Crítica | Homem-Aranha: Revelações & Até Que as Estrelas Esfriem

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estrelas 3,5

SPOILERS!

Após abalar o emocional dos fãs com o arco De Volta ao Lar, adicionando elementos totêmicos na criação do Homem-Aranha (escolha narrativa que dividiu ferrenhas opiniões) e terminar aquela aventura com uma grande descoberta de tia May, o escritor J. Michael Straczynski deu uma pausa nas consequências da descoberta para falar dos ataques terroristas ao WTC em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. Toda a edição #36 é voltada a esta temática e apresenta um solilóquio do Cabeça de Teia ao acompanhar de perto o horror na cidade de Nova York, o rastro de destruição, os esforços dos heróis do cotidiano, e reunião de icônicos heróis da Marvel… É uma bela homenagem, lamento e pensamento sobre o caso, mantendo um discurso de paz, pedido de justiça mas ao mesmo tempo, união entre as pessoas.

O autor não se deixou levar pelo sentimento cego de vingança e “destruição a todos os amigos e conhecidos dos que fizeram isso conosco“, discurso generalizador que desde então tem crescido e ganhado análises ainda mais difíceis com o passar dos anos, dado o aparecimento de grupos, califados e células terroristas na América, África, Europa e Ásia, espalhando dor, sofrimento e morte em nome de um Deus (ou de uma interpretação que possuem de um Deus), dando ainda mais munição para quem tem medo e não consegue fazer mais nada além de atirar palavras de ódio e segregação, pedindo por mais guerra. O discurso de Peter Parker nesta edição #36 passar por praticamente todo esse serpentear dos ataques terroristas e suas consequências. É uma revista solene, muitíssimo bem escrita, e que nos faz pensar sobre este terrível momento da História contemporânea. O evento que guinou o mundo para uma outra direção.

Algumas compilações do arco Revelações (as brasileiras, por exemplo), não incluem a edição #36 no pacote justamente por ela ser uma história isolada. Mas é bom lembrar que todos os lançamentos americanos e a própria indexação do arco Revelations no site da Marvel Comics está contado a edição #36, então preferi falar sobre ela nesta crítica, mas de maneira separada.

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11 de Setembro de 2001. Uma das datadas mais importantes para a História e Geopolítica do século XXI, que então começava. A edição #36 da Amazing Spider-Man Vol.2 está inteiramente ligada a este evento histórico.

Começando de verdade na edição #37 e indo até a edição #39, o arco Revelações coloca em pauta a conversa há muito adiada de Peter com a tia May sobre quem ele realmente é. Na linha de uma revisão do cotidiano do personagem, temos ao mesmo tempo Peter ministrando aula de ciências na escola onde ele estudou, salvando o dia de uma de suas alunas e percebendo que há algo errado com sua tia, algo que ele descobriria algumas horas depois. Quando enfim o encontro ocorre, o texto compartilha o peso do Amigão da Vizinhança conosco. Parte dos anseios e justificativas tão ditos por ele no passado desembocam aqui, todos colocados de forma bem rápida no texto, abrindo mais espaço para o diálogo do que para as neuroses e acusações.

Como característica dessa fase, o espaço urbano é capturado em suas mais diversas camadas; a parte rica, a parte pobre, suja e viciada da cidade — que inclusive cederia munição locacional para o arco seguinte. Dan Kemp ministra bem o cinza, os tons patéis e as sombras aqui, nunca deixando a história tornar-se completamente “diurna” ou alegre. Não que o roteiro indique pessimismo por todo o tempo. Mas a colocação mais austera da cor intensifica a seriedade, a continuação da vida pessoal sempre em crise de Peter Parker (aqui, os problemas no casamento com MJ — um casamento que… bem, não existe, porque ela decidiu deixá-lo para seguir a carreira de atriz), jornada que mesmo nos piores momentos ganha uma linha cômica, vinda da personalidade “fanfarrona” do Aranha. Diante do peso emocional desses eventos, é muito bom que a edição #39 tenha sido uma Nuff Said, a temática-desafio com a seguinte proposta: fazer uma edição inteira sem diálogos. Apenas com arte.

Tudo bem que Straczynski trapaceia e coloca trechos de e-mails e cartas da tia May para jornais, revistas e programas de televisão, em sua jornada de tentar mudar a opinião pública sobre o Homem-Aranha. Mesmo assim, há o merecido destaque para a arte de John Romita Jr. e uma merecida pausa para o leitor, antes de embarcar no arco seguinte.

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Uma conversa que levou muitos e muitos anos para acontecer.

Até Que as Estrelas Esfriem começa com o Homem-Aranha encontrando o verdadeiro mistério por trás das crianças desaparecidas nos subúrbios, levando-o para uma situação onde precisa da ajuda do Doutor Estranho. A participação de Stephen Strange no final da edição #41 e início da edição #42 é rápida e engraçada porque existe um grande contraste entre a calma analítica do Estranho e a impaciência do Teioso ao lidar com coisas que ele não consegue controlar. A ajuda do Doutor leva o Aranha para o plano astral, em busca de Shade (Jacob Nash) e das pessoas que ele levou para lá. Esta parte da história nos prende pelo deslocamento, algo não muito comum em se tratando do Escalador de Paredes: visitar cenários… mágicos. Mas não há muita coisa para fazer ali. O totem da aranha reaparece (como inferência a De Volta ao Lar), mas apenas como um aviso de que Peter ainda não está preparado — para sabe-se lá o quê.

Na parte seguinte da trama, que dá corpo e nome ao arco, temos Otto Octavius procurando emprego e caindo em uma armadilha que o levará para onde Peter Parker, tia May e MJ estão. Pode parecer estranho pensando apenas pela estrutura da história, mas pela sequência de eventos e pela curta passagem curta de tempo, as coisas fazem sentido. Aqui, o roteiro foca na dificuldade de relação de Peter com a esposa de quem está separado; e no Doutor Octopus lidando com o aproveitador Luke Carlyle. A batalha entre os dois consegue ser melhor do que toda participação do Aranha em lutas, na reta final. O derradeiro estabelecimento da força de tia May diante de tantas novidades e as promessas de amor e entendimento entre Peter e MJ dão o tom humano, frágil e bonito que marcaram essas últimas edições.

Ligando-se aos sentimentos e à exposição dos personagens a situações desconfortáveis, de conflitos morais ou definições de prioridades, estes arcos mostram ao mesmo tempo o lado humano e o lado de ficção científica que sempre foram bastante fortes nas histórias de J. Michael Straczynski, mesmo quando revestidos com uma roupa vermelha e azul e teias de aranha desenhadas.

Homem-Aranha: Revelações & Até Que as Estrelas Esfriem (Amazing Spider-Man Vol.2 #36 – 45 / Revelations / Until the Stars Turn Cold) — EUA, dezembro de 2001 até novembro de 2002
No Brasil:
 O Espetacular Homem-Aranha – Revelações & Até Que as Estrelas Esfriem (Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel Vol. 22) — Editora Salvat, abril de 2015
Roteiro: J. Michael Straczynski
Arte: John Romita Jr
Arte-final: Scott Hanna
Cores: Dan Kemp
Letras: Richard Starkings, Wes Abbott, Richard Starkings, Jimmy Betancourt
Capas: Kaare Andrews, Jason Pearson, John Romita Jr., Scott Hanna. Dan Kemp
Editoria: Axel Alonso, John Miesgaes

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.