Crítica | Homem-Aranha: Turn Off the Dark

estrelas 0,5

Prêambulo:

Spider-Man: Turn Off the Dark foi um musical da Broadway baseado no Homem-Aranha lançado oficialmente no dia 14 de junho de 2011 no teatro Foxwoods, em Nova York e mantido no ar até 04 de janeiro de 2014. Eu tive a oportunidade (ou seria o azar?) de assistir ao musical no dia 14 de outubro de 2011 e redigi a versão original da crítica abaixo logo em seguida, para o Plano Crítico, ainda em sua versão 1.0. O texto que segue abaixo é o original devidamente alterado e corrigido.

XXXXXX

Como fazer um musical estrelando um super-herói que usa máscara cobrindo o rosto todo? Ora, muito simples, façam as pessoas acharem que estão em um circo e não se preocupem com detalhes pouco importantes como música, roteiro e atuação. Dê pão e circo que ninguém perceberá nada, já sabiam os romanos há milênios. Ah, claro, não se esqueça, também, de gastar muitos milhões de dólares com cenários, figurinos e malabarismos extravagantes, além de contratar nomes famosos como compositores para poder colocar na marquise do teatro.

É mais ou menos assim que é a peça da Broadway Spider-Man: Turn Off The Dark. Um blockbuster descerebrado, para consumo rápido por quem se deslumbra fácil. Mal comparando, é a versão teatral da franquia Transformers.

No entanto, mais interessante do que o próprio musical em si, é a conturbada história de sua produção. Para se ter uma ideia, as primeiras leituras de texto começaram em 2007 e a peça só acabou abrindo ao público em geral em meados de 2011. As baixas foram muitas. O roteiro foi integralmente retrabalhado nos últimos meses de trabalho intenso, a diretora e impulso criativo Julie Taymor foi demitida, diversos atores e dublês se machucaram, alguns gravemente e o que era para estrear em 2009 foi transferido para 2010 e, depois, para 2011.

O período de pré-lançamento da peça foi o maior de todos os tempos, com nada menos do que absurdas e caras 182 exibições. O que já fora anunciado, em 2009, como a mais cara produção da história da Broadway, acabou tornando-se a mais ridiculamente cara produção da Broadway, objeto da atenção pouco lisonjeira da imprensa do mundo inteiro. Dizem por aí que 65 milhões de dólares foram gastos para colocar o musical em funcionamento e que muito desse dinheiro foi empregado no desenvolvimento das difíceis manobras aéreas que, na verdade, são as grandes “atrações” do show. Toda essa comoção em volta da peça não passou despercebida do público e da crítica, mas o resultado foi que, desde o lançamento oficial, todas as exibições lotaram, dando alguma esperança aos produtores de reaver o dinheiro gasto e realizar algum lucro no final de alguns anos. No entanto, por toda sua curta vida, de 14 de junho de 2011 a 04 de janeiro de 2014, Turn Off The Dark foi uma peça montada todos os dias no vermelho contábil, o que levou a produção a um prejuízo de 60 milhões de dólares.

A força do personagem e o quanto ele está no imaginário popular, então surfando na onda dos filmes de Sam Raimi, foram as razões para o desenvolvimento da peça e da atenção do público em geral. No entanto, a menos que o espectador jamais tenha visto acrobacias de circo, seja ao vivo ou pela televisão, não há como deslumbrar-se com o que acontece diante da plateia. O espetáculo é vazio de conteúdo e cheio de cores, explosões e cenários luminosos. A combinação resultante é um assalto sensorial que desnorteia o espectador e o torna insensível ao que está acontecendo logo depois das primeiras acrobacias.

A história originalmente teria Arachne como a grande vilã, fazendo uma referência à mitologia grega da origem da aranha, segundo a qual a deusa Atena teria transformando uma tecelã concorrente no bicho e ela ficaria para sempre condenada a tecer suas teias de seda. Com as radicais mudanças na peça, a história de Arachne serve, apenas, como bookends, ou seja, introduz e encerra o espetáculo, sem efetivamente interferir – com exceção de um breve momento – na ação. E, por incrível que pareça, os momentos dedicados ao mito, como a abertura em que vemos a origem de Arachne, são os mais deslumbrantes e verdadeiramente originais de toda a peça. No entanto, entre uma coisa e outra, o que assistimos é Peter Parker transformar-se no Homem-Aranha e enfrentar uma quantidade enorme de vilões em infinita e irritante sucessão.

Tudo começa quando Norman Osborn, de maneira muito semelhante ao filme de 2002 de Sam Raimi, transforma-se no amalucado Duende Verde. No lugar da armadura verde estilo Power Rangers que vemos na obra do diretor, temos algo parecido, mas misturado com a transformação mais… digamos, orgânica do Duende do universo Ultimate. Como a cereja do bolo, o personagem é cômico, ou pelo menos tenta ser, competindo com o Aranha pelo prêmio de quantidade de piadas infames verbalizadas a cada cinco segundos.

Além disso, Osborn cria um grupo de super-vilões – o Sexteto Sinistro dos quadrinhos adicionado de uma tenebrosa vilã vestida de cruzamento de Homem de Lata com canivete suíço chamada Swiss Miss – para acabar com o herói. É de fazer os olhos fecharem de vergonha de tão insípida que a narrativa é.

Mas, mesmo aqueles que procuram apenas o espetáculo (porque não procurar substância também, considerando a quantidade de outras obras vizinhas na Broadway que oferecem os dois em profusão?), não têm muito o que ver. É malabarismo aqui, jogos de luz ali e um monte de dublês vestidos como o Aranha passeando pelo palco, pela plateia e, claro, pelo espaço aéreo do teatro. Seria minimante excitante se a história não fosse uma mal ajambrada colcha de retalhos.

Nem mesmo a trilha sonora (letras e melodia) composta por Bono e The Edge salva o espetáculo. Ouvimos a marca registrada da guitarra de The Edge, muitas vezes lembrando o riff de “The Fly” mas, em linhas gerais, as composições soam pouco inspiradas, exatamente como o show. Em última análise, o músico precisa inspirar-se no material para o qual está compondo e não tinha como o dueto irlandês fazer mágica, especialmente diante da quantidade de alterações radicais que a peça sofreu ao longo dos anos e notadamente nos seis meses que antecederam seu lançamento oficial.

Se há uma coisa que se salva em Spider-Man: Turn Off The Dark é o cenário. Inspirado pela estrutura e traço dos quadrinhos com um quê de Metrópolis, o que vemos é uma espécie de cenário 2D, de linhas simples, mas bonitas que chamam mais atenção do que todos os personagens juntos. Além disso, de maneira engenhosa, vemos lutas aéreas passadas em cima de prédios de Nova Iorque como se fôssemos pássaros pousados na antena mais alta da torre mais alta. Aqueles que sentem vertigem facilmente devem ter sofrido um pouco de desconforto.

Mas todo o esmero com os cenários, sozinho, não faz verão, já dizia o ditado. A peça é tão simplista, rasa e desinteressante que a vontade que dá, não fosse o valor do ingresso, é de sair depois dos primeiros 20 minutos. Turn Off The Dark é um espetáculo que depõe contra tudo o que o teatro representa e olha que os musicais da Broadway, em geral, já não são os melhores exemplos da arte dramática. De quebra, a peça ainda mancha a reputação do herói que a inspirou e que tenta homenagear.

Spider-Man: Turn Off the Dark (EUA, 2011 a 2014)
Roteiro: Julie Taymor, Glen Berger, Roberto Aguirre-Sacasa (baseado em criação de Stan Lee e Steve Ditko)
Música: Bono, The Edge
Orquestração: David Campbell
Elenco: Reeve Carney, Jennifer Damiano, T. V. Carpio, Patrick Page, Michael Mulheren, Ken Marks, Isabel Keating, Matt Caplan, Matthew James Thomas, Laura Beth Wells, Jeb Brown, Dwayne Clark, Luther Creek
Duração: 180 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.