Crítica | Homem de Ferro

iron man 2008

estrelas 4,5

Como todos já sabem muito bem, Homem de Ferro é o primeiro de um até agora incrivelmente bem costurado projeto da Marvel, fazendo com seus filmes aquilo que há décadas seu braço editorial faz com os quadrinhos: histórias independentes que, porém, se passam dentro de um universo unificado. Chamado de Universo Cinematográfico Marvel, essa intrincada e arriscada aposta começou quando a Marvel Studios ainda era independente, antes de sua aquisição pela Disney e chegou ao seu clímax com o estrondoso lançamento de Os Vingadores, em 2012, filme que mostrou de vez o acerto do planejamento.

E não é que Homem de Ferro tenha sido o primeiro filme de um dos heróis Marvel. Muito ao contrário, há vários outras obras anteriores de heróis Marvel, mas que foram produzidos por outros estúdios, com um controle (bem) limitado sobre o que a própria Marvel poderia apitar. Nessa esteira, temos a franquia X-Men, com seus já sete filmes, a franquia Homem-Aranha, com seus cinco filmes, Quarteto Fantástico, com dois filmes e uma série de outros menores.

Mas o que a Marvel fez desde 2008, culminando em 2012 é simplesmente sem precedentes. Ela costurou um clímax a partir de cinco filmes independentes que, apesar de contarem histórias diferentes, são mantidos colados uns aos outros por pequenos detalhes, uns discretos (como o soro usado no Abominável em O Incrível Hulk ser uma versão do soro do Capitão América) até os mais óbvios, representados pelas já famosas cenas pós-créditos. E o melhor de tudo é que a Marvel conseguiu manter uma certa consistência na geralmente boa qualidade de seus filmes.

Homem de Ferro foi o primeiro e, portanto, a aposta mais arriscada da produtora. Como trazer um herói altamente tecnológico para as telas de maneira crível e sem gastar um valor estratosférico, especialmente considerando que esse herói, ainda que muito familiar para aqueles que leem quadrinhos, não era tão conhecido assim do público em geral?

A primeira resposta para essa pergunta foi respondida com a perfeita escalação de Robert Downey Jr. no papel do multi-milionário bon vivant Tony Stark. Quem não conhece os quadrinhos aceita Downey Jr. pelo seu usual charme e qualidade de atuação (quando ele realmente quer, como foi o caso em Homem de Ferro). Quem conhece os quadrinhos (e, para eles, há vários easter eggs), chega-se à conclusão que Stan Lee deve ter viajado ao futuro, visto o ator atuar e voltou para o passado para criar o personagem à sua imagem. Robert Downey Jr., como ele deixa claro ao final do filme, simplesmente é o Homem de Ferro. As demais escalações, Gwyneth Paltrow no papel da secretária de Tony, Pepper Potts, Terrence Howard, no papel do melhor amigo de Tony, Rhodey e, finalmente, Jeff Bridges no papel do vilão Obadiah Stane, também não ficam muito atrás.

A segunda resposta para a mesma pergunta foi o tom irreverente dado ao filme. Ele consegue ser um drama quando precisa ser e uma comédia leve por quase todo o tempo. Isso retira o peso que alguns heróis carregam (como em Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Nolan) e significa um approach diferente a esse tipo de fita, meio que voltando ao estilo Richard Donner de dirigir Superman.

A terceira resposta foi o design. Desde a armadura Mark 1, pesadona e pouco prática, até o modelo mais moderno, passando pela mansão e os carros de Stark e pelos figurinos dos atores, tudo aponta para uma coisa só: sofisticação. O filme é visualmente lindo e irretocável.

A quarta resposta foi o roteiro. Não houve perfeição aqui, pois o finalzinho, com a luta das armaduras, não é totalmente satisfatório e, talvez, até simplório demais. De toda forma, a história até esse momento é cativante: Tony Stark é um multimilionário fabricante de armas. Em um teste de sua tecnologia mais recente para o exército americano em pleno Oriente Médio, Tony é capturado e obrigado a construir armas para os bandidos. Durante a captura, ele se fere gravemente no coração e só consegue sobreviver montando um mini reator Arc para manter os fragmentos de metal de explosivos longe de seu órgão vital. Meio recuperado, Tony e o outro prisioneiro, Yinsen (Shaun Toub), no lugar de fabricar armamento para o exército inimigo, criam uma armadura para permitir a fuga. Quando Tony volta aos EUA, ele está mudado e decide alterar sua política de fabricação e venda de armamentos, o que irrita seu sócio Obadiah Stane, já que as Indústrias Stark ganham muito dinheiro com a venda indiscriminada de suprimentos para os exércitos do mundo. Tony passa, então, a melhorar sua armadura, até chegar ao icônico modelo vermelho e dourado, passando a ter, então, uma vida dupla.

As peças do roteiro se encaixam muito bem, com uma levando à outra naturalmente e de maneira muito crível. E eu acho que é aí que sentimos a presença do trabalho de Jon Favreau na direção (ele faz também o papel de Happy Hogan, o motorista de Tony). Egresso de filmes infantis de pouco destaque como Um Duende em Nova Iorque e Zathura – Uma Aventura Espacial, Favreau dá um toque todo especial ao filme, mostrando-se um excelente diretor de atores, ainda que não tente alçar grandes voos em termos da direção com um todo. O que ele não consegue, como mencionei brevemente, é nos apresentar um ponto alto completamente extasiante. A luta entre Stane, com a armadura do Monge de Ferro e Stark é bem coreografada, mas carece de perigo para o protagonista. Sim, claro, trata-se de Tony Stark e ele não morrerá. Isso todo mundo sabe. Mesmo assim, faltou a Favreau a construção de suspense e de escalar o perigo de maneira crível e que realmente leve o espectador a roer as unhas.

De toda forma, mesmo com um final menos do que perfeito, Homem de Ferro é um excelente exemplo de equilíbrio entre história de origem e ação, comédia e drama, espetáculo pirotécnico e construção de personagem. Quando chega a grande luta final, o espectador já está hipnotizado pelo brilho da armadura do herói e pelo charme de Tony Stark ao ponto de nada mais importar. E isso diz muito do cuidado com a produção e da direção.

Homem de Ferro (Iron Man, EUA, 2008)
Direção:
 Jon Favreau
Roteiro: Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum, Matt Holloway
Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Terrence Howard, Jeff Bridges, Leslie Bibb, Shaun Toub, Faran Tahir, Clark Gregg, Bill Smitrovich
Duração: 126 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.