poderes aracnídeos de nosso herói) lhe revela não apenas que ele é o mais puro portador vivo de um poder totêmico misterioso e ancestral, responsável pelo intermédio entre o homem e animal desde tempos imemoriais, mas que essa condição faz dele o alvo preferencial de um caçador centenário de poder inimaginável chamado Morlun. O encontro com Ezekiel é instigante, as ótimas linhas de diálogo perfeitamente modeladas pela arte, tendo como efeito vender a história absurda do velho como algo maior do que poderia parecer sob uma execução menos acertada. A ideia da origem totêmica dos poderes é especialmente interessante não apenas por oferecer um twist, no melhor estilo Grant Morrison, a toda a mitologia do herói e de sua galeria de vilões onde o tema da animalidade tem centralidade sem que necessariamente isso tenha sido explorado como mais do que uma coincidência. A descrição da natureza exata destes poderes e dessa caça permanece propositalmente vaga o suficiente para que este elemento não seja distrativo da trama principal. Sabemos apenas o suficiente para termos nossas cabeças explodidas – o tema aqui não é redescobrir a origem dos poderes de Peter, mas sim questionar em profundidade e identidade do Homem-Aranha.

A figura paterna de Ezekiel remonta explicitamente a relação de Peter com o Tio Ben, o misterioso empresário representando um paralelo instigante para o que poderia ter sido para Peter caso ele decidisse ter continuado a perseguir dinheiro e riquezas pessoais ao invés do bem comum. O fato de Ezekiel sentir-se compelido a finalmente utilizar os seus poderes por um bem que não seja apenas o seu é especialmente interessante na medida em que a forma que ele encontra para fazê-lo é justamente a de propor a Peter que se retire de cena, protegendo-se em um abrigo de forma a garantir a própria vida, porém ao fazê-lo abrir mão justamente de seu juramento de responsabilidade. Tentando ser altruísta, o que ele propõe a Peter é justamente o oposto.

Mais do que saber a respeito de sua verdadeira identidade (secreta, como Peter Parker e existencial, como um avatar totêmico legítimo), o que Ezekiel traz é o questionamento a respeito dos limites do juramento de Peter – se com o poder vem a responsabilidade, por sua vez com a responsabilidade vem o que, exatamente? Embora se servindo dessa deliciosa filosofia de boteco e não sendo necessariamente uma temática nova, a abordagem aqui ganha justamente na precisão do uso explícito desses temas, representados alegoricamente na caça de Morlun ao Homem-Aranha e na relação de Peter com Ezekiel.

É assim que os temas da caça e da animalidade, a cisão entre o Homem e a Aranha, já explorados de forma definitiva em A Última Caçada de Kraven, podem ressurgir sob uma luz nova e em perfeita intersecção com o tema mais amplo do poder e responsabilidade, em uma história que abraça o derivativo e faz uso dele em um ritmo dinâmico e instigante, um verdadeiro ganho de fôlego para o herói após a estagnação da década de 90. A história triunfa justamente ao pinçar na fonte estes elementos essenciais do personagem, o tom pedregoso dos anos 80, a ousadia dos anos 70 e a aventura galhofeira dos anos 60, numa consonância que muito provavelmente não deveria funcionar, mas funciona aqui.

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Mas nem só de alegoria vive a batalha contra Morlun. Escapando do risco ser apenas um plot-device, o vicioso caçador se apresenta como  um vilão minimamente carismático em divertidas cenas com seu ajudante a contragosto Dex ao longo de sua preparação para a ofensiva final, onde surge como uma ameaça real e imediata ao nosso herói, fazendo jus às previsões pessimistas de Ezekiel. Romitinha dosa o trabalho de linhas de forma a enfatizar a dinamicidade sem perder o peso dos personagens, sendo que os golpes rápidos e violentos são acompanhados pela narração interna de Peter que vai se dando conta, em pânico crescente, do tamanho da roubada em que se meteu ao desafiar os avisos de Ezekiel. As tentativas desesperadas de fuga dão lugar a um combate violento contra o caçador que, ao contrário da tradicional bravataria, se demonstra extremamente frio e focado em seu objetivo único.

A virada de Ezekiel que, mesmo sabendo que o destino de Peter fora traçado por sua própria decisão e vontade, não consegue deixar de ajudar o rapaz, unindo-se ao companheiro aracnídeo em um rápido e frenético embate onde finalmente conseguem atingir vilão, traz à tona o tema da responsabilidade, em uma parceria inusitada e significativa para ambos. O encaminhamento final do combate, após o aparente sacrifício de Ezekiel, parece retirado diretamente de um roteiro de Stan Lee, contando com uma solução miraculosa vinda da repentinamente brilhante mente científica de Peter Parker que envolve nada menos que um banho de radiação. Além da homenagem referencial, trata-se de um bom uso desse lado do personagem, e que sinaliza ao leitor de forma explicita que o central aqui não é a ficção científica ou a explicação fantástica, mas sim a jornada heroica de nosso personagem, o porque e como ele faz o que faz, mesmo sem que ele próprio saiba ao certo. Talvez o único deslize seja na resolução, onde convenientemente o insatisfeito Dex aparentemente coloca fim à vida de Morlun e ao dilema de Peter, que sabia que não tinha escolha a não ser fazer o mesmo. A resolução parece flertar com o anticlimático, após tamanha intensidade durante a batalha como um todo, tirando esse peso extra dos ombros de Parker, para bem e para mal, mas funciona bem ao liberar a narrativa de ter que lidar com mais essa subtrama, evitando a distração necessária do conhecido dilema entre matar ou não, em favor de um delineamento muito mais centrado nas características únicas de nosso herói em questão.

Não apenas o combate com Morlun como tudo mais na história ressoa tematicamente, como é o caso das cenas da Escola Midtown, onde Peter quer ajudar um jovem “CDF” que o faz lembrar de si mesmo, e tem de lidar com o cinismo dos outros funcionários que propõem à suas maneiras algo semelhante ao que o velho Ezekiel faz: cuide de si mesmo sobretudo, o restante é o restante. Mas a atitude de Peter nos mostra o verdadeiro sentido do herói, enfrentando a adversidade mesmo que ela pregue a total desesperança (temos um tiroteio escolar efetuado por um aluno na Escola Midtown, a menos de dois anos de Columbine!), seja na defesa e encorajamento de seus alunos, seja no enfrentamento de um vampiro energético milenar contra o qual a morte certa é garantida – ele sabe que deve agir e age, inclusive cativando o velho Ezekiel a sujar as mãos de forma mais direta, pelo menos uma última vez (ou será que não…?).

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O roteiro de J. Michael Straczynski é dinâmico e surpreendentemente acelerado para um arco de cinco edições, inclusive encontrando espaço, em meio à crise existencial e à morte iminente, para diálogos e passagens genuinamente cômicas, o que sempre é um ponto importante nas histórias do amigão da vizinhança. Beneficiando-se da arte de um John Romita Jr. em boa forma (existem dois Romitinhas, e esse é o certo), o roteiro alterna entre a cataclismática batalha entre o Homem-Aranha e Morlun e as ramificações da vida pessoal de Peter de forma magistral. As relações pessoais de Peter adquirem centralidade, em especial na dinâmica com a Tia May, a sempre presente mãezona, e Ezekiel, a inesperada figura paternal cuja presença literalmente nos leva às raízes do significado da transformação de Peter Parker em Homem-Aranha. O contraste entre o sofrimento da vida civil de nosso protagonista, após devotar tantos anos de sua vida para exercer sua real responsabilidade, e o paralelo sucesso confortável de Ezekiel, um homem ambicioso que perseguiu e obteve o próprio poder – temos aqui uma riqueza temática que remonta aos melhores momentos do herói e que é muito bem desenvolvida em forma de trama neste arco.

Independentemente da forma como se encare a releitura proposta aqui da origem do Homem-Aranha ou dos eventuais desenvolvimentos da temática e dos personagens que gravitam em torno dessa releitura, é preciso reconhecer que este arco, tomado de forma isolada, representa um sucesso narrativo especialmente no que diz respeito à pergunta em relação a qual a polêmica revelação (ou retcon, se preferirmos o termo científico) não é mais do que uma alegoria. Peter Parker recebeu, por obra do acaso, extraordinários poderes. Seu principal arco como herói foi o de descobrir, da forma mais difícil, que a posse de tais poderes implicava no dever de utilizá-los da melhor forma possível. Dar conta das grandes responsabilidades que advém da posse de grandes poderes – essa foi a resposta para a pergunta “Como ser o Homem-Aranha?“. O que Straczynski faz aqui é dar um passo atrás e nos conduzir do “como” para o “por que”. Porque o Homem-Aranha? Essa é a pergunta que se impõe para um Peter que, não apenas poderoso, mas já finalmente responsável (ou quase), enfim volta para casa. Se a equipe criativa sucede em manter a qualidade dessa nova etapa da vida do agora professor Peter Parker, é certo que sua introdução aqui é magistralmente executada.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Amazing Spider-Man Vol.2 #30 – 35 / Coming Home) — EUA, junho/2001 até novembro/2001
No Brasil:
 O Espetacular Homem-Aranha – De Volta ao Lar (Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel Vol. 21) — Editora Salvat, agosto de 2013
Roteiro: J. Michael Straczynski
Arte: John Romita Jr.
Arte-final: Scott Hanna
Cores: Dan Kemp & Avalon Studios
Letras: Comicraft (EUA) Rodrigo de Salles (Brasil)
Capa: J. Scott Campbell & Tim Townsend
Editoria: Axel Alonso, Joe Quesada
Páginas: 137

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.