Crítica | Homem-Aranha: Fome Voraz

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estrelas 3,5

Quando lidamos com quadrinhos de super-heróis, o cenário mais comum encontrado é a velha máxima do mocinho contra o vilão, que conta com planos de dominação e/ou destruição do mundo (ou da cidade). Vez por outra, contudo, encontramos histórias que ousam trabalhar o lado psicológico de tais antagonistas, explorando aquilo que os motiva ou os torna tão cruéis, algumas vezes até animalescos. Esse é o caso de Homem-Aranha: Fome Voraz, primeiro arco do segundo volume de The Spectacular Spider-Man.

A trama tem início com uma mulher sendo emboscada em um beco escuro, dando início a uma narrativa paralela que foca tanto no Aranha quanto no detetive investigando esse que, aparentemente, faz parte de uma série de assassinatos, nos quais as vítimas apresentam ferimentos idênticos. Paul Jenkins, que assina o roteiro, porém, não busca fazer um whodunnit e, logo na primeira edição, nos revela que Eddie Brock/ Venom está por trás desses crimes. O que vemos, a partir daí, é a ênfase no seu conflito interno (e externo) com o simbionte, enquanto Peter precisa decidir qual é o melhor caminho a ser seguido: permitir que o ser se desvencilhe de Brock ou continue tomando conta de seu corpo.

Embora, claro, contenha trechos de luta, afinal, parte do público somente quer ver isso, Fome Voraz tem como principal força motriz a culpa de Brock, que se enxerga como assassino, querendo parar, confessar os seus crimes enquanto utiliza o traje simbionte. Não mais essa entidade que tomara conta do seu corpo é movida pelos desejos de seu hospedeiro, agora ela possui uma insaciável fome, que garante o título do arco. Tal abordagem desmistifica a figura desse icônico antagonista do Cabeça de teia, possibilitando que enxerguemos nele mais uma vítima das circunstâncias ao seu redor. E, no meio disso tudo, seria o próprio herói o culpado por tudo isso? Essa questão é deixada em aberto pelo texto, que finaliza o arco de maneira impactante, sem o típico final feliz com o qual estamos acostumados.

Aliás, esse questionamento se aplica para Flash, que tivera sua mente destruída pelo Duende Verde e Parker se culpa por isso – caso não tivesse conhecido o amigo ou jamais tivesse se tornado o Homem-Aranha, isso não teria acontecido. É interessante observar o paralelo estabelecido aqui entre esses personagens e Brock, com Osborn, mesmo tendo caído na loucura, representando um verdadeiro Mal, enquanto Eddie busca, de alguma forma, a redenção, algo que se faz cada vez mais distante. Fora dos trechos de ação, portanto, é quando esse arco do herói alcança seu verdadeiro potencial, explorando caminhos tão pouco percorridos na maioria dos quadrinhos de heróis, que se apoiam, prioritariamente, na ação descerebrada (claro que com notáveis exceções, refiro-me, naturalmente, à grande massa).

A arte, nas mãos do mexicano Humberto Ramos, infelizmente não reflete a qualidade do roteiro, trazendo traços desproporcionais, alguns dos quais chegam a dificultar o entendimento, com painéis que são uma verdadeira bagunça indecifrável. Evidente que o trabalho de cores do Studio F não ajuda, especialmente nos trechos mais escuros, que exigem de nós, leitores, determinado esforço para distinguirmos o que está presente em cada página. Sempre defenderei a arte mais autoral em detrimento da pasteurização usual, mas Ramos exagera nas suas formas, seja nas poses imposíveis do Aranha (mais do que o normal), ou no próprio tamanho dos músculos, os quais criam uma massa distorcida, se misturando com o restante do corpo dos personagens.

Apesar desse deslize no traço, Fome Voraz, segundo arco do volume dois de The Spectacular Spider-Man, se sustenta plenamente pelo roteiro de Paul Jenkins, que segue pelo caminho, infelizmente, pouco trilhado pelos roteiristas das grandes editoras (fruto de controles editorais em sua maioria). Explorando o lado psicológico de seu antagonista, essa história desmistifica o Venom de forma certeira, transformando o hospedeiro do simbionte em mais uma vítima nesse complexo cenário, enquanto que questiona a culpa do herói no meio disso tudo, mostrando um outro lado da velha manchete “herói ou ameaça?” do Clarim Diário.

Homem-Aranha: Fome Voraz — EUA, 2013
Contendo: The Spectacular Spider-Man – Vol. 2 #1 a 5
Roteiro: Paul Jenkins
Arte: Humberto Ramos
Cores:
 Studio F
Letras: Valéria Calipo
Editora original: Marvel Comics
Data de publicação original: setembro a dezembro de 2003
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: maio a julho de 2004
Páginas: 120

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.