Crítica | Homem-Coisa: Origem e Primeiras Aventuras

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A fusão de um corpo humano com a matéria vegetal da Terra, gerando uma criatura híbrida ou qualquer variação possível disso, é uma representação bastante antiga e presente em diversas culturas do planeta. O chamado “Green Man” pode ser encontrado em vitrais de diversas igrejas europeias, em desenhos do início do século XIII e em esculturas e pilastras de diversas construções do Velho Continente. Nestas exposições, destaco a Europa como representação primária porque é de lá que veio a inspiração para Theodore Sturgeon escrever, para revista Unknown, em agosto de 1940, um conto chamado It!, que falava sobre um monstro em forma de planta que surgiu em torno de um esqueleto humano abandonado em um pântano. Em termos de fonte para os quadrinhos, foi a aí que tudo começou.

Em dezembro de 1942, na Air Fighters Comics #3, o roteirista Harry Stein e o desenhista Mort Leav criaram o The Heap (Baron Eric von Emmelman), em uma história chamada Wanted By the Nazis. Embora mais parecesse um Yeti misturado com um dos cachorros da TV Colosso, como vocês podem ver na página abaixo (depois a criatura ficou verde!), o personagem fez sucesso e se tornou a estrela da revista. No futuro, The Heap teria um grande admirador chamado Roy Thomas, que em 1971 se inspiraria nesse esquecido personagem para co-criar o Homem-Coisa para a Marvel Comics.

.Existe uma discussão curiosa a respeito da criação do Homem-Coisa e do Monstro do Pântano, as duas criaturas musguentas da Marvel e da DC Comics, respectivamente. Ambos chegaram aos quadrinhos em 1971: o Homem-Coisa em maio (data de capa da Savage Tales #1) e o Pantanoso em julho (data de capa da House of Secrets #92). Considerando que algumas semanas são necessárias para a criação, escrita de roteiro, desenho e publicação de um personagem, a provável verdade é que ambos foram criados mais ou menos ao mesmo tempo, tendo o The Heap como base e uma mania de armas químicas + guerra em alta naquele momento da História dos Estados Unidos. A rigor, a briga é inútil, mas é interessante pensar um pouco sobre esse processo de criação e inspiração (ou cópia) para alguns personagens. E o mais curioso é que enquanto o Homem-Coisa ficou relegado às sombras, o Monstro do Pântano conheceu os holofotes dos quadrinhos por conta da gloriosa fase de Alan Moore à frente da revista Swamp Thing, nos anos 1980.

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A primeira das 13 páginas de Wanted By the Nazis (1942) onde surgiu o personagem que inspirou os musguentos da Marvel e da DC.

Nesta origem, através do roteiro de Roy Thomas e Gerry Conway, conhecemos Theodore “Ted” Sallis, um químico contratado pelo governo para desenvolver um soro de super-soldado, aumentando a força e resistência dos que tivessem contato com a droga, mas, principalmente, deixando os soldados livres de doenças e protegidos contra diversos ataques biológicos dos inimigos. Claro que isto não passaria despercebido a alguns terroristas, e Ted termina usando a fórmula em si mesmo, após ser traído. Em contato com as águas do pântano, a fórmula instável faz com que ele se transforme no Homem-Coisa.

A arte em preto e branco de Gray Morrow é perfeita para esse tipo de história. Realista, de traços finos e obedecendo as regras das histórias de terror em lugares inóspitos com “surpresas naturais” por todos os lados, o artista conseguiu passar o sofrimento de Ted, a melancolia e a ações inicialmente violentas do recém-nascido Homem-Coisa, que também se mostra como uma criatura empática. O roteiro é bastante raso (não exatamente num mal sentido) e não há espaço para real desenvolvimento do monstro, apenas os caminhos de sua entrada em um “novo mundo, com uma nova forma“. Aqui são dadas as cartas iniciais do jogo, com o primeiro passo daquilo que irá marcar para sempre essa figura: a mais profunda melancolia.

The Origin of the Man-Thing (Savage Tales #1) — EUA, maio de 1971
No Brasil:
 XXI: Marvel Horror (Salvat, 2017)
Roteiro: Roy Thomas, Gerry Conway
Arte: Gray Morrow
Letras: Gray Morrow
Capa: John Buscema
Editoria: Stan Lee, Roy Thomas
11 páginas

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O Terror Ataca Nos Pântanos e Homem-Coisa

De certa forma, os acontecimentos dessas duas edições da revista Astonishing Tales são uma continuação da saga do Homem-Coisa mostrada em sua origem, na Savage Tales #1. Tudo parece convergir para a fórmula que Ted estava desenvolvendo, mas agora temos informações de que a SHIELD estava vistoriando o projeto e que a IMA (Ideias Mecânicas Avançadas) estava por trás dos terroristas/sabotadores/espiões infiltrados na organização para colocar as mãos no soro. O problema dessas edições é que há muita repetição da então nova jornada do HoCo (hehehehe — melhor chamar de “HC”, não é mesmo?), remostrando a origem e as primeiras andanças do personagem. Em suma, a trama quase não avança.

A linha principal, porém, nem é do HC. Temos aqui Barbara Morse encarregada de realizar a investigação para encontrar Ted Sellis, e tudo entra por um turbilhão de acontecimentos onde cabe Ka-Zar, seu Dente-de-Sabre Kabu, o traidor Paul Allen e um flashback com a Doutora Wilma Calvin, a única, ao menos até esse momento, que poderia ajudar o Homem-Coisa. Claro que ainda não sabemos o que ela poderia fazer — reverter a situação é que não –, mas o Ted que ainda existe no HC pensa que a Dra. Calvin é a chave. Todavia, os tormentos do personagem precisam ser mantidos e nada dá certo para ele, como era de se esperar. Aqui, o roteiro de Roy Thomas e Len Wein (que estava preparando a primeira edição solo do Monstro do Pântano na mesma época!!!) mostra a dificuldade de viver sem poder falar quem é e sem entender completamente o alcance de suas habilidades ou “maldições”.

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Sai pra lá, bicho feio!

Como não há entendimento ou estabelecimento de um novo drama para o Homem-Coisa, o leitor é colocado apenas em uma trilha de maquinações envolvendo o governo e nada mais. Novamente temos um roteiro simples, com momentos e conceitos bons escondidos, esperando a oportunidade de desabrochar, mas não é aqui que isto acontece.

Com uma boa arte e boa captura visual daquelas tramas com “teorias da conspiração”, mitos caipiras e criaturas à la Frankenstein, essas duas revistas mostram de maneira interessante o que o Homem Coisa pode fazer — a questão do toque dele ser “ácido” para quem tem medo é muito legal — e o plano muito maior no qual ele está envolvido. Não demoraria muito tempo para a Marvel dar mais destaque ao personagem, embora não em uma revista solo. No final de 1972, ele começaria a aparecer com destaque na revista Adventure Into Fear, a partir da edição #10. Era o começo de uma longa jornada para o Pantanoso da Marvel.

Astonishing Tales #12 – 13 (Terror Stalks the Everglades! / Man-Thing!) — EUA, junho e agosto de 1972
No Brasil: Kazar #2 (Editora Paladino, 1972)
Roteiro: Roy Thomas, Len Wein
Arte: John Buscema, Neal Adams, John Romita, Rich Buckler
Arte-final: Dan Adkins
Letras: Jon Costa, Sam Rosen, John Costanza
Capas: John Buscema, Joe Sinnott, Jon Costa, Rich Buckler, Sam Rosen
Editoria: Stan Lee
45 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.