Crítica | Homem-Aranha Noir

estrelas 4,5

Um dos super-heróis que mais encontrou versões alternativas ao longo de sua história definitivamente é o Homem-Aranha. Homem-Aranha 2099, Porco-Aranha, Gwen-AranhaHomem-Aranha Superior… essa fama do personagem é tão grande que nem foi surpresa quando o arco Aranhaverso foi criado na revista do aracnídeo alguns anos atrás. Mas provavelmente uma de suas versões mais interessantes é sua versão Noir – série de quadrinhos da Marvel que inseria seus heróis em abordagens de filmes noir e pulp fiction. Dotado de um visual obscuro, meio steampunk e detetivesco, inserido em uma New York infestada pelo crime, somos apresentados a um excelente universo alternativo do personagem.

homemaranhanoirHomem-Aranha Noir se situa em um contexto político movimentado, durante a década de 30, mais precisamente no ano de 1933. O cenário social totalmente devastado pela crise de 29 dá o tom de desesperança da obra, onde somos apresentados a uma Nova York sem escrúpulos, uma verdadeira terra sem lei comandada pela máfia do Duende. Encontramos um jovem Peter Parker ativista político, fortemente influenciado por sua Tia May, uma mulher sedenta por justiça. O roteiro de David Hine e Fabrice Sapolsky mergulha fundo na sociedade da época, evidenciando uma pesquisa histórica bastante cuidadosa, indo desde figurino a pequenos detalhes políticos ou culturais. O próprio design do Abutre, totalmente inspirado no vampiro de Nosferatu (1922), é resultado da atenção da dupla para a ambientação quase perfeita da atmosfera sombria daquela época.

É surpreendente o quanto a trama policial de Homem-Aranha Noir é bem intrincada. Um arsenal de personagens famosos das histórias do herói são inseridos pontualmente e de maneira acertada aqui, desde a Gata Negra fazendo a dona de um estabelecimento clandestino até uma inesperada aparição do vilão Camaleão. Nada simplesmente é referência, todos possuem seus devidos propósitos para a história. Vale ainda ressaltar como a obra é adulta em suas abordagens – que incluem desde uso de drogas a assassinatos macabros – sem apelar para exageros ou cenas gratuitas. Por mais méritos que a revista possa ter, o maior de todos diz respeito a como a dupla de roteiristas deixa muito bem estabelecido o arco de evolução do protagonista, se espelhando na origem do personagem original apenas levemente, mostrando uma leveza e criatividade notória ao apresentar esse interessante e misterioso universo noir.

A ilustração de Carmine Di Giandomenico aqui, aliás, é um dos destaques da série Marvel Noir. O artista – que assume tanto o desenho quanto as cores – sabe fundir o estilo noturno noir ao estilo cartunesco típico de uma história do homem-aranha, incorporando uma paleta de cores cinzenta belíssima e charmosa aos olhos. Carmine nunca deixa que suas ilustrações se tornem sombrias demais ou demasiadamente cruas, encontrando um ponto satisfatório que não nos deixa esquecer que, mesmo diante do realismo e obscuridade da época ambientada, estamos diante de uma HQ do cabeça de teia.

Homem-Aranha Noir é uma das versões alternativas mais carismáticas do herói, indo muito além de um bom design de uniforme ou apenas um capítulo da série Marvel Noir feita no automático. Temos aqui uma abordagem única do personagem, rica em detalhes, dentro de um contexto político e social extremamente bem utilizado. O sucesso foi tanto que veríamos o personagem aparecer também em games, animações e ainda ganhar uma continuação na série Noir, brilhantemente intitulada Homem-Aranha: Olhos Sem Face. Mas essa história fica para outro dia…

Homem-Aranha Noir (Spider-Man Noir) — EUA, 2009
Roteiro: David Hine, Fabrice Sapolsky
Arte e cores: Carmine Di Giandomenico
Letras: Donizeti Amorim
Editora original: Marvel Comics
Ano Original de publicação: 2009
Editora no Brasil: Panini Comics
Ano de publicação no Brasil: 2011
Páginas: 108

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.