Crítica | Homem de Ferro 2

estrelas 2,5

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Continuações são quase sempre uma praga. São poucos os exemplos de continuações tão boas ou melhores que o filme original, sendo que O Poderoso ChefãoStar Wars (menos a Trilogia Prelúdio), Batman (menos o terceiro de Nolan) são todos exemplos dessas raridades. E isso, claro, partindo de um crítico que, normalmente, abomina continuações simplesmente pelo fato de elas serem continuações.

Homem de Ferro 2, infelizmente, não está na categoria de continuações que merecem o celuloide (ou HD) onde foram fixadas. E olha que, em um primeiro olhar, o problema poderia ser atribuído à  quantidade de personagens novos. No entanto, a questão é ainda mais profunda.

Temos Ivan Vanko/Chicote Negro (Mickey Rourke), Natasha Romanoff/Viúva Negra (Scarlett Johansson), Justin Hammer (Sam Rockwell) e Howard Stark (John Slattery), além de maiores participações de Nick Fury (Samuel L. Jackson), Happy Hogan (o diretor do filme Jon Favreau) e James Rhodes/Máquina de Combate (Don Cheadle, substituindo Terrence Howard). No entanto, nesse aspecto, o roteiro do filme (escrito por Justin Theroux) é esperto e consegue dar uma razoavelmente boa atenção a todos, dividindo bem o tempo de projeção para cada um.

Outro problema comum em continuações é o excesso de pirotecnia, mas, na verdade, Homem de Ferro 2 e até comedido nesse quesito. O vilão, Ivan Vanko, ameaça Tony Stark (o sempre divertido Robert Downey Jr.) por duas vezes e apanha que nem cão ladrão, facilmente, nas duas vezes. Obadiah Stane (Jeff Bridges), do primeiro filme, foi um vilão muito mais difícil de lidar que o ridículo Vanko  (tudo bem que o personagem vem dos quadrinhos, mas qual é o sentido prático daqueles chicotes vitaminados?) ou mesmo do que seu chefe, Justin Hammer que, apesar de ser encarnado pelo normalmente eficiente Sam Rockwell, na fita não parece mais do que uma criancinha mimada que faz bico e bate o pezinho, longe de ser um industrial ameaçador.

Mas, na verdade, não foi nenhum desses o grande problema do filme. A Marvel Studios, inebriada pelo sucesso de Homem de Ferro dois anos antes e esforçando-se para àquela época aplainar o terreno para sua grande aposta – Os Vingadores – resolveu usar Homem de Ferro 2 como um veículo para seu filme da super-equipe encabeçada pelo Ferroso, transformando a continuação, em última análise, em um trailer de 124 minutos do então vindouro primeiro filme da equipe. Há várias menções ao supergrupo que Nick Fury tenta criar, sendo que a Viúva Negra só está lá para “avaliar” Tony Stark e saber o quanto ele seria interessante para a equipe. E isso sem contar os vários – e pouco discretos – easter eggs para o deleite dos fãs (escudo do Capitão América, estou olhando para você!).

Com isso, o filme acabou tendo um miolo lento, até mesmo cansativo, em que vemos Tony bêbado (uma falsa esperança de que o roteiro enveredaria pelo interessante e inovador caminho do arco O Demônio na Garrafa dos quadrinhos, ainda na década de 70, em que o herói luta contra o alcoolismo) dentro da armadura gerando um sem-número de rasos conflitos emocionais. Ok, não se espera um filme de pancadaria a cada minuto, mas estamos falando do Homem de Ferro, não de um personagem shakespeariano. Faltou movimentação e o que temos de ação é muito rápido. Até mesmo o grande clímax na Stark Expo fica aquém do que poderia ser, não se comparando com o já não muito satisfatório embate entre Homem de Ferro e Monge de Ferro no final do primeiro filme.

E a história? Ela até poderia ser muito boa, se não tivesse sido usada tão fortemente com um prelúdio para Os Vingadores e não como um texto auto-contido como é a regra no UCM. Tony é o Homem de Ferro e essa sua condição deu uma sensação de paz ao mundo. No entanto, o reator Arc, que mantém Tony vivo, está, ao mesmo tempo, envenenando-o e ele se sente obrigado a aproveitar seus últimos momentos no mundo fazendo as maiores besteiras (o que inclui pilotar um carro de corrida). Sua celebridade mexeu com Ivan Vanko, um russo filho de Anton Vanko, que ajudara Howard Stark (pai de Tony) a imaginar o reator Arc, mas que, depois, caiu em desgraça. Ivan quer vingança e monta um uniforme com base na tecnologia de seu pai e acaba preso. O industrial arqui-inimigo de Stark, Justin Hammer, vê oportunidade aí e acaba juntando-se a Vanko para criar um exército de homens de ferro e ganhar o contrato militar americano, já que Tony se recusa a entregar a armadura.

A história é bem construída, mas sua execução acaba deixando muito a desejar e a panfletagem de Os Vingadores acaba funcionando apenas para os fãs ficarem salivando não pelo filme que estão assistindo, mas pelo que viria pela frente. Há um determinado momento, porém, em que o roteirista tropeçou feio. Stark cria, com base em um projeto de seu pai, um “novo elemento” que é tão irreal e ridículo, que tira toda e qualquer seriedade do filme, mesmo considerando a lógica interna de uma obra de super-heróis. Afinal de contas, por mais difícil que seja verdadeiramente acreditarmos em armaduras voadoras, dentro do contexto diegético de Homem de Ferro e sua continuação, esse conceito funciona bem, tendo uma organicidade que podemos acreditar. No entanto, a facilidade e rapidez com que Tony cria o tal elemento salvador da pátria é um péssimo exemplo de deus ex machina, literalmente introduzido para resolver o filme no último segundo. Não vimos isso no primeiro e essa invenção era absolutamente desnecessária aqui ou, pelo menos, mereceria um pouco mais de impressão de passagem temporal para efetivamente funcionar dentro da narrativa.

Não se enganem: Homem de Ferro 2 é, ainda, um filme divertido e Robert Downey Jr. dá um show, com tiradas excelentes e atitude perfeita. Mas, considerando-se o material que veio anteriormente, era de se esperar algo do mesmo naipe, que engajasse o espectador da mesma maneira.

Enfim, como um longo trailerHomem de Ferro 2 até funciona. Mas, como filme independente (e sim, é uma continuação, mas pouco importa, já que toda continuação deve no mínimo sobreviver como uma obra separada), a película fracassa fragorosamente e só agradará àqueles que querem gostar cegamente de qualquer coisa com o Homem de Ferro.

  • Crítica originalmente publicada em 23 de julho de 2014. Atualizada para republicação.

Homem de Ferro 2 (Iron Man 2, EUA, 2010)
Direção:
 Jon Favreau
Roteiro: Justin Theroux
Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Don Cheadle, Scarlett Johansson, Sam Rockwell, Mickey Rourke, Samuel L. Jackson, Clark Gregg, John Slattery, Garry Shandling, Paul Bettany, Kate Mara, Jon Favreau
Duração: 124 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.